CasaPretahub, em Cachoeira, estimula empreendedorismo negro

correio afro
06.09.2021, 08:31:00
Atualizado: 06.09.2021, 11:26:43
Sede da CasaPreta em Cachoeira (Fotos Odé Produções)

CasaPretahub, em Cachoeira, estimula empreendedorismo negro

Espaço tem estúdio de filmagens e fotografia e, em breve, terá estúdio de som

O Recôncavo Baiano tem uma relação estreita com a história e a cultura negras. A presença do samba de roda, do candomblé, do reggae e da Irmandade da Boa Morte na região são algumas das evidências disso. Agora, a presença preta será ainda mais forte, com a chegada da CasaPretahub, que se instalou em Cachoeira em julho. 

O espaço segue a estrutura da casa original, instalada em São Paulo em setembro de 2020 e mantém o foco na transformação digital de negócios criados por empreendedores negros. O casarão de 800 m², no Centro da cidade, tem estúdio de foto e vídeo, feito em parceria com o Facebook, e o estúdio de áudio, que será inaugurado em breve. Terá também cozinha compartilhada, biblioteca, área de exposições e uma loja colaborativa apresentada pelo Mercado Livre.

Adriano José, gestor da unidade baiana, diz que a decisão de trazer a CasaPreta para a Bahia foi naturalmente influenciada pela ligação do estado com a cultura negra. O acaso também contribuiu de certa forma para esta chegada. Há seis anos, a fundadora da Feira Preta - evento que deu origem à CasaPreta -, Adriana Barbosa, esteve em Cachoeira a trabalho, quando prestava serviço a uma empresa que patrocinava um show de Gilberto Gil na cidade.

Foi nesta ocasião que conheceu os proprietários de uma pousada local e acabou se aproximando deles. Alguns anos depois, surgiu o convite para que a CasaPreta fosse instalada na pousada, já que a casa estava fechada por causa da pandemia.

Quartos da pousada tiveram intervenções de artistas

Por isso, espaço, além de servir como fomentador da cultura negra local, fornecerá também hospedagem aos turistas. As reservas deverão ser feitas pela plataforma Diaspora.black, também dedicada a empreendedores negros e que funciona como o Airbnb. A pousada dispõe de cinco quartos, que abrigam criações de artistas que participaram de uma ocupação durante dez dias.

A PretaHub abrigou três artistas locais -Marcos da Mata, Maria Struduth e Eloisa França -, e três externos, Mozana Amorim, de Salvador (BA),  Francine Moura, de Angra dos Reis (RJ), e Ramo, de São Paulo (SP). Os artistas foram responsáveis pelas pinturas no interior do imóvel. 

Para entender melhor a cultura regional, vários locais tradicionais da cidade e do entorno foram visitados, como a Casa de Cerâmica, a fábrica de charutos, além de algumas personalidades históricas da cidade e um quilombo que existe no município. "Foi muito especial conhecer o território, conhecer artistas, artesão e empreendedores locais que subvertem a necropolítica que existe na cultura brasileira e mostra a potência da cultura 'iorubaiana'", diz Ramo (@ramo.negro), um dos artistas que participou da ocupação.

Adriano José, gestor da CasaPreta de Cachoeira

Ramo diz que sua perspectiva artística mudou depois desta experiência. Inicialmente, ele fez uma pintura em homenagem ao Mestre Mimo, que trabalha com o entalhe. "A partir disso, fiz uma pintura pensando na origem, algo próximo da cultura iorubana, que tem o ovo como matriz estética, filosófica e visual e que produziu o início de todas as coisas", diz Ramon.

O estúdio de som deve ficar pronto até o fim do mês que vem e poderá ser usado por qualquer interessado. A primeira hora será gratuita e, a partir daí, haverá uma cobrança, que, segundo a organização, terá valores bastante acessíveis. Essa será uma importante fonte de renda para manutenção do espaço, que tem hoje dois funcionários, além do gestor.

Um dos ambientes da casa de Cachoeira, onde é servido o café da manhã da pousada

Adriano José diz que teve importantes apoiadores nesta fase inicial e, mesmo com algumas fontes de renda como o estúdio e hospedagem, a CasaPreta precisará de parceiros para ajudar na manutenção e ampliação do espaço.

Entre esses parceiros, está o Instituto Alok, que entra com o fortalecimento institucional. “A gente sabe que o acesso a tecnologias e a oportunidades de criação e aprendizagem transforma vidas. E a Casa PretaHub tem esse objetivo: proporcionar inovação e ferramentas que viabilizam projetos transformadores. Estar com a PretaHub na Bahia, maior comunidade de negros e negras fora do continente africano, é uma alegria", diz Alok.
 

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