Com jardim e painel, escola no Dique Pequeno faz homenagem a Moa do Katendê 

salvador
31.10.2018, 22:17:00
Atualizado: 31.10.2018, 22:19:40
O grafiteiro Rodrigo Menezes, o Biguartes, um dos autores de painel com rosto de Mestre Moa (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Com jardim e painel, escola no Dique Pequeno faz homenagem a Moa do Katendê 

Ação do Projeto Escola Verde com Afeto contou com ajuda de alunos e moradores

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O projeto Escola Verde com Afeto, realizado pelo movimento Canteiros Coletivos, em parceria com o Instituto Limpa Brasil, tem transformado em jardins os lixões no entorno de seis escolas de Salvador. Já foram três ações, nos bairros de Pau da Lima, Lobato e, nesta quarta-feira (31), uma que foi ainda mais especial, na comunidade do Dique Pequeno, no Engenho Velho de Brotas.

Foi nesta localidade, bem em frente ao Dique do Tororó, que nasceu Mestre Moa do Katendê e, além do novo jardim, próximo ao Colégio Estadual Victor Civita (tempo integral), todos os moradores da comunidade, além de alunos e membros do movimento se uniram para pintar o rosto do capoeirista em um muro no local.

A diretora da escola, Rodrenice Santana, contou ao CORREIO que a iniciativa de dar ao jardim o nome de Mestre Moa surgiu de uma reunião com os alunos e membros do Canteiros Coletivos.

Rodrenice Santana, diretora da escola que prestou homenagem a Mestre Moa (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Depois que soubemos que seríamos uma das 6 escolas beneficiadas pelo projeto, tivemos essa ideia. Por que não homenagear alguém que foi tão importante para nossa comunidade e imortalizar a memória dele neste espaço de renovação? Foi assim que pensamos”, disse.

Uma das criadoras do Canteiros Coletivos, Débora Didonê, declarou que a iniciativa desta quarta-feira, além de ser uma homenagem a alguém importante para a comunidade, pode e deve ser encarada como uma forma de “buscar por justiça”.

“É importante que a escola seja a grande articuladora da comunidade e consiga o apoio de todos nessa transformação. E foi isso o que aconteceu na comunidade do Dique Pequeno - todos se mobilizaram para ajudar, todos tinham um vínculo com a homenagem”, afirmou.

Outro aspecto destacado por Débora é que os pontos de lixo irregular já faziam parte das comunidades, uma vez que a população, que muitas vezes não contava com tanto apoio das coletas, descartavam os resíduos nos locais onde estão sendo construídos os jardins. Diante disso, ela destacou que “é necessário que todos se sensibilizem, comunidade, poder público, para que possa existir o respeito pelo espaço”.

Débora Didonê, uma das responsáveis pelo movimento Canteiros Coletivos (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Memória
A filha de Mestre Moa do Katendê, Jasse, que esteve presente na ação realizada nesta quarta-feira (31), contou ao CORREIO que tanto o jardim quanto o grafite no muro representa “uma homenagem de toda a comunidade à memória” do pai.

Ainda segundo ela, que também vive a rotina do Dique Pequeno, “é feliz perceber que a comunidade está acolhendo e sensibilizada em imortalizar meu pai naquele lugar, onde ele passou toda a vida, percebendo a importância que ele teve para aquele lugar”.

Chico Assis, que era amigo de Moa e escreveu a dissertação sobre a memória do afoxé, defendida em 2017 na Universidade Federal da Bahia (Ufba), disse ao CORREIO que, apesar de não ter presenciado a ação desta quarta, pode afirmar que tudo isso é fruto do “reconhecimento do bairro acerca da importância de Mestre Moa, não só como capoeirista e músico, mas, também, como educador social”.

Ele também acrescentou que a homenagem feita pelos alunos e por toda a comunidade do Dique Pequeno só reforça a importância de Mestre Moa para a construção e fortalecimento das culturas negras em Salvador, atuando, ainda, para além dos limites da cidade, “já que é conhecido em outros países”. 

Para Chico Assis, “é muito gratificante perceber que a comunidade registra a memória de Moa, como um griô que ele era, um mestre dos saberes”.

Articulação
Foram cerca de 200 escolas inscritas para o programa Escola Verde com Afeto, mas o movimento Canteiros Coletivos utilizou alguns critérios para a seleção das 6 localidades onde os jardins vão ser plantados.

Débora Didonê ressaltou que o principal aspecto levado em consideração para essa seleção final foi o fato de as escolas já terem feito movimentos e ações na tentativa de eliminar o lixão existente no entorno. Esse foi o caso do Colégio Estadual Victor Civita, no Dique Pequeno.

Segundo a criadora do movimento, a escola já havia realizado “caminhada, panfletagem, entrevistas e estudo estatístico no bairro para saber a opinião dos moradores do entorno sobre o lixo e todos aprovaram o desmanche do ponto”. Desta forma, Débora destacou que toda a ação funciona a partir de um trabalho em rede, que conta com a ajuda e colaboração de toda a comunidade, além da Limpurb, da gestão municipal e de empresas que apoiam a causa.

“Depois de selecionar a escola, a gente entra em contato com a Limpurb para que seja removido todo o entulho do local. Após isso, há workshop de conscientização dos alunos da escola escolhida, para que todos saibam da importância de manter aquele novo espaço e de abandonar, por exemplo, o velho hábito de depositar lixo ali”, explicou.

Neste mesmo tom, a diretora da escola na comunidade de Mestre Moa do Katendê, Rodrenice Santana, ressaltou a importância de manutenção do espaço. “O que a gente espera, antes de tudo, é que o jardim e o muro sejam preservados por todos. Mas, outro aspecto importante a ser observado é a necessidade de a coleta, prometida pela Prefeitura diariamente entre 9h30 e 10h, aconteça”, destacou.

O que se espera para a comunidade do Dique Pequeno, segundo Débora, é que passe acontecer a “a coleta de lixo porta a porta, com a ajuda de motos ou veículos pequenos para que as pessoas não precisem levar o lixo até a porta da escola”.

As próximas escolas beneficiadas pelo programa são: Colégio Estadual Professora Marileine da Silva, na Mata Escura, Colégio Estadual Norma Ribeiro (Cenor), no Arenoso, e a Escola Municipal Padre Confa, no Costa Azul.

Crime
Moa foi assassinado com 13 golpes de faca horas após o primeiro turno das eleições, em 8 de outubro. O motivo do crime foi uma briga política e, segundo testemunhas, Paulo Sérgio, o assassino, saiu do bar onde os dois discutiram, foi para casa e voltou com uma faca, atacando Moa pelas costas.

O crime aconteceu no Bar do João, na comunidade do Dique Pequeno, em frente ao Dique do Tororó. Segundo conclusão do inquérito da Polícia Civil, que ficou pronto em oito dias, “o homicídio foi resultado de uma briga por motivação política”.

O promotor responsável pelo caso relatou na denúncia que a vítima e o acusado discutiram em voz alta no bar e "agrediram-se mutuamente de forma verbal" por discordância em relação aos então adversários na corrida presidencial, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). A versão, disse Gallo, coincide com a da investigação da Polícia Civil.

*Com supervisão do editor João Galdea.

O grafiteiro Nailton Góes, o Maninho, também participou de projeto
O grafiteiro Nailton Góes, o Maninho, também participou de projeto (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Painel que levou o nome de Mestre Moa
Painel que levou o nome de Mestre Moa (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Jardim que levou o nome de Mestre Moa
Jardim que levou o nome de Mestre Moa (Foto: Marina Silva/CORREIO)
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas