Com as mortes de três PMs, comércio está parcialmente fechado em Água Claras 

salvador
10.05.2022, 15:17:00
(Arisson Marinho/CORREIO)

Com as mortes de três PMs, comércio está parcialmente fechado em Água Claras 

"Está todo mundo em pânico", diz moradora da região

Além das escolas e colégios da rede municipal e estadual que estão sem funcionar na região de Cajazeiras, o comércio também foi tomado pela sensação de insegurança, após as mortes de três policiais militares neste final de semana. No bairro de Águas Claras, palco de uma das ocorrências, pelo menos 20 pontos comerciais permaneciam fechados até às 12h desta terça-feira (10) - o "toque de recolher" foi estabelecido pelos próprios comerciantes como medida de segurança, começando nesta segunda (9), apesar da circulação das viaturas.

"Ontem, isso aqui estava pior. Um ou outro resolveu abrir e quem funcionou, trabalhou com a porta meia aberta ou com grades. É o medo.  Está todo mundo em pânico porque mataram três policiais e a gente não sabe o que pode vir por aí, né? Se fizeram com eles (PMs), o que podem fazer com a gente ? E tem ainda de uma bala perdida encontra quem não tem nada a ver durante confronto entre a polícia e a bandidagem. Clima começou a ficar pesado no sábado", declarou um morador do bairro.

No sábado (8), o soldado Alexandre José Ferreira Menezes Silva, 30, levou um tiro de fuzil na cabeça quando fazia ronda no bairro Águas Claras. No dia seguinte, os soldados Shanderson Lopes Ferreira e Victor Vieira Ferreira Cruz foram atacados por criminosos depois do velório de Alexandre. Eles foram alcançados no bairro Fazenda Grande I, Boca da Mata. 

Toque de recolher
Normalmente o "toque de recolher" é imposto pelo tráfico ao comércio quando algum integrante é morto pela polícia. No entanto, desta vez foram os próprios comerciantes que decidiram manter fechadas lojas de roupas femininas, masculinas e infantis, salões de beleza, lojas de embalagens, de ração, de assistência técnica de televisão, de bicicletas, barracas de lanches e almoço e até bares que costumavam abrir pela manhã. 

"A verdade é que está todo mundo com medo por causa dos últimos acontecimentos. Pra sair de casa é difícil, imagina pra trabalhar? Do meu lado, eu fui a única que não fechou. O resto todo não abrirá pra nada ", disse uma mulher que tem uma barraca no antigo final de linha de Águas Claras, conhecida como Praça da Mortadela. Questionada de o porquê não ter aderido ao toque de recolher como os demais comerciantes, a mulher respondeu: "Tenho contas para pagar e quem me protege, nunca dorme, mas não abuso Dele. Qualquer coisa, fecho aqui e vou me embora", disse ela. 

Alguns entrevistados disseram que a suspensão das aulas contribuiu para a decisão dos comerciantes. "Na manhã de segunda, algumas padarias, mercadinhos amanheceram abertos, mas quando começou a circular nós grupos de Whatsapp que não haveria aula, quem estava aberto foi fechado. Só os muito corajosos que permaneceram", relatou um morador. A funcionária de uma farmácia que abriu ontem e hoje contou como foi trabalhar após o final de semana das mortes dos policiais. "Uma tensão muito grande. Ontem, a gente atendeu as pessoas através das grades. Hoje, estamos atendendo normalmente, porque a gente está vendo um movimento maior de pessoas e mais estabelecimentos funcionando", disse ela. 

A dona de uma restaurante, que aderiu ontem ao "toque de recolher", abriu  o ponto comercial nesta terça. "Estou aqui, mas apreensiva. As segundas a rua é bastante movimentada, mas ontem não havia praticamente ninguém. Você contava nos dedos quem circulava e quem estava com o seu estabelecimento aberto. Eu não trabalhei.  Hoje, o negócio melhorou um pouco, o comércio tem mais lojas abertas, mas dá pra ver também que ainda tem muitas lojas fechadas", declarou. Ela disse que abriu por causa da presença da polícia, porém ponderou. "É difícil sentir seguro depois de tudo isso que aconteceu no final de semana. A polícia não está aqui direto" , argumentou.

A reportagem procurou a Polícia Militar para comentar a decisão de alguns comerciantes permanecem fechados, mas até agora não teve resposta.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas