Biólogos trabalham contra a ‘cegueira botânica’ em praça do Rio Vermelho

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22.01.2022, 16:00:00
Rogério Murayama e Goia Lyra identificaram mais de 80 plantas em praça pública (Marina Silva)

Biólogos trabalham contra a ‘cegueira botânica’ em praça do Rio Vermelho

Projeto Parques Botânicos identifica espécies para evitar derrubada de árvores e envolver população na preservação das plantas

Quando percebeu que a Praça Morro das Vivendas, no Rio Vermelho, seria requalificada e corria risco de ter árvores cortadas, Goia Lyra resolveu agir. Munida pelo conhecimento especializado, a professora visitante do programa de pós-graduação de Biodiversidade e Evolução da Universidade Federal da Bahia (UFBa) contou com a ajuda do mestrando Rogério Murayama para destacar a importância de cada uma daquelas plantas – literalmente. 

Ao longo de duas semanas, Goia e Rogério se dedicaram a fazer o levantamento e reconhecimento das mais de 80 plantas, entre árvores, mudas e flores, que estão na praça. Já são 35 espécies catalogadas, devidamente etiquetadas com nome popular, nome científico, família e origem. Tudo isso em plaquinhas plastificadas com QR code que dirige os interessados à página correspondente do herbário virtual do projeto Reflora, capitaneado pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. 

“A praça tem uma biodiversidade grande. Queremos aproveitar essa iniciativa para, além de inibir a derrubada de árvores, educar as pessoas. Contribuir para a diminuição da cegueira botânica, que é quando as pessoas olham um parque e só enxergam o verde, acham que é tudo igual. E não, cada planta, cada árvore tem sua identidade, tem sua história”, explicou a professora. 

O projeto foi batizado Parque Botânico e já tem perfil no instagram: @projeto_parques_botanicos. Das espécies catalogadas, a que mais aparece é a amendoeira, tradicional em Salvador, bem como sumaúma, árvore característica do Campo Grande, e palmeira imperial. “E muito fícus, que é uma planta comum em jardins planejados, porque, em tese, ela cresce organizada”, alfinetou Goia. Mas mesmo num espaço eminentemente soteropolitano é possível encontrar plantas menos comuns. 

“Tem um pomar com árvores frutíferas, muda de graviola, banana, manga… Isso mostra o envolvimento afetivo das pessoas com a praça. Plantas de outros lugares, que os moradores trouxeram de viagens. Tem inclusive um manacá cheiroso”, apontou Rogério. “O manacá é normalmente encontrado na serra. Ainda estou esperando crescer para fazer a identificação correta”. Tanto o manacá cheiroso como o manacá da serra são comuns em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. 

E como uma muda veio parar numa praça em Salvador? Christiana Fausto, aposentada que mora no local há dois anos, é uma das entusiastas da praça e também do projeto. Ela é uma das responsáveis por deixar o local um pouco mais exótico. 

“Eu já era muito apegada a essa praça, foi um dos motivos pelos quais escolhi comprar meu apartamento. E quando começaram a colocar os nomes nas plantas, corri para ver as minhas. Trouxe quatro plantas para cá, uma acácia, que não vingou, um jacarandá mimoso, um ipê rosa e o manacá”, disse, orgulhosa. “Quando você dá nome às coisas, elas se tornam mais reais, você passa a individualizar. E quando você coloca o nome científico, a família, a origem, impõe mais respeito. Espero que nossas árvores sejam respeitadas”, completou. 

Um exemplar do Pau Brasil está na praça (Marina Silva)

Equilíbrio
Rogério atenta para a importância da manutenção dos espaços verdes, por menores que sejam, para a preservação ambiental e também da qualidade de vida. “Salvador tem vivido esse movimento de revitalização, onde comumente há derrubada de árvores, como na Avenida Vasco da Gama, as amendoeiras do Rio Vermelho, o projeto do metrô. E não adianta somente replantar, porque será em outro lugar, serão outras espécies, com idades diferentes. Quando você derruba uma árvore, você causa impacto ambiental na quantidade de gás carbônico contido que será liberado, nos insetos e animais que vivem ali”. 

Além disso, um ambiente arborizado ajuda a manter a temperatura mais amena. “As árvores, sobretudo as árvores maiores, criam microclimas. Quem mora em área arborizada sente uma temperatura mais amena, que se mantém mais fresca mesmo em épocas mais quentes. É o oposto das ilhas de calor, comuns na cidade”, lembrou Goia. 

Espaço para crescer
A ideia de Goia é transformar o Parque Botânico em projeto de extensão da UFBa e ampliar para outras praças, criar parcerias com escolas e realizar visitas guiadas para crianças. Outra ideia que já começou a maturar é monitorar outros seres vivos no local. 

 “Faz parte das minhas atribuições como professora desenvolver projetos de extensão, me aproximar da sociedade. Tenho recebido contatos de colegas que querem se tornar voluntários, não apenas na parte botânica, mas fazer avistamento de pássaros, criar um painel com as fotos e as espécies que circulam por aqui”, explicou a professora. 

Com a ampliação para animais, a possibilidade de registro de espécies raras aumenta. Rogério viu isso dentro de casa. “Recentemente fiz um jardim no meu apartamento e percebi os insetos, e tinha umas abelhas do tipo euglossini, que as vezes é confundida com a mosca varejeira. Fiquei surpreso porque ela é mais comum no interior, nunca esperei encontrar essa espécie na cidade pelo tanto de inseticida em aerossol que temos por aqui”. 

A colaboração pode partir, inclusive, dos moradores: a própria Christiana é uma entusiasta da fauna do Parque Botânico e já é próxima de alguns desses animais. “Aqui tem muito pássaro, muito mesmo. A gente observa que tem muito bem-te-vi, sabiá, lavadeira, sanhaço. Além dos micos, são nove que eu conheço aqui. Todo dia eles vêm comer banana e frutas que os moradores colocam especialmente para eles”. 

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