Bastidores: confira histórias curiosas que os repórteres viveram na cobertura do Bonfim

salvador
17.01.2020, 06:00:00
Atualizado: 17.01.2020, 14:45:45

Bastidores: confira histórias curiosas que os repórteres viveram na cobertura do Bonfim

Cobertura teve perrengue, repórter atleta e até venda de copos

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Bloquinho e caneta na mão são coisas do passado. Este ano, o CORREIO decidiu inovar na cobertura da Lavagem do Bonfim, nesta quinta (16), e mandou sua equipe para a rua com uma proposta diferente: mergulhar na festa, de corpo e alma. Viver cada pedacinho do que rolou por lá.

O objetivo era que cada um vivesse uma experiência diferente, para entender na pele a emoção de um devoto - ou nem tanto assim - em dia de festa. Teve repórter correndo, dançando, coladinho no santo, dando um saque nas escunas e até vendendo copos. Foi uma farra boa.

Nosso time que topou participar dessa aventura tem a seguinte escalação: Bruno Wendel, Donaldson Gomes, Gabriel Moura, Hilza Cordeiro, Marina Hortélio, Thais Borges, Vinícius Harfush e Vinícius Nascimento. E, como não dá para contar tanta história boa sem um olhar especial que mostre tudo isso, tivemos a participação dos nossos fotógrafos Arisson Marinho, Marina Silva e Tiago Caldas.

As equipes na rua também contaram os motoristas Florisvaldo Oliveira Lago (@lagoflorisvaldo); Luiz de Oliveira Santos; Reinaldo da Silva Freitas (@naldofreiitas); Sandro Luiz dos Santos Nascimento.

Fernanda Varela, Naiana Ribeiro e Jorge Gauthier integraram a equipe digital do CORREIO
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Não para por aí. Teve também a turma do ar-condicionado, que curtiu o fresquinho da redação, mas trabalhou intensamente para alimentar o tempo real do nosso site, publicar as matérias e contar para o leitor tudo que rolou na rua. Confira o nome dessa galera: Amanda Palma, Carol Neves, Fernanda Varela, João Gabriel Galdea (@galdea), Jorge Gauthier (@jorgegauthier) e Naiana Ribeiro (@itsnaiana).

O primeiro da equipe a chegar na festa foi Bruno Wendel, 39 anos, nosso repórter fitness. Ele teve como missão fazer o percurso de cerca de 8 km, entre a Basílica da Conceição da Praia e a Colina Sagrada, correndo. Chegou no local às 5h30, deu a largada às 7h e fez bonito, cruzando a linha de chegada em 40 minutos. "Não sei se foram 35 ou 40, na verdade", diz ele.

Bruno correu durante todo o percurso (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Bruno, que pratica atividade física regularmente, sofreu com o calor, mas disse que foi empurrado pela fé até chegar ao seu objetivo final. "Me questionei se eu ia conseguir fazer o percurso correndo, mas aí você olha para o lado e vê pessoas de todo tipo. Idosos, jovens, casais, atletas, gente andando, correndo, todos com o mesmo objetivo, todos tinham como combustível a fé, e isso motivou todo mundo", conta.

Por falar em fé, a repórter Hilza Cordeiro (@hilzacordeiro), 25, teve uma grande responsabilidade na cobertura da festa: ficou coladinha na imagem do Senhor do Bonfim durante todo o cortejo. Sentiu de perto a emoção do famoso ditado: quem tem fé, vai a pé.

"O caso que mais me comoveu foi o de uma mulher que, para pagar uma promessa, fez o percurso com uma dificuldade dupla: descalça e colada na corda. Ao chegar na Igreja, ela foi aos prantos", relata.

Apesar de toda beleza do momento, não pensem que não teve perrengue também. Ela conta que, em alguns momentos, achava que já estava no meio do Carnaval de Salvador.

"Nas três vezes em que fui à lavagem, cheguei após às 8h. Em todas as edições, sempre ouvi que a imagem do Senhor do Bonfim saía cedo e que o transporte dela no andor era apressado. Dessa vez, a imagem foi levada num carro cercado por cordas e essa novidade fez com que eu me sentisse num bloco de carnaval. Diversos voluntários, a maioria idosos, assumiram o papel de cordeiros para ajudar a dar passagem à imagem no meio do cortejo. Achei que seria tranquilo seguir o percurso ali dentro da estrutura, mas muita gente queria estar próxima à imagem e diversos penetras adentravam a corda para garantir uma foto e um toque no Senhor. O movimento fez a corda romper pelo menos seis vezes, mas os fiéis estavam determinados a chegar na colina", completa.

Aqui na Bahia é assim: se a festa popular tem lado sagrado, logo depois vem o lado profano. E nesse time também teve gente que levou a Lavagem do Bonfim bem a sério e lavou a alma. Foi o caso do estagiário Gabriel Moura (@g.abrielmoura), que na véspera do seu aniversário de 23 anos recebeu a "dificílima" missão de ser praticamente um folião no evento, acompanhando toda a farra. Ele, claro, não reclamou.

"Eu fui pra lá comer água e entrevistar quem estava comendo água. Descobri que eu tenho que ir fantasiado de repórter para as festas, porque era só o povo ver meu crachá que ofereciam cerveja. Fiquei com a melhor parte, né?", brincou ele, que recusou bebida de estranhos por segurança e saiu de lá com quatro latinhas na conta.

Marina Hortélio e Gabriel Moura (Fotos: Reprodução)

"Foi muito bom, nunca tinha trabalhado cobrindo um evento onde fui repórter e personagem. E eu nunca tinha ido na Lavagem do Bonfim, estava meio nervoso, achei que era muita muvuca, mas foi bem de boa. Também achei que seria mais cansativo, mas foi massa", completou. 

A dupla Donaldson Gomes, 39, e Thais Borges (@thaie), 26 - um com 1,82 m e outra com 1,53 m -  foi gigante na cobertura das personalidades baianas que estavam na festa. Ela, que é repórter, ficou responsável por seguir o percurso na cola do prefeito ACM Neto e ele, editor, não deixou escapar nada da turma do Governo do Estado, que foi representado pelo vice João Leão, já que Rui Costa precisou faltar à comemoração por recomendação médica.

Nessas horas, descobrimos que altura não faz tanta diferença. Na muvuca, os dois foram engolidos pela multidão, mas resistiram bravamente. O maior desafio de Thais foi driblar a galera que tietava o gestor municipal.

"Não é a coisa mais fácil do mundo acompanhar Neto na lavagem, porque ele é muito abordado por fãs e admiradores. Esse ano eu notei que ele foi muito tietado, é difícil demais chegar perto dele. Isso foi tão intenso que a equipe do prefeito precisou pedir para dar um espaço para ele respirar, porque estava muito quente e ele estava muito emocionado, chorando", explica.

Thais Borges passou sufoco na lavagem (Foto: Reprodução)

Thais, que está na sua sexta cobertura da festa, disse ainda que ficou negativamente surpresa com algumas mudanças no Bonfim. "Foi muito difícil chegar no adro. Como as baianas esse ano lavaram as escadarias, o cercado colocado tirou muito o espaço das pessoas e ficou um amontoado de gente. As pessoas não conseguiam prender as fitinhas na grade e começaram a vaiar muito, foi a primeira vez que vi isso acontecer. Uma coisa muito boa que aconteceu foi que a reforma ali na região ampliou as calçadas, o que folgou mais o percurso em si, como no Dendezeiros, por exemplo. Ali deu para andar mais em paz".

Este ano, o prefeito demorou mais durante o percurso, para atender a todos que se aproximavam e tirar fotos. De camisa branca, com os dizeres "Só a agradecer - Bonfim 2020", ele fez o trajeto acompanhado do vice-prefeito e pré-candidato Bruno Reis, e de secretários da gestão municipal, como os presidentes da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington; da Empresa de Limpeza Urbana (Limpurb), Marcus Passos; o superintendente da Superintendência de Trânsito do Salvador (Transalvador), Fabrizzio Muller, e os secretários de turismo, Claudio Tinoco, e de Saúde, Leo Prates, que participou só do início do desfile.

Já Donaldson, que cobre a Lavagem desde 2008, teve dificuldades pela dispersão do bloco dos petistas. "Como uma festa de rua deve ser, o Bonfim não tem uma organização muito rígida em seu cortejo, mas pude perceber essa situação de maneira mais intensa este ano, cobrindo o 'bloco' do grupo político ligado ao governador Rui Costa. Sem ele por lá, os seus correligionários se espalharam pelo cortejo, sem  que fosse possível perceber um grupo, como normalmente acontece", explica.

Donaldson cobre a Lavagem do Bonfim desde 2008 (Foto: Reprodução)

"A cobertura de política no Bonfim – assim como no Dois de Julho ou em outras festas populares – é muito interessante pois permite ver os poderosos em contato direto com o povo. É assim em todas as coberturas que eu fiz", completa. 

A aventura do time do CORREIO não parou por aí. Nessa nova proposta também teve repórter que encarou a festa como milhares de baianos. A estagiária Marina Hortélio (@marinahortelio), 22, foi a campo para ver como era a vida do vendedor no dia da Lavagem, e acabou virando um deles por acaso.

"Eu tinha como missão saber como era o trabalho dos ambulantes, se eles estavam se divertindo, cansados, vendendo bem. Quando fui acompanhar o trabalho de uma barraca que vendia copos, o dono me largou lá. Fiquei com cara de tacho, mas consegui vender três copos. Brotava gente de todos os lados! Acabei ajudando, dizendo que o copo custava R$ 5, aí esperei ele voltar e entreguei o dinheiro", disse ela aos risos. 

Pensa que acabou? Não mesmo. O CORREIO também mandou seus dois estagiários Vinícius para a rua, para que ambos pudessem viver diferentes personagens. Enquanto o de sobrenome Nascimento (@eusouvinino), 23 anos, acompanhou quem fez o percurso de volta para casa, o outro, nosso caçulinha Harfush (@_harfush), de apenas 20 anos, ficou responsável por se enturmar com os inimigos do fim, aqueles que não desgrudam da festa e curtem até não aguentarem mais.  Ele cobriu os eventos privados Enxaguada do Bonfim, com Carlinhos Brown e convidados, e o Bonfim de Tarde, com Bell Marques e É o Tchan.

Vinícius Harfush e Vinícius Nascimento (Foto: Reprodução)

Vinícius Nascimento conversou com a galera que volta pelo caminho das águas, de escuna, mas não descolou uma carona. "É difícil ter acesso ao pessoal, porque ou você já chega de pulseira ou pega um barquinho para ir até a escuna, aí não rolou, mas achei curioso o tanto de gente que volta da festa de barco. Nasci na Cidade Baixa e isso é fora da minha realidade, não imaginei que fosse comum assim", conta ele, que não pôde curtir o trajeto com sua famosa sunga neon.

Depois, Vinícius bateu um papo com o pessoal que estava em terra firme. Foi assim que descobriu que os aplicativos estavam caríssimos e cobrando até R$ 100 em percurso que, normalmente, não chega a R$ 30.

O trabalho foi intenso, mas ele, que é estagiário da editoria de esportes, voltou para a redação feliz da vida. "Foi muito bom, porque eu sou de outra editoria, então não ia para o Bonfim. Como me pediram para cobrir, eu fui, e essa é a festa que eu mais amo no calendário popular de Salvador. Hoje fui cedinho e consegui curtir tudo, fiquei muito feliz com isso. Só deu um pouquinho de vergonha de gravar vídeos", confessa ele - que brilhou nas gravações e teve seu potencial elogiado nos bastidores.  

Se Nascimento estava radiante, Harfush estava ainda mais. É o que conta nosso talento prodígio de sobrenome árabe, que recebeu o que classificamos como "missão para muito jovens", como ele se define. 

"Para mim a melhor parte de cobrir uma festa como essa é que eu curto muito axé. Poder trabalhar ouvindo essa prévia do Carnaval é bom demais. Dá até um gostinho de folga", brinca. Ele se arriscou até a dar uma sarrada no ar na companhia do cantor Tony Salles.

Olhares apurados
De nada adiantaria escrever belos textos sobre o Bonfim se o leitor não pudesse ver os detalhes da celebração. Essa foi a missão dos nossos fotógrafos: contar com imagens a grandeza da Lavagem do Bonfim.

A responsável pela parte sagrada foi Marina Silva, 37. Única mulher nesse trio, ela clicou todos os detalhes da festa religiosa, o cortejo e a adoração dos fieis.

"Achei a cobertura desse ano bem diferente, até porque foi a primeira vez que eu fiz o percurso inteiro perto da imagem. O que me surpreendeu foi a presença de cordas em volta dela, senti um distanciamento do público. Também vivi a experiência de ver a imagem chegando, teve muito empurra-empurra, parecia mesmo Carnaval. Antes, eu só via de longe", relata.

"Por outro lado, a lavagem foi muito melhor esse ano. As baianas não lavaram o adro da igreja, e sim as escadarias mesmo. Antes pouca gente via a lavagem de fato. Para nós, fotógrafos, foi bem melhor", acrescenta.

Já Arisson Marinho, 38, seguiu o prefeito ACM Neto e seus admiradores e, depois, seguiu para capturar todos os detalhes de quem estava fazendo a festa e se esbaldando na parte profana. Para ele, que cobre a lavagem há oito anos, o clima estava diferente este ano.

Arisson Marinho (Foto: Reprodução)

"Não vi nenhuma roda de samba, apenas duas de capoeira e quase não vi baianas no percurso. Achei meio fraco em relação ao que estou acostumado. Também notei que a imagem saiu muito cedo e sem aviso, então muita gente ficou me perguntando se já tinha saído. As pessoas estavam meio perdidas", narrou.

Novato no time do CORREIO, Tiago Caldas foi o responsável por fotografar cada passo de Bruno, o repórter fitness, o trabalho dos ambulantes e correu para acompanhar os petistas do Governo. 

Empolgado, Tiago, 25, curtiu o trabalho. Não apenas por fazer pautas diferentes em seu primeiro ano de cobertura pelo CORREIO, mas por cobrir pautas diferentes do que está habituado.

Tiago Caldas curtiu a pauta envolvendo esporte e fé (Foto: Acervo pessoal)

"É meu quinto ano consecutivo cobrindo e curti porque fiz pautas diferentes. Consegui me identificar muito com esse negócio de fé e atividade física, curti a pauta da corrida. Além disso, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas. A cada ano enche mais. Me surpreende a fé das pessoas".

Os cliques de todos os fotógrafos podem ser conferidos nas matérias já publicadas e também nas galerias individuais de cada um deles, que já estão disponíveis no nosso portal. Basta digitar "O Bonfim que vi" na busca e conferir os melhores cliques, selecionados por eles mesmos.

Bombou
Tanto trabalho valeu muito a pena e rendeu ao CORREIO um site recheado de notícias de umas das mais lindas festas religiosas da Bahia, com visões totalmente diferentes de quem a viveu, além de uma edição impressa para ficar na memória, que vai às bancas nesta sexta-feira (17), ressaca do Bonfim.

Só para se ter uma noção, nessa quinta (16), a notícia mais lida do site foi essa daqui: Lavagem do Bonfim 2020: acompanhe tudo que acontece em tempo real. Quem não conseguiu ir para a rua curtiu tudo o que aconteceu no evento, como se estivesse lá. 

Percebemos também que nosso trabalho serviu para aquecer o coração de quem estava longe de casa - ou daqueles que admiram tanto a capital baiana que já estão fazendo planos para amarrar uma fitinha no pulso em 2021. É que parte desses acessos veio de pessoas de fora do estado ou até do país.

"O jornal CORREIO tem a tradição de fazer coberturas de festas populares com olhares diferenciados. Este ano decidimos fazer uma interação de parte da nossa equipe de reportagem com a vivência das pautas. Toda produção de conteúdo foi pensada para multiplataformas, com inovações nas plataformas digitais", explica Jorge Gauthier, 32, chefe de reportagem do CORREIO, que coordenou a cobertura digital e produção impressa do Bonfim.

Nessa aventura, que teve oração, fé, suor, cerveja, fitinhas, escunas e quebradeira, fica a lição: a melhor forma de contar a história é vivendo ela. Foi lindo. Até 2021!

Todo o conteúdo produzido sobre a Lavagem do Bonfim está disponível no nosso portal - correio24horas.com.br - e no jornal impresso, à venda nas bancas.

A cobertura do CORREIO de Festas Populares da Bahia tem patrocínio da Claro e apoio institucional da Prefeitura de Salvador.

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