Cidade ganha econômica e socialmente quando é espaço de inteligência coletiva e colaborativa

agenda bahia
16.11.2014, 15:42:00
Atualizado: 18.07.2017, 16:16:32

Cidade ganha econômica e socialmente quando é espaço de inteligência coletiva e colaborativa

Criatividade, segundo especialistas em Recursos Humanos, é um valor cada vez mais exigido dos trabalhadores

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Como é a cidade em que você quer viver? O que você faz individualmente para fazer da sua cidade aquela na qual quer viver? Essas são as duas perguntas que os cidadãos devem se fazer para construir uma cidade criativa, segundo Ana Carla Fonseca, consultora da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o tema Economia Criativa. Ana Carla participou do Fórum Agenda Bahia, na terça-feira, com a palestra Cidades Criativas e Inteligência Urbana.

A criatividade, segundo especialistas em Recursos Humanos, é um valor cada vez mais exigido dos trabalhadores, seja para inovar processos, seja para criar produtos e serviços que façam as empresas conquistarem novos mercados.

Só que uma cidade também pode ser criativa. Quando se transforma em um ambiente propício à criatividade, ou seja, inspire novos olhares e vivências de seus habitantes, levando-os a serem individualmente criativos.

Ana Carla Fonseca: "Muitas cidades são feitas de ilhas que precisam se relacionar"

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Conceito

Em sua palestra, Ana Carla destacou que municipalidades de todo o mundo trabalhavam de forma diferente o conceito de cidade criativa. Foi quando, em 2008, por uma iniciativa dela, especialistas de 18 países se reuniram para estabelecer padrões para caracterizar uma cidade como criativa. Foram identificados três traços. O primeiro deles é a inovação. Não importa se grandes ou pequenas, a adoção de soluções inovadoras contribui para melhorar a vida das pessoas.

Para este fundamento, a consultora da ONU citou três exemplos. Em Pequim, na China, havia dificuldade em engajar as pessoas em uma política para a reciclagem de garrafas Pet. Logo, instalaram máquinas nas estações de metrô onde os cidadãos entregavam as garrafas usadas em troca de descontos nas passagens do transporte. Quanto maior o peso total das garrafas plásticas entregues, maior o desconto. “Essa experiência é legal pois permite às pessoas enxergarem um valor para um ato de sustentabilidade”, avalia.

Outro exemplo citado foi o de aluguel de carros elétricos em Paris (França), e de uma bicicleta desenvolvida na Dinamarca que acumula a energia gerada pelo usuário em uma bateria, automaticamente acionada em momentos em que o ciclista demonstra cansaço ou necessidade de esforço adicional.

Conexões

O segundo pilar da cidade criativa são as conexões que permitem a integração entre vários setores do município e entre habitantes de diferentes níveis sociais e culturais. “As conexões têm de se dar em 360°. Muitas cidades são feitas de ilhas que precisam se relacionar. Só existe criatividade com diversidade”, pontuou.

O terceiro ponto em comum é a cultura local.Elemento que, segundo ela, transforma a cidade em um espaço de inteligência coletiva e colaborativa. No caso das conexões, ela citou como exemplo projeto de Londres (Inglaterra) que transformou moradores de rua em guias turísticos, diminuindo a tensão entre os sem teto e as famílias que habitam aqueles endereços.

Já no caso da cultura, citou projetos de Dublin (Irlanda) e Lima (Peru), em que o poder público se dispõe a ouvir as sugestões dos moradores para implementar intervenções urbanas e políticas públicas.

Indústria do Carnaval

Para Ana Carla, Carnaval é força poderosa para desenvolver indústrias criativas

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Especialista em Economia Criativa, Ana Carla Fonseca falou também sobre as potencialidades de Salvador. Economia criativa é a denominação dada a todo empreendimento que gera riqueza baseada na criatividade - criação de música, filmes, software, roupas, etc. Para ela, o Carnaval é uma força poderosa para desenvolver diferentes indústrias criativas locais. Por isso, recomenda que a festa seja uma ponta de lança para divulgar outras artes e artistas baianos.

Ana Carla sugeriu a criação de circuitos musicais, para levar turistas e habitantes da cidade para comunidades fora do trajeto carnavalesco para ouvir a produção musical feita nesses espaços não necessariamente ligada aos ritmos momescos.

Também sugeriu que os abadás dos blocos sejam criados por estilistas locais com o uso de materiais tipicamente usados no artesanato baiano. Uma terceira sugestão foi a de que a decoração dos trios elétricos seja feita por grafiteiros que se manifestam nos muros de Salvador. “Toda esta exposição do Carnaval vai sim carrear outros movimentos”, garantiu.

Em entrevista após a apresentação, ela disse que o Carnaval é um exemplo de como a cultura pode produzir o contato entre pessoas de diferentes níveis sociais da cidade, fator essencial para produzir uma cidade criativa.

Exemplos pelo mundo

*Dublin (Irlanda). Desenvolveu o projeto Beta Macro. Trata-se de uma área onde a municipalidade investe em soluções baseadas nas sugestões de seus moradores. Uma das propostas adotadas foi a abertura dos espaços reservados para estacionamento para intervenções artísticas, colorindo áreas que seria, sempre cinzas.

*Pequim (China). Um problema que exigiu solução inovadora foi como engajar os cidadãos à política de reciclagem de garrafas plásticas (Pet). Para alcançar o objetivo, foram instaladas máquinas coletoras em estações do metrô. Essas máquinas pesam as garrafas entregues. Quanto maior o peso somado das garrafas recolhidas maior o desconto obtido na passagem do metrô.

*São Paulo (Brasil). Sampa Criativa, uma parceria do Garimpo de Soluções e da Fecomércio, ouviu, durante seis meses, sugestões de moradores para melhorar a cidade. Uma das propostas que estão sendo desenvolvidas é a disponilização de equipamento de GPS para que corredores de rua identifiquem à companhia responsável a localização de bueiros entupidos ou com vazamento de gás

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