Com o selfie, sempre procuramos a melhor imagem de nós mesmos

artigo
14.06.2018, 14:25:00

Com o selfie, sempre procuramos a melhor imagem de nós mesmos


Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.


Nas últimas décadas os smartphones deixaram de ser aparelhos de ficção científica para se tornar o objeto mais importante da vida cotidiana. O mundo ficou mais belo, artificialmente mais belo. Se antes a fotografia mostrava um instante da vida, hoje as fotos são frutos de um ensaio as vezes exaustivo da imagem de si. Tiramos dezenas de fotos para escolher o melhor ângulo, iluminação, a foto que nos mostra o mais próximo do ideal que construímos de nós mesmos. Acontece que entre nossa vida e a vida que mostramos para o outro há uma distância enorme, melhor dizendo, somos tiranizados todos os dias pela imagem que construímos de nós mesmos. Poderíamos chamar essa condição de servidão narcísica. Isso ocorre quando perdemos mais tempo querendo ficar bem na foto do que vivendo a experiência real. Estruturalmente, procuramos sempre a melhor imagem de nós mesmos, isso é uma característica do ser humano. Contudo, se os smartphones com seus aplicativos são prodigiosas tecnologias a serviço de nosso narcisismo, é preciso não esquecer que a experiência real é muito diferente da experiência virtual.

E como ficam as relações a dois nessa caixa de espelhos?

Tudo mudou rapidamente nas últimas décadas. Não há muito mais lugar para as imperfeições do parceiro. Tomemos o exemplo do computador. O texto, escrito no word, está sempre perfeito e formatado, os erros são deletados sem rastros aparentes. Seguindo a mesma lógica, os jovens rapidamente, a partir dos anos noventa, levaram a expressão deletar para seus relacionamentos afetivos. Em seguida surgiu um significante novo para dar conta dos encontros sem futuro, eram puro presente, contabilizados um a um, o significante ficar. Nada melhor do que a expressão do sociólogo Zigmunt Baumann “amores líquidos” para explicar essa situação.


Tudo isso para dizer que chegamos a mais uma palavra novo marcando as relações, o vácuo. “Deu vácuo”, ouvi essa expressão recentemente de uma interlocutora que me dizia que os homens começavam a conversa no aplicativo e, quando as coisas pareciam se enganchar, eles simplesmente desapareciam. Nem justificativas, nem mesmo um emoticon de bye-bye. Um ping desesperadamente, para muitas, sem pong. As relações já estavam líquidas, passíveis de serem deletadas, “ficar”  já era mais importante que perdurar, e agora elas mostram o vazio perfeito, nada mais que um vácuo. O vácuo é o espaço sem substância alguma, dar “um vácuo” é mostrar que não havia nada por trás da máscara, o puro vazio: eu só queria seu Selfie, não você por inteiro.


Marcelo Veras é psicanalista.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas