Casal gay é executado dentro de banheiro em área de facção em Pirajá

salvador
25.04.2018, 12:55:00
Atualizado: 25.04.2018, 17:03:45

Casal gay é executado dentro de banheiro em área de facção em Pirajá

Crime ocorreu quando vítimas estavam em casa; segundo perícia, eles lutaram com os assassinos

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(Mauro Akim Nassor/CORREIO)

O que pode acontecer de pior com uma mãe é perder um filho? No final da noite da última terça-feira (24), a dona de casa Francisca Alves da Silva, 45 anos, reviveu essa dor. O seu filho mais novo, o estudante Josenildo da Silva da Palma, 18, foi baleado com diversos tiros junto com o namorado, o cozinheiro Fábio de Jesus, 35, na Travessa Santos Dumont, no bairro de Campinas de Pirajá, em Salvador.

”Eu já tinha perdido um outro filho de tiro em Nazaré das Farinhas, há uns cinco anos. E, agora, esse foi também. Não sei o que dizer, porque mesmo que a justiça seja feita ele não vai voltar mais. Eu nunca mais vou ver. Meu filho nunca mais vai me dar a benção”, lamentou ela, enquanto aguardava a remoção do corpo de Josenildo. O crime ocorreu por volta das 23h, mas a Polícia Técnica só chegou ao local na manhã desta quarta (25), por volta das 7h. 

(Mauro Akim Nassor)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akim Nassor)
(Mauro Akim Nassor)
(Milena Teixeira/CORREIO)

De acordo com o perito criminal, José Lázaro de Sá Barreto, no momento dos disparos as vítimas possivelmente estavam no quarto e correram para o banheiro da residência - onde foram encontrados mortos de cueca.

“Os dois foram achados com lesões múltiplas no banheiro. Eles podem ter corrido pra lá pra se abrigar. Há ainda sinais de que houve briga e que quem entrou estava fazendo algum tipo de busca”, explicou o perito.

Ainda segundo o Barreto, o portão da casa foi atingido com tiros. “Diversas munições foram utilizadas no crime. A casa também foi arrombada”, completou. Vizinhos e curiosos acompanharam as retiradas dos corpos, mas ninguém falou com a reportagem do CORREIO.

Fábio e Josenildo haviam se mudado para o local havia pouco mais de três meses. Eles estavam juntos tinha quase dois anos, mas moravam em outra rua, de acordo com Francisca, que também vive na rua onde ocorreu o crime.

Investigação
A assessoria de comunicação da Polícia Militar (PM)  informou que na manhã desta quarta (25), policiais da 9ª Companhia Independente de PM (CIPM/Pirajá) receberam a informação do Centro Integrado de Comunicação (Cicom), informando que na Travessa Santos Dumont havia dois corpos do sexo masculino, ambos vítimas de disparos de arma de fogo, dentro de uma residência.

No local, os PMs, após constatarem o fato, isolaram a área e solicitaram os agentes do Departamento de Polícia Técnica (DPT) para remoção dos corpos.

O delegado Líbio Braga Oteroesteve na rua durante a retirada dos corpos. Segundo ele, nenhum homícidio acontece naquela área sem a permissão do líder da facção criminosa da área, o Bonde do Maluco (BDM).

"Ainda é precipitado falar, mas aqui não acontece nenhum homícidio sem a permissão de George, que é o líder do BDM. Então, indiretamente eu atribuo o crime a eles [facção]", informou. O caso será investigado pela  3ª Delegacia.

A assessoria da Polícia Civil informou que ainda não possui detalhes sobre o caso.

De acordo com a assessoria do DPT, o corpo de Fábio já foi liberado, e aguarda a procura da família. Já o de Josenildo ainda está em processo de liberação.

Movimento LGTB 
Sobre a situação, o presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira, informou que em todo crime que há algum LGBT como vítima existe uma conotação homofóbica. "A gente compreende que todo caso caso que envolve LGBT sempre tem uma conotação de homofobia devido a uma  cultura que considera essas pessoas como indivíduos de segunda categoria", disse. 

De acordo com levantamento feito pelo GGB, 126 integrantes da comunidade LGBT já foram mortos só este ano no Brasil. Desses homicídios, 5 ocorreram na Bahia.

No ano passado foram contabilizadas 445 mortes desse grupo em todo o país. A Bahia foi o terceiro estado que mais vitimou essas pessoas, com 35 mortes registradas. O estado ficou atrás apenas de Minas Gerais (43) e São Paulo (59).

O presidente disse ainda que o movimento está buscando mais informações sobre o crime.

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