Cidade das águas: revelamos o bairro, o mês e a hora da chuva em Salvador

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12.05.2019, 05:17:00
Atualizado: 13.05.2019, 15:50:43
(Evandro Veiga/CORREIO)

Cidade das águas: revelamos o bairro, o mês e a hora da chuva em Salvador

No mês mais chuvoso do ano, CORREIO traz mapa pluviométrico da cidade

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Você pode não ter percebido, mas desde o dia 1° deste mês, chove todo dia em Salvador. Cada gota é registrada por mais de 20 pluviômetros espalhados pela cidade. O CORREIO analisou mais de um milhão de registros desses aparelhos, nos últimos cinco anos, para elaborar o mapa das águas na capital baiana. Nas próximas linhas, vamos mostrar o período do ano, os bairros e até a hora do dia em que cai mais água. 

O primeiro indício já deve ter ficado claro: maio é o mês mais chuvoso. Mas o que talvez você não saiba é que a chuva também tem um horário favorito: é entre 5h e 6h. E o Cabula, o bairro onde mais choveu nos últimos cinco anos. O intervalo de tempo é o único disponibilizado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A reportagem analisou os registros de 20 pluviômetros do Cemaden em diversos pontos da cidade, e um do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), localizado em Ondina -- leia mais sobre a metodologia no final da reportagem. Além destes, o Centro de Monitoramento da Defesa Civil de Salvador implantou 18 equipamentos próprios em 2017, mas a Codesal não forneceu a íntegra desses dados. 

Por que chove mais em maio?
Para se ter uma ideia de como maio é chuvoso, em 2014, 2015 e 2018 choveu em algum ponto de Salvador absolutamente todos os dias do mês. Em 2017, foram 30 dias com registros de chuva e, em 2016, 27 dias. Além disso, os dados do Cemaden mostram que, dos 10 dias mais chuvosos desde 2014, metade foi em maio. De 2014 a 2018, a média de chuva acumulada no mês foi de 321mm, contra 224,8 em abril, quando o período mais chuvoso do ano começa. Cada milímetro de chuva equivale a um litro de água por metro quadrado. 

Mas, por que, logo em maio, o céu escurece mais?

Dois fatores principais justificam o pico: o Distúrbio Ondulatório de Leste (DOL) e a posição do mês de maio no Outono. No caso do DOL, nome estranho à maioria, nuvens carregadas e massas de ar movimentam-se numa velocidade de até 300 km/h. É tão avassalador quanto imprevisível. São nuvens muito carregadas e massas de ar movimentando-se na velocidade de carro de Fórmula-1. Piscou, choveu. 

“Esse sistema chamamos de fenômeno atípico e é muito característico no período de Outono. É fato ele acontecer. O Distúrbio de Leste pode se intensificar num piscar de olho”, explica o meteorologista da Codesal Ricardo Menezes. 

O Outono também é naturalmente mais instável, explica o meteorologista do Inmet Heráclio Alves. Como estação de transição, muda de características conforme passam os dias. Na primeira metade da estação, parece Verão. Na segunda metade da estação, quando começa maio, a cidade se veste de Inverno.

“O comportamento da chuva vai mudando. No decorrer do mês, seriam chuvas mais fracas só que com longa duração. É um mês, historicamente, mais chuvoso. Quando chega junho, vai diminuindo”, explica.

O sistema de brisas e a posição geográfica da cidade também têm seu papel na receita da chuva, como veremos adiante. Os pluviômetros anunciam a chegada do período mais chuvoso do ano ainda em abril. Por isso, desde 2016, a Codesal realiza, até junho, a Operação Chuva, análise intensificada das regiões da cidade para prevenir e corrigir problemas ocasionados pela chuva, como deslizamentos de terra. No último dia 18 de abril, o diretor da Codesal, Sosthenes Macedo, solicitou ao Inmet mais 50 pluviômetros para Salvador. 

“Quando [a chuva] é muito intensa em pouco tempo, o risco é de alagamento. Quando é continuado e vai somando os acumulados, escorrega, explode, escorrega, há um colapso”, explica Sosthenes.

Dos anos observados pela reportagem, o pico de chuva ocorreu justamente entre abril e maio de 2015, quando o acumulado de chuva nesses dois meses foi mais que o dobro do registrado em qualquer outro ano da série. Naquele ano, no dia 27 de abril -- dia recordista de chuva desde 2014 e até hoje --, um deslizamento de terra matou 15 pessoas soterradas, no Barro Branco. O avanço de uma frente fria e de um canal de umidade ventilado pela Amazônia, relembra o meteorologista Giuliano Carlos, foram determinantes para o aumento fora do normal, mesmo numa fase historicamente chuvosa.

São consideradas pela Codesal, de acordo com a série histórica ainda não revisitada, 600 áreas de risco. O alerta vermelho é ligado quando o acumulado é de 150mm em 72 horas. Quando acontece, e o risco de deslizamento em áreas é real, algumas das oito sirenes do Plano Preventivo da Defesa Civil podem ser acionadas. A primeira vez foi no dia 20 de abril de 2018, em Bom Juá, Vila Mamede e Vila Picasso. 

Como houve obras de contenção de encostas desde então, e o acréscimo de outras áreas, o número de áreas de risco varia. Afinal, a chuva de Salvador não é rara. No período pesquisado, houve uma média de 316 dias por ano com registro de chuva em pelo menos um pluviômetro da cidade. Isso significa que, de cada 10 dias, chove pelo menos em oito deles. E, também em média, em 71 dias por ano chove em toda a cidade.

O horário da chuva
De São José dos Campos, interior de São Paulo, meteorologistas do Cemaden acompanham o tempo de Salvador para, por exemplo, emitir alertas. “Nossa missão é emitir alertas quando necessário para as defesas civis. Nossos dados subsidiam os especialistas que trabalham aqui”, explica Regina Alvalá, diretora institucional do instituto. Os registros mostram outra constante: o horário de 5h. Está revelado o horário da chuva em Salvador.

Considerando a distribuição ao longos dos dias, em média 6,3% da chuva cai entre 5h e 5h59. E mais de 50% antes das 10h. Essa concentração nas madrugadas e manhãs tem motivo. “O sistema de brisas continua mais forte nesse horário”, justifica o meteorologista Heráclio Alves, do Inmet, órgão que instalou o primeiro pluviômetro de Salvador em Ondina, no Jardim Zoológico, em 1963.

Há também uma razão vinda do mar, potencializada por Salvador ser uma península, que divide as águas da Baía de Todos os Santos e do Oceano Atlântico. O climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Lincoln Muniz explica que a geografia local intensifica a condensação das nuvens. 

“O vento sopra do oceano para o continente. O vento sobe e ganha característica de mais umidade. Essa umidade que condensa é o que provoca a chuva. Em penínsulas, as brisas são mais intensas”, descreve.

Brisas mais intensas é igual a mais probabilidade de chuva. Principalmente com a junção de outros sistemas, como tem ocorrido no Cabula, o bairro com mais chuva dos últimos cinco anos. 

O que o Cabula tem?
A Rua Manuel Luís Osório nos leva a um ponto cercado de Mata Atlântica. Todos os dias, quando chove naquele ponto do Cabula, o pluviômetro registra cada milímetro. Dos pluviômetros analisados, foi o que mais acumulou água entre 2014 e 2018. Choveu naquela região, em média, 1,79 mil milímetros anuais, 155 a mais que o segundo colocado, o Alto do Peru, no Subúrbio Ferroviário.

Muitos nem chegam a notar a diferença no dia a dia. "Eu tô é precisando de mais chuva. Eu adoro a chuva. Não tem pior tempestade, tem boa tempestade", brinca José Francisco, 72, nascido e criado no Cabula. Não é o mesmo pensamento de uma moradora mais recente do bairro, Valdinha Silva, 76. A aposentada está certa de que, às vezes, só chove naquele miolo da cidade. “Tem vezes que eu saio, aqui tá chovendo e lá no Doron tá sol. Quando eu lembro, levo sempre um guarda-chuva”, reclama.

Chico improvisa cobertura para se proteger da chuva no Cabula (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Depois de tantas supresas com o tempo no Cabula, Chico Salomão, 48, decidiu proteger a banca de variedades com uma lona. “Aqui quando chove mesmo é pesado. Já deu ruim, tava me pegando desprevenido”, conta o autônomo. Leva sempre uma capa de chuva, caso preciso. E sempre é possível precisar.

O Cabula possui condições que justificam os índices pluviométricos, explica o geógrafo e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) Emanuel Reis. O bairro residencial está localizado numa área de ocupação demográfica mais recente, com pouca verticalização. E o principal: ainda com remanescentes de Mata Atlântica, fundamental para a umidade de qualquer lugar.

“As áreas de mata têm uma coisa fundamental, que é a evapotranspiração [liberação de água pela planta]. O Cabula também está numa colina, tem uma ocupação mais recente, é uma área mais horizontal”, explica. 

No caso do Subúrbio, com três entre os 10 bairros mais chuvosos, por exemplo, as manchas verdes também são fundamentais. A presença do Parque São Bartolomeu, também remanescente de Mata Atlântica, é um destaque. "A chuva se distribui de maneira irregular porque há uma série de ocupações, de prédios, matas, corredores, vales, como o Vale do Vasco da Gama", contrapõe Emanuel. Cada perímetro, afinal, pode apresentar suas condições climáticas (microclimas).

Esse tanto de número e explicação só evidencia o que todo soteropolitano já sabe: por aqui, e mais nesse tempo do ano, é melhor sempre ter uma sombrinha à mão.

Anote, para usar na mesa do bar
Por fim, uma informação curiosa para você levar para a mesa do bar. Nos dados analisados pelo CORREIO, a sexta-feira apareceu como o dia de mais chuva na cidade. Choveu às sextas 22% a mais do que às segundas-feiras -- dia com menor registro de chuvas. À exceção de um pai de santo que atribuiu o fato a Oxalá e seu poder sobre as águas, nenhum outro especialista arriscou uma relação de causa e efeito para ter sido justamente o dia mais esperado da semana também o mais chuvoso. Parece tratar-se apenas de uma casualidade desta série de dados. O que, claro, não impede você de usar essa informação na sua resenha. 

O dia 27 de abril de 2015 foi o mais chuvoso desde 2014 e provocou tragédia no Barro Branco
O dia 27 de abril de 2015 foi o mais chuvoso desde 2014 e provocou tragédia no Barro Branco (Mauro Akin Nassor/CORREIO)
Alagamento no dia 9 de abril de 2015, o terceiro dia mais chuvoso desde 2014
Alagamento no dia 9 de abril de 2015, o terceiro dia mais chuvoso desde 2014 (Mario Akin Nassor)
Chuva do dia 15 de maio de 2015, o sexto dia mais chuvoso, também causou alagamento
Chuva do dia 15 de maio de 2015, o sexto dia mais chuvoso, também causou alagamento (Mauro Akin Nassor)
Chuva do dia 3 de maio de 2015, o 7º mais chuvoso, causou deslizamento no Rio Vermelho
Chuva do dia 3 de maio de 2015, o 7º mais chuvoso, causou deslizamento no Rio Vermelho (Marina Silva)
Avenida Sete atipicamente vazia no dia 2 de março de 2014, o oitavo mais chuvoso
Avenida Sete atipicamente vazia no dia 2 de março de 2014, o oitavo mais chuvoso (Almiro Lopes)
Dia 10 de maio de 2015, o 9º mais chuvoso, alaga Avenida Suburbana
Dia 10 de maio de 2015, o 9º mais chuvoso, alaga Avenida Suburbana (Betto Jr)
No dia 22 de maior de 2015, o 10º mais chuvoso, Avenida Paralela ficou alagada
No dia 22 de maior de 2015, o 10º mais chuvoso, Avenida Paralela ficou alagada (Marina Silva)

Metodologia
Os pluviômetros do Cemaden registram o volume de chuvas a cada 10 minutos, quando está chovendo, e a cada hora quando não chove. Assim, entre 2014 e 2018, foram mais de 1 milhão de registros em Salvador. 

Para realizar esta reportagem, o CORREIO baixou os dados referentes ao período -- algo que qualquer cidadão pode fazer neste link. Porém, como o sistema do Cemaden fornece os dados mês a mês, e baseados no horário GMT, o CORREIO precisou reunir todos os arquivos em uma única base de dados e adequá-la ao horário de Salvador. O leitor pode baixar, neste link, essa base final com a qual trabalhamos, que tem dados de janeiro de 2014 a março de 2019.

Para realizar o ranking dos bairros mais chuvosos, combinamos a essa esta base do Inmet, que desde agosto de 1963 guarda registros do pluviômetro localizado em Ondina. Esta base, porém, não guarda registros por hora, mas sim por dia. Ela também tem dados até março deste ano.

*Com orientação da editora Mariana Rios

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