Carro não, bonde: Vasco da Gama era Rio Vermelho de Baixo e tinha linha para o Campo Grande

clarissa pacheco
04.10.2020, 07:00:00
Atualizado: 04.10.2020, 17:20:15

Carro não, bonde: Vasco da Gama era Rio Vermelho de Baixo e tinha linha para o Campo Grande

Via também foi chamada de Estrada Dois de Julho e tinha até roças à venda

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Avenida Vasco da Gama, em Salvador, em 1979; antes, foi chamada de Estrada Dois de Julho e Rio Vermelho de Baixo
(Foto: Arquivo CORREIO)

Esta foto da Avenida Vasco da Gama, feita em 1979, quando acontecia uma intervenção no paisagismo da região, em nada se assemelha à Vasco conhecida de hoje. Naquele ano, o fluxo de veículos já era intenso – a Vasco era uma das avenidas de vale implantadas pouco antes, junto com a Mário Leal Ferreira (Bonocô), a ACM e a Garibaldi. Nos anos seguintes, estas seriam, junto com a Paralela e a Octávio Mangabeira, as vias mais movimentadas de Salvador.

Mas nesta foto do final da década de 1970, talvez só o Rio Lucaia traga alguma lembrança um pouco mais próxima da via atual, por onde passam, diariamente, segundo a Transalvador, mais de 17 mil veículos. Na década de 1970, ela já se chamava Vasco da Gama e já tinha uma via de ligação com a Centenário. "O que mais chama a minha atenção é a ausência de construções em torno da avenida, o que comprova aquela ideia dos vales da cidade de Salvador a partir da segunda metade do século XX", explica o historiador Rafael Dantas, estudioso da iconografia da cidade de Salvador nos séculos XIX e XX.

"Muitas dessas áreas eram antigas chácaras, fazendas, roças, que foram rasgadas, literalmente, pelas reformas urbanas da prefeitura de Antonio Carlos Magalhães de 1967 a 1971 e do primeiro governo, de 1971 a 1975. Ele foi muito eficaz no sentido de tirar do papel os projetos do engenheiro Mário Leal Ferreira, que tinham sido pensados décadas antes, mas que não tinham sido aplicados em sua plenitude", completa Rafael, que vê na fotografia a cidade traçando seus caminhos para a conquista de outras regiões além-Centro.

Esse caráter rural da região, com chácaras usadas inclusive por regiões de matriz africana, é o que explica uma pequena nota publicada em 1935 no jornal baiano O Imparcial. No dia 5 de fevereiro daquele ano, um senhor chamado Domingos Ramos anunciou a venda de uma roça no Caminho do Rio Vermelho de Baixo, “bem plantada com árvores frutíferas”. Por falar em árvores, um trabalho feito em 2008 por Gabriel Salles Góes mostrou que a Vasco da Gama tinha 53 espécies arbóreas – em Salvador, só perdia para a Ufba, com 103.

"É importante destacar isso porque mostra que na década de 1970 para 1980, a cidade ainda era viva sob esse aspecto, uma cidade com áreas consideravelmente verdes", sinaliza Rafael.

O Imparcial, em 5 de fevereiro de 1935
(Imagem: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

A avenida, hoje uma das mais movimentadas da cidade, passou por muitas transformações ao longo dos anos, a começar pelo nome. No século passado, já foi chamada de Estrada Dois de Julho e, como mostrou o jornal de 1935, também era conhecida como Rio Vermelho de Baixo. Já era este o nome em 1913, quando uma fotografia, publicada no livro ‘A Cidade da Bahia e a Eletricidade’, do historiador Daniel Rebouças, mostra o trecho que hoje compreende a Rua Conselheiro Pedro Luiz, no Rio Vermelho. Na imagem, aparecem dois bondes da Companhia Trilhos Centrais trafegando pelo local. Provavelmente, o Rio Vermelho de Baixo estava na rota.

Os terminais dos bondes ficavam no Largo da Mariquita e, quem queria chegar à região do Campo Grande usando o transporte tinha duas alternativas: pelo Rio Vermelho de Cima (hoje Avenida Garibaldi) ou pelo Rio Vermelho de Baixo (hoje Vasco da Gama). Em entrevista ao CORREIO em 2014, o urbanista Armando Branco lembrou que, pelo Rio Vermelho de Baixo, passava uma linha de um sentido só.

Apesar da alcunha, em 1935 a via já se chamava oficialmente Vasco da Gama, mas era uma rua, não uma avenida. O jornal O Imparcial publicou mais duas notas ao longo daquele ano citando o local – uma delas anunciava que acidentes poderiam acontecer na Curva da Villa América, que fazia parte da via. O autor da nota criticava o fato de a Companhia Linha Circular estar usando trilhos simples, quando deveriam ser duplos, numa curva fechada. ‘Não está certo’, era o título.

Jornal O Imparcial, em 2 de outubro de 1935
(Imagem: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

“É claro que, si os trilhos são simples, quando a curva é mais fechada, ha grande possibilidade de saltarem os trilhos dos bondes, o que acontece em outros pontos da cidade, onde os ramaes da Circular encontram curvas semelhantes”, diz o jornal.

Outra nota no mesmo ano avisa que uma carteira de identidade pertencente ao senhor Antonio Carlos de Oliveira tinha sido encontrada na Estrada Dois de Julho (Rio Vermelho de Baixo) pelo soldado-bombeiro Chrispiniano Gregorio de Souza. O aviso era dado pelo chefe dele, o Dr. Quintino Castellar, sub-comandante do corpo de bombeiros.

Jornal O Imparcial, em 18 de dezembro de 1935
(Imagem: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Em 1948, a Rua Vasco da Gama tinha até bloco carnavalesco. Os 300 Cabrochas, sediado por lá, ficou com o segundo lugar no concurso de Carnaval do jornal O Momento. Cinco anos depois, a rua era até endereço para festa de formatura. Em 1953, os pais da formanda Edite Teresinha Bastos Baracho anunciaram que receberiam as pessoas em sua casa, na Rua Vasco da Gama, 46, para festejar o diploma em contabilidade da moça, recém formada Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia.
 

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