Caminhoneiros conseguem 18% de aumento e encerram greve no Porto de Salvador

salvador
30.03.2021, 05:00:00
Movimentação de veículos foi normalizada ontem (Mauro Akin Assor/Arquivo CORREIO)

Caminhoneiros conseguem 18% de aumento e encerram greve no Porto de Salvador

Paralisação comprometeu movimentação de cargas nos últimos seis dias

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A greve dos transportadores autônomos que movimentam cargas no Porto Salvador chegou ao fim ontem, após um acordo entre os trabalhadoras e as empresas transportadoras por um reajuste de 18% no valor do frete. O movimento grevista foi a segunda demonstração da disposição dos caminhoneiros de cruzarem os braços neste ano em busca de melhores condições de trabalho. Em primeiro de fevereiro representantes da categoria convocaram um dia de paralisação nacional. 

Se entre os transportadores autônomos do Porto de Salvador houve uma solução encaminhada, o mesmo não se pode dizer do cenário nacional, acredita Luciano Oliva, representante do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos do Estado da Bahia (Sindicam-Ba). Em Salvador, aproximadamente 1,5 mil motoristas autônomos respondem por 75% das cargas movimentadas no Terminal de Contêineres (Tecon), estima o sindicalista. 

Embora não exista um número oficial, uma fonte que conhece a operação do Tecon estima que apenas aproximadamente 150 contêineres de frutas da região do Vale do São Francisco – carga perecível – precisaram ser escoados dos outros portos no período. No caso das outras caras de exportação, não teria havido prejuízo porque as mesmas devem ser movimentadas nas próximas duas semanas. Em relação à importação, também não houve cancelamentos de escala. O pátio do Tecon está com mais de 7 mil TEUs (equivalentes ao contêiner tamanho padrão) para movimentar. 

Luciano Oliva conta que o acordo firmado com as transportadoras prevê, além do reajuste de 18%, algumas vantagens para a categoria, como a definição de um prazo anual para a realização de novas conversas anualmente e a possibilidade de ajustes à variação nos preços do óleo diesel, principal insumo utilizado no transporte rodoviário. O acordo foi firmado numa reunião realizada na sede da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), com a mediação do presidente da entidade, Carlos Autram, e a presença de representantes dos trabalhadores e empresas. 

De acordo com Oliva, todos os pedidos feitos foram atendidos, com exceção do reajuste solicitado, que era de 22%. “O que nós estamos recebendo não repõe os três anos que nós ficamos sem receber nada, estamos cedendo para que este impasse se acabe. Temos a expectativa de sentarmos e negociar anualmente”, diz. 

Os custos do setor de transporte são medidos pelo Índice Nacional da Variação de Custos do Transporte Rodoviário de Cargas Fracionadas (INCTF), calculado pela NTC&Logística. Nos últimos doze meses, entre março de 2020 e fevereiro de 2021, o indicador acumulou uma alta de 11,98%. No mesmo período, a inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA, foi de 5,20%.  Só o diesel S-10 registrou uma alta de 12,49% em apenas um mês. 

Os chamados autônomos ganharam uma grande relevância na movimentação de cargas do setor produtivo baiano, seja no escoamento da produção, ou trazendo matérias-primas provenientes do comércio exterior. Um representante do setor empresarial a par das negociações explica que para as empresas que atuam no setor de transportes em muitos casos é vantajoso sublocar os contratos para autônomos. Isso se dá principalmente na movimentação entre as fábricas da Região Metropolitana de Salvador e o Tecon. 

“As fábricas contratam transportadoras e essas transportadoras contratam os autônomos. Às vezes este processo cria um impasse porque o contrato entre a fábrica e a empresa de transporte é de longo prazo e no meio deste processo o autônomo, que tem uma relação com a transportadora, cobra mudanças”, explica. Segundo este empresário, há três interesses envolvidos: donos de cargas querendo pagar o menor frete possível, empresas de transportes que repassam parte das operações para os autônomos e estes últimos que pressionam a cadeia com as paralisações, em busca de melhores condições de trabalho. 

Ele reconhece que as margens pagas são “muito baixas” e que a situação se agravou com os recentes aumentos nos preços dos insumos, principalmente no caso do diesel. 

Setor empresarial
O diretor executivo da Usuport, Paulo Villa, lembrou que o momento é muito complicado para as empresas donas de carga e que o reajuste de 18% que as mesmas terão que negociar com as transportadas é pesado. Porém, ressalta, é muito melhor arcar com o custo e resolver o problema. Villa diz que o tamanho do prejuízo pelos dias parados é até difícil de mensurar porque muitas empresas optam por reduzir ou até suspender a produção nessa situação, mas não se trata de algo fácil de mensurar. 

“Momento não é fácil para nenhuma empresa, são raros os negócios ganhando dinheiro com essa crise toda gerada pela pandemia. Não é momento para radicalizar. Se foi um bom acordo, só o tempo dirá. O importante foi parar a greve porque  a Bahia não suporta mais desemprego”, pondera. 

Ele conta que durante o período da paralisação teve apedrejamento de caminhões, ameaças e caminhoneiros que desistiram de carregar ou descarregar, além de muitos bloqueios de acessos. “Estava chegando a uma situação em que poderia desabastecer indústrias e empresas de importação e exportação”, conta. 

O representante da Usuport lembra que o setor de transportes rodoviários é “altamente competitivo” e que este cenário se ampliou desde a greve de 2018 porque muitas empresas ampliaram as suas frotas próprias, ao mesmo tempo em que o volume de cargas diminuiu com a crise econômica. “Para resolvermos a questão precisamos de uma política industrial, uma política de logística, para aumentar a movimentação de cargas”, acredita. “É preciso colocar a economia para funcionar a todo o vapor. Temos que produzir, movimentar cargas”, acredita. 

Custos pressionam
Embora o combustível tenha sido de longe o insumo que mais aumentou nos últimos anos, não é o único, destaca Luciano Oliva. “Tudo o que envolve a manutenção do caminhão ficou extremamente caro recentemente. Tem o pneu, mecânico, eletricista, o transporte envolve uma cadeia enorme”, lembra. “Todos os insumos necessários para fazer a manutenção em um carro estão muito caros”, reclama. 

Luciano Oliva explica que, embora a solução para os profissionais que atuam no Porto de Salvador tenha sido encaminhada ontem, ninguém deve se surpreender com novos movimentos de pressão relacionados ao transporte rodoviário. “Nós vivemos um momento parecido com aquele em 2018. E, só para lembrar, aquele movimento nacional em maio de 2018 começou exatamente aqui”, diz. 

“Quando outros motoristas viram que conseguimos o nosso pleito após a paralisação no porto iniciou-se uma greve nacional”, lembra. “A tabela do frete mínimo nacional não contempla muita coisa”. Além disso, lembra, foi prometida em 2019 uma linha de crédito para auxiliar na manutenção dos caminhões no valor de R$ 30 mil, que não teria sido lido liberada ainda.  

O empresário Daniel Muricy, da Logic Logística, conta que foi necessário um grande esforço para alcançar o índice de 18%. A Logic é uma operadora logística baiana, associada da Usuport. “O índice nacional de custos do setor indicou um aumento entre 22% e 23% desde 2018 e como os autônomos representam grande parte dos caminhões que movimentam contêineres no porto, eles tem uma força muito grande”, pondera. 

Ele explica que a negociação com os caminhoneiros tem efeito imediato em relação ao final da greve, mas os novos valores entrarão em vigor apenas depois de 20 dias. Agora, as transportadoras vão renegociar os contratos com os donos de carga, explica. Segundo ele, normalmente apenas uma parte do reajuste costuma ser repassada aos contratos. “O máximo que já consegui como transportadora foi de 7,9%. É uma negociação dura, a gente tem que bancar boa parte do aumento”, explica. 

Muricy conta que nos últimos anos os principais insumos relacionados ao transporte tiveram reajustes acima da inflação oficial do Brasil. “Nós vivemos uma situação é simples e complexa ao mesmo tempo porque os contratos já preveem reajustes anuais, mas as empresas não querem conceder os reajustes”, destaca. 

Daniel Muricy acredita que o assunto deveria receber mais atenção por parte do poder público. “Impacto na economia é muito grande, deveria ter tido mais atenção”. 

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