Com relatos embaraçosos, perfil indica locais para fazer ‘número 2’ em Salvador

salvador
29.09.2018, 06:00:00
Atualizado: 01.10.2018, 17:27:15

Com relatos embaraçosos, perfil indica locais para fazer ‘número 2’ em Salvador

Pra quem tá abafado, CORREIO traz mapa dos banheiros públicos da cidade

Foto: Reprodução/Instagram

Com pouquíssimo pudor e abundância de humor (ou fedor), um perfil no Instagram tem angariado, nos últimos dias, com a rapidez de uma diarreia braba, centenas de seguidores e colaboradores. A proposta do ‘Onde Cagar em SSA’ – título de embrulhar o estômago de leitores mais polidos – é simplesmente identificar e avaliar os locais onde é possível fazer o ‘número 2’, a qualquer momento e com o mínimo contratempo. Valem sugestões públicas – como os 90 locais onde ficam cerca de 270 banheiros químicos fixos da cidade, que o CORREIO mapeou – ou, literalmente, privadas, a exemplo de supermercados, shoppings, farmácias, casa do Pedrinho...

A criação do perfil, por parte de um servidor público de 33 anos que prefere não se identificar, é inspirada em páginas de igual teor abertas em outras grandes cidades – no Rio de Janeiro, são 15 mil seguidores. No entanto, a ideia na capital baiana tem um diferencial interessante, que confere certo ineditismo e até justifica este registro: as histórias impublicáveis (ao menos até agora) de soteropolitanos de intestino solto.

As ‘stories’ ficam na seção “Contos de um cagão!”, que, basicamente, trazem situações constrangedoras vividas pelos internautas, como o caso de uma nutricionista de 31 anos que tinha acabado de fazer uma cirurgia e sofria com os efeitos colaterais da retirada da vesícula. “Numa certa festa de rua pré carnaval... tomei todas e... numa dessas mijadas atrás do carro nas ruas desertas da Barra, me abaixei pra urinar e, sem meu controle, saiu um jato de cocô (...)”.

'Digestação'
Antes de contar o desfecho desta história, é preci-necessário explicar melhor como nasceu o perfil, que promete, em sua descrição, mapear os “melhores lugares para dar aquela velha ‘barrigada’ na hora do aperto”. Segundo o servidor público, a ideia veio quando viu uma reportagem sobre esse tipo de página.

“Como sou cagão por excelência, achei legal. Mas achei que poderia incrementar algumas coisas para se tornar um perfil mais útil e engraçado ao mesmo tempo”, acrescenta ele, ao explicar o advento dos relatos embaraçosos.

“O primeiro [conto de cagão] foi o meu. Fui a cobaia de todos e aí a coisa fluiu, começaram a chegar vários relatos. Uma tsunami de cagões”, brincou o servidor público, antes de eleger a estória preferida, até aqui. “Foi o cara que limpou ‘as partes’ no Carnaval com papel de pipoca com resquícios de sal. Ardeu, deve ter sido penoso, mas engraçado”, mencionou, ao revelar que vive rindo sozinho dos causos.

Eis o tal relato que ajudou a página a alcançar, em duas semanas, 2,1 mil seguidores e alcance real, segundo o administrador do perfil, acima de 10 mil visualizações.

Imagem: Reprodução/Instagram

Vergonha
Uma história que também marcou o servidor cagão é de uma estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, de 31 anos, que passou o Réveillon 2018 dentro de um banheiro químico, na Ribeira. Espia o desabafo.

Imagem: Reprodução/Instagram

Ao CORREIO, a coitada revelou como a história terminou. “Minha namorada ficou me esperando do lado de fora e brigando porque não pude virar o ano dando um abraço nela”, relembra a estudante, para quem a situação foi um prenúncio do que 2018 lhe reservava.

“O ano inteiro está sendo assim... Problemas e situações constrangedoras”, comenta ela, que lamenta ainda o fato de ter ficado desempregada.

Sobre a vergonha de revelar a identidade, explica que tem a ver com os preconceitos que envolvem o assunto. “Se cria um tabu relacionado a isso desde a infância. Quando você ia ao banheiro tinha vergonha porque sempre entrava alguém e falava alto sobre o odor, (ou dizia) ‘tá cagando’, ‘cagona’. É como se não fosse normal ir ao banheiro”, analisa.

A percepção é semelhante à de uma publicitária de 29 anos, que também se animou em revelar seu embaraço, mas, igualmente, preferiu o anonimato. À reportagem, ela contou que sua história aconteceu em 2014, e que preferiu não revelar o nome “para não ficar conhecida como ‘a cagona’, mesmo sabendo que todo mundo caga”. Eis a história.

Imagem: Reprodução/Instagram

Sobre a borrada junina, a publicitária explica que, volta e meia, arrisca contar para pessoas mais próximas, “mas bem poucas”, porque já viu gente “torcer a cara”, mesmo sabendo que era uma situação em que ela não tinha escolha.

Civilização
Professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o sociólogo Leonardo Nascimento explica que essa forma distante de lidar com a coisa é um dos resultados dos “processos de civilização”, conforme teorizou o sociólogo alemão Norbert Elias, autor de 'O Processo Civilizatório', obra de 1939.

“É o surgimento de um mundo privado e íntimo que seria contraposto a um mundo mais público, comum. Existem coisas que fazemos na frente de todos, como comer e beber, espirrar. Outras que fazemos mais escondido, como tirar meleca, soltar gases etc. E outras que fazemos absolutamente sozinhos, como defecar”, lista o professor.

Nascimento destaca que a forma como sentimos nojo, vergonha e repulsa em relação aos fluídos e excreções do nosso corpo e dos outros “é diferente entre as culturas, mutável ao longo do tempo e, também, variável dentro de nossa sociedade”.

E mais: essa barreira entre o público e o privado, que na sociedade contemporânea é grande, nem sempre foi assim. “Banheiros públicos, onde todos defecavam na frente de todos e se limpavam com o que tinha, como grama, água e a própria mão, foram muito numerosos e frequentes na ‘história dos povos’”, menciona, antes de sustentar que essa “conspiração do silêncio em torno do ato de defecar” é o que causa o próprio embaraço de falarmos do assunto.

“O próprio humor advém da vergonha com a qual historicamente passamos a tratar deste ato”, conclui.

Cagando e andando
Mas no caso do técnico de informática Tiago Muniz, 30, um dos seguidores do ‘Onde Cagar em SSA’, o pacto de silêncio é dispensável. Sem medo de expor sua rotina fisiológica – só sai de casa depois de ir ao sanitário –, ele relembra na página uma ocasião em que o cocô não se acovardou diante da morte – de outrem, claro. 

“Eu tava no cemitério das Quintas (dos Lázaros) e fingi que o celular estava tocando... ‘Perae que eu volto’... (Achei) um banheiro cheio de mosquitos, a porta não tinha tranca… tudo sujo, tive que ficar meio agachado para largar o barro e com medo da água voltar e bater no furico”, comenta, em parte do relato reproduzido no perfil. Leia na íntegra.

Imagem: Reprodução/Instagram

Tiago garante que não vê problema em relatar situações como essa. “Todo mundo vai para o banheiro, todo mundo já teve um momento de sufoco, uma dor de barriga em qualquer lugar que estava… Esses dias na academia, por exemplo, falei com a galera sobre a página e a situação que passei, a galera deu risada e começou a contar que também já passou por situação semelhante. Então, é algo normal”, considera.

Ajuda, Luciano
Para a nutricionista que se borrou, lá no início da reportagem, durante o pré-carnaval da Barra, no entanto, a situação só não foi normal porque envolveu testemunhas e gente tentando ajudá-la.

“Nossa, foi constrangedor, mas tava comendo água e só senti vergonha depois”, relembra ela, ao mencionar o inesquecível Habeas Copos de 2013.

Por sorte, o primeiro na linha de auxílio foi alguém bem próximo. “Meu amigo riu, mas me ajudou. E umas duas pessoas deram a lata de cerveja, mas não sabiam da situação”, menciona ela, antes de fechar a conversa de forma prática: “Ninguém morreu, ninguém se machucou. Consegui me limpar, voltar pra festa e a bebida me ajudou a superar o acontecido”, disse, aos risos.

No final da reportagem, confira mais contos desarranjados feitos pelos internautas.

Utilidade pública
Apesar dos relatos traumáticos (ou esculhambados) serem um atrativo à parte, o principal serviço prestado pelo ‘Onde Cagar em SSA’ diz respeito, claro, às indicações e avaliações de locais legais para ‘colocar o acarajé pra fritar’.

Até essa sexta-feira (28), a página (com ajuda dos adeptos), já tinha visitado e avaliado dezenas de locais, entre os quais: o supermercado Extra da Avenida Paralela, que ganhou dois 'cocozinhos' (de cinco possíveis) por ser muito barulhento e movimentado; o Shopping Barra, avaliado com quatro 'cocs' por ter ar-condicionado e ser mais reservado; e o Rei da Pamonha da BR-324, que levou nota máxima por ser limpinho, cheirosinho, tranquilo e refrigerado.

E se você acha que esse tipo de orientação espacial não é importante, talvez seja pelo fato de não trabalhar rodando pelas ruas, como o taxista Antônio Santos, 50, punido recentemente por não estar com o Activia em dia. “Eu tava trabalhando e tinha comido um xinxim de galinha mais cedo, no Posto Sumaré, e aí apertou aquela dor de barriga, por volta de 11 horas da noite. Fui num posto da Pituba, mas tava fechado, e aí decidi voltar pra casa, em Amaralina. Ainda olhei na Manoel Dias, e não tinha um banheiro público. Quando cheguei na porta de casa, já tava todo lavado”, relembra o taxista, que trabalha no Rio Vermelho. Resultado: jogou a calça, comprada por R$ 129, no lixo, e passou a reavaliar a dieta fora de casa.

O cobrador de ônibus Leonardo Reis, 34, nunca viveu situação parecida, mas conta que não são poucas as histórias complicadas de falta de banheiro que escuta dos colegas.

“Tem uma antiga de um motorista que parou o ônibus, daqueles antigos, da (empresa) Capital... Desceu, entrou numa parte ali atrás, debaixo do ônibus, que dava pra se entocar, abaixou as calças, largou o barro, se limpou e seguiu viagem”, descreve o cobrador, hoje na Integra.

Ainda segundo Leonardo, os locais preferidos para se aliviar, quando a coisa aperta, são os postos de combustível, onde normalmente os rodoviários são bem recebidos, além de supermercados, shoppings, restaurantes, escolas, enfim, o que aparecer primeiro na frente.

Quando dá pra segurar, motoristas e cobradores também costumam utilizar os chamados módulos-conforto, que contam com banheiros e estão presentes nos finais de linha dos bairros. Segundo a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), são mais de 20 equipamentos para os rodoviários que "foram construídos em pontos estratégicos para evitar sobrecarga aos profissionais". As unidades, diz a pasta, têm área de 5m² que contam com sanitários feminino e masculino, local de descanso e interação, com mesas para jogos de salão e recursos apropriados para alimentação dos rodoviários.

Os motoristas e cobradores têm acesso aos módulos conforto em locais como Mirantes de Periperi; Imbuí (Conjunto Guilherme Marback), Pituba (Praça Ana Lúcia Magalhães); Ondina (Rua Professor Sabino Silva/Jardim Apipema); Boca da Mata; Pero Vaz; Boa Vista de São Caetano; Alto de Coutos; Nova Brasília; Sieiro; Marechal Rondon; e São Caetano. "Nos locais onde não é possível a construção dos módulos-conforto, as empresas alugam um espaço no final de linha para o descanso dos rodoviários", reforça a assessoria da Semob.

Módulos-conforto para rodoviários ficam em mais de 20 pontos da cidade (Foto: Mauro Akin Nassor/Arquivo CORREIO)

Para quem não é rodoviário, o jeito é se ligar onde ficam os cerca de 270 banheiros químicos fixos de Salvador, espalhados por mais de 90 pontos. Eles são administrados pela Semop, em parceria com a Limpurb.

Criamos um mapa interativo, ao qual você pode recorrer quando sentir aquela pontada maligna.

 

Ainda de acordo com a Semop, além desses banheiros fixos, existem os sanitários químicos eventuais, que são instalados em eventos permanentes e nos fins de semana, no Terreiro de Jesus, Largo do Pelourinho, praias da Ribeira, São Thomé de Paripe, Tubarão, Praça do Calabar, Vila Caramuru (Rio Vermelho) e Avenida Magalhães Neto.

Por fim, há ainda 213 posições (entre mictórios e sanitários), em outros 14 pontos: Campo Grande, avenidas Centenário e Oceânica, Terminal da Barroquinha, Mercado Modelo, mercados de Periperi, Popular, da Liberdade e Cajazeiras, Núcleo de Abastecimento de Itapuã, Praia de Loreto, Praia de Ponta de Nossa Senhora e Parque da Cidade.

Como prometido, confira mais relatos 'borrados' divulgados pelo 'Onde Cagar em SSA'.

Imagem: Reprodução/Instagram

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