Centauro e estilista baiana Carol Barreto criam uniforme inspirado na história da atleta Aída dos Santos

correio afro
26.06.2021, 10:51:00
Atualizado: 08.07.2021, 20:29:13
Aída dos Santos, 84 anos, no momento em que recebe seu uniforme (Fotos: divulgação)

Centauro e estilista baiana Carol Barreto criam uniforme inspirado na história da atleta Aída dos Santos

Descubra o significado da história de O Uniforme que Nunca Existiu

Para a maioria dos brasileiros, 1964 é lembrado como um dos marcos de em um período político desafiador no país, mas o que vamos descobrir agora é que este mesmo ano é também o início de um dos maiores legados esportivos do país, trilhado por Aída dos Santos, primeira atleta brasileira a participar dos jogos de Tóquio, em 1964, em meio a uma delegação composta somente por homens.  Mulher negra e pobre, ela viajou sem dinheiro ou treinador, muito menos uniforme para competir, mas fez história e voltou com a quarta posição no salto em altura, o melhor resultado individual de um atleta brasileiro por mais de 30 anos.  

Jogando luz nessa jornada tão importante e, ao mesmo tempo, extremamente difícil e ainda pouco reconhecida, a Centauro decidiu homenagear Aída com a criação do ‘O Uniforme que Nunca Existiu' e convidou a estilista baiana Carol Barreto para assinar a criação. Idealizadora do projeto ModAtivismo - que trabalha para unir moda a ativismos feministas e antirracistas –, a criativa se inspirou na trajetória da esportista.

“Quando aceitei o desafio para criar o uniforme que nunca existiu, procurei honrar a minha ancestralidade a partir do reconhecimento da importância de visibilizar trajetórias e narrativas de êxito de mulheres negras. Com o apagamento histórico provocado pelo racismo estrutural, nos faltam referências públicas de trajetórias de sucesso", explica Carol.

"Na minha perspectiva, como mulher negra e ativista, pensamos moda e aparência como um campo de produção discursiva, desse modo, trago uma pesquisa que materializo nos detalhes desde o beneficiamento de tecido, modelagem, elementos gráficos e texturas aplicadas"_Carol Barreto, estilista

Especialmente para Aída foram desenvolvidos dois uniformes carregados de significado e símbolos, representando suas memórias. Um deles é o de delegação, composto por jaqueta e calça nas cores dourada e azul. Na parte superior, os bolsos frontais são personalizados com estampas inspiradas no local onde Aída vivia com a família, em Niterói (RJ). No centro das costas, um bordado destaca a imagem da atleta saltando, símbolo do projeto. Enquanto isso, o peito conta com a estampa 22, considerado seu número da sorte. A jaqueta também possui um capuz maximizado para vestir bem diversos tipos de cabelos e volumes, elaborado para não esconder o bordado das costas e mantendo as características de funcionalidade e praticidade dos vestuários esportivos. 

Já o collant de treino também traz detalhes dourados na lateral dos quadris, criando continuidade às linhas sinuosas e reforçando a ideia de movimento, fluidez, agilidade, feminilidade, além de simbolizar o ouro. Em um tom de verde mixado com amarelo, os detalhes dos elásticos trazem o nome da atleta. Esse mesmo elástico adorna a parte superior das cavas e ao fundo do macacão, que desenha uma letra ‘V'’ em posição invertida nas costas. As pistas de atletismo também são interpretadas nas laterais da cintura em cor terracota, com linhas brancas.

"Para criar a peça/obra/homenagem para a atleta, somamos as mentes criativas da equipe do projeto ModAtivismo e traçamos uma assinatura coletiva, para referendar o quanto nossas vitórias individuais sempre serão extensivas às nossas comunidades”, reforça Carol


Hoje com 84 anos, Aída dos Santos foi convidada a receber o uniforme na pista de atletismo do Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão. A emoção desse momento foi capturada e transformada em um filme batizado de O Uniforme que Nunca Existiu, com locução da cantora e compositora Sandra Sá. Criado pela agência TracyLocke e produzido pela Lady Bird, com direção de cena de Giorgia Prates, a produção acompanha a entrega do uniforme, além de trazer depoimentos da esportista, participação de Carol Barreto, passagens no ateliê da estilista e imagens do passado e do presente de toda a jornada da ex-atleta. 

Numa edição limitada, foram produzidas 20 peças exclusivas da versão delegação, que podem ser encontradas no site da Centauro. A receita gerada a partir das vendas será revertida para as 13 ONGs atendidas pelo Centauro Transforma, programa que tem o compromisso de apoiar organizações que fazem do esporte uma alavanca de inclusão educacional e social, em especial, para jovens e crianças em situação de vulnerabilidade. 

O que é Modativismo? 
Conceituado pela professora e ativista Carol Barreto, o Modativismo é uma metodologia de ensino e aprendizagem que abarca modos decoloniais de encadeamento entre formas de pensamento e ação, resultantes de processos criativos e produtivos respeitáveis à diversidade cultural e, por consequência, horizontais.

Uma proposta que ampara outros aportes metodológicos, que resultam em processos de fruição e produção de produtos, valorados não apenas pela sua materialidade, mas pelo legado imaterial que o sustenta e, consequentemente, pelo potencial de transformação social que alcança.

Para a criação do ‘O Uniforme que Nunca Existiu’, a equipe foi formada por Anderson Paz (Figurinista Assistente - SP), Adriele Regine (Designer Gráfica - BA), David Santos (Assistente de Produção - BA) e Nanci Meire (Produção Executiva - BA).

Carol Barreto é designer de moda autoral, professora adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade - FFCH - UFBA,  doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade - PosCultura - IHAC - UFBA e uma das estilistas que integrou por muitos anos o time de criativos do Afro Dashion Day, projeto idealizado pelo CORREIO.

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