Com dois novos padres ordenados, Igreja Católica tenta enfrentar desafio de renovação sacerdotal

salvador
13.12.2021, 05:20:00
Deivisson (esq.) e Rafael (dir.) ficam deitado durante rito de ordenamento celebrado pelo Arcebispo de Salvador, Dom Sérgio da Rocha (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Com dois novos padres ordenados, Igreja Católica tenta enfrentar desafio de renovação sacerdotal

Deivisson Conceição Batista e Rafael Freitas Pereira estudaram por quase uma década até a ordenação, conquistada aos 30 e 29 anos, respectivamente

Sob os olhos atentos de familiares, amigos, fiéis e do Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Sérgio da Rocha, dois jovens realizaram um sonho que é resposta rara quando se faz aquela pergunta clássica a uma criança: 'o que você quer ser quando crescer?'. Eles responderam: quero ser padre. Deivisson Conceição Batista e Rafael Freitas Pereira concluíram um ciclo de oito anos ao receberem a chamada ordenação e se tornarem sacerdotes, em celebração que aconteceu na Basílica do Santíssimo Salvador, no Pelourinho, numa longa missa, de quase 3h, realizada na manhã de sábado (11).

Filhos da paróquia Nossa Senhora da Conceição, formada por comunidades que estão nos bairros de Valéria e Palestina, Rafael e Deivisson têm 30 e 29 anos, respectivamente. Para chegar ao ordenamento, o segundo grau do Sacramento da Ordem, eles passaram por quase uma década de estudos: chegam a esse nível após concluir o Seminário Arquidiocesano, onde concluem, por exemplo, os cursos superiores de Filosofia e Teologia pela Universidade Católica do Salvador (Ucsal).

Reitor do seminário, o Padre Gil André Peixinho se mostrou grato por formar os dois novos sacerdotes, principalmente diante da dificuldade que a Igreja tem encontrado para atrair jovens para os seus quadros. A vida de um padre exige abrir mão de construir família, relacionamentos amorosos, carnavais, festas e boa parte daquilo que os mais velhos costumam chamar de 'coisas de jovem' em nome do propósito divino. E se engana quem pensa que eles são amargurados por isso. Após a cerimônia, o, agora, Padre Deivisson afirmava reiteradamente: "eu estou realizado. Hoje, sou um homem mais feliz do que nunca".

Ele descobriu a vocação para o sacerdócio durante um retiro em julho de 2007. Depois de três dias, passou a se engajar em ações da Igreja. "Mesmo estando engajado na Comunidade São José Operário, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Valéria, eu percebia que faltava algo dentro de mim. Em meio a isso, eu busquei o meu pároco e, nessa partilha, descobri que Deus me chamava para algo mais profundo”, afirmou.

Padre Deivisson afirmou ter sentido o chamado vocacional após um retiro há 14 anos (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Diferentemente do colega e amigo, Rafael afirma que ser padre era um sonho de infância e contava para os quatro cantos do mundo desde que tinha entre 7 e 8 anos. "Vivemos uma crise vocacional, infelizmente é essa a realidade. Mas Deus sempre coloca nos corações dos jovens esse sinal da vivência da vocação, por mais que sejam tempos escassos. Deus sempre suscita no coração de muitos o desejo. Eu decidi ser padre", contou.

Deivisson e Rafael foram os primeiros padres ordenados por Dom Sérgio da Rocha, que ocupa o cargo desde junho de 2020. "A nossa diocese tem uma população grande e necessitamos de mais padres. Por isso, ordená-los é motivo de alegria, esperança e gratidão. Deus continua agindo no coração de jovens, que deixam tudo, deixam outras possibilidades de vida para abraçar o sacerdócio e viver pelo povo de Deus", disse.

Segundo o Arcebispo, ainda não estão definidas as paróquias assumidas pela dupla e, pelo menos até o início do próximo ano, seguirão onde já atuam: Deivisson, em Lauro de Freitas, e Rafael, em Cajazeiras.

Padre Rafael afirma estar realizando um sonho de infância ao se tornar padre (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

A Ordem
O sacramento da Ordem possui três graus: no primeiro está o episcopado, que é a plenitude deste sacramento; é a representação dos apóstolos. São eles os responsáveis pela Igreja e por levar a mensagem de Jesus. 

O segundo grau é caracterizado pelo presbiterato, que é aquele que colabora com o bispo. Aqui, o sacerdote alcança a  chamada dimensão da Eucaristia, a dimensão da Palavra, e é este grau que foi concedido a Deivisson e Rafael. Já o terceiro grau é o diaconato, que é caracterizado pelo serviço. O diácono é aquele que se coloca a serviço do altar, dos órfãos e dos mais pobres.

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, “a Ordem é o sacramento graças ao qual a missão confiada por Cristo aos Apóstolos continua a ser exercida na Igreja, até ao fim dos tempos: é, portanto, o sacramento do ministério apostólico”.

O padre Gil explica que o seminário é o momento de descobrir se realmente a carreira é o destino de cada um e a Arquidiocese de Salvador aposta muito nesse autoconhecimento para que os jovens tenham certeza de sua decisão.

Quem se interessar deve procurar a Pastoral Vocacional de sua paróquia para conhecer melhor o sacerdócio. Antes de entrar no seminário, os jovens ainda passam um ano estudando sobre a vida de padre - é o período chamado "propedêutico". Além do Seminário Central, há outro em Salvador. O espaço fica em Itapuã, mas é ligado à diocese de Amargosa.

Seminário
Segundo o Padre Gil, o mais comum é que os aspirantes a sacerdote cheguem ao seminário com idades entre 18 e 24 anos. Mas há casos de quem chega já aos 30, por exemplo. A rotina é puxada: no Seminário Central João Maria Vianney, na Federação, por exemplo, os rapazes acordam diariamente às 5h para cumprir uma rotina de orações ainda em jejum, antes do café da manhã que acontece às 6h15. 

Logo depois, seguem para os estudos: nos três primeiros anos de seminário, cursam o Bacharelado em Filosofia; nos quatro últimos, o Bacharelado em Teologia. 

À tarde, a programação varia de acordo com o dia: vai desde um descanso na segunda-feira até a aula. Às sextas-feiras, é dia de faxina – e tudo fica a cargo deles, assim como a rotina na cozinha. O dia só acaba às 21h, após a última oração. Eles também ficam divididos em quatro casas diferentes – a cada dois anos dos cursos, vivem em uma casa. A exceção é justamente a primeira, que só é ocupada no primeiro ano do curso de Filosofia. Lá, são acompanhados diretamente por um padre residente. 
 

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