Com selo de origem, valorização do cacau baiano pode chegar a 70%

bahia
27.04.2018, 03:00:00

Com selo de origem, valorização do cacau baiano pode chegar a 70%

Efetivada, indicação geográfica do produto do Sul do estado terá valor agregado

O cacau da Bahia, estado que lidera a produção da amêndoa no Brasil, a partir de agora terá um selo de origem que reconhece a sua indicação geográfica e servirá para agregar mais valor ao produto tanto no Brasil quanto no mercado externo.

O registro de Indicação Geográfica (IG), na espécie Indicação de Procedência (IP), foi publicado na edição de terça-feira (24) da Revista de Propriedade Industrial (RPI) nº 2468, do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), autarquia federal.

A área geográfica beneficiada com a IG abrange um cultivo estimado 61.460 km², em 83 municípios e seis territórios regionais: Baixo Sul, Médio Rio de Contas, Médio Sudoeste da Bahia, Litoral Sul, Costa do Descobrimento e Extremo Sul.

O pedido pelo reconhecimento foi feito pela Associação dos Produtores de Cacau do Sul da Bahia (APC), que liderou um movimento em prol da cultura, formado por representantes do setor produtivo e Governo do Estado.

A busca pelo selo foi iniciada em 2014, mas as discussões sobre assunto começaram há mais de 10 anos. A indicação geográfica oferece a garantia de origem do cacau do sul da Bahia e traz agregação de valor, ao posicionar o produto como único.

A Bahia já possui o mesmo reconhecimento para as uvas de mesa e manga do Vale do Submédio São Francisco e para a cachaça de Abaíra, na Chapada Diamantina, as quais conquistaram o título em 2009 e 2014, respectivamente.

Na safra 2016/2017, a safra de cacau na Bahia foi de 104.820 toneladas de cacau, ante as 145.630 toneladas de 2015/2016, segundo informações da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

A produção de cacau na Bahia, cujo setor gera 80 mil empregos diretos e indiretos, responde por 54% da produção nacional, de 274 mil toneladas em 2017 (estimativa), 28% a mais que 2016, ano em que os produtores de cacau faturaram R$ 1,2 bilhão.

Foto: Mateus Pereira/GOVBA

Colheita final
Atualmente, os cerca de 40 mil produtores da amêndoa no estado estão em fins de colheita da safra principal, que vai de outubro ao final de abril. A partir de maio, começa a colheita da safra temporã, que segue até setembro e é menos produtiva.

Analistas de mercado, com base nas negociações que estão sendo feitas, estimam que a safra principal deva ficar este ano em pouco mais de 90 mil toneladas de cacau. Ainda não há dados oficiais.

O Pará é o segundo maior produtor nacional, com 42% da safra no Brasil, e tem produtividade melhor que a da Bahia: enquanto o estado do norte produz 916 quilos/ hectare, na Bahia é de 500 quilos. A produção anual do Pará está em 105,8 mil toneladas – há cinco anos, era de 68,4 mil, crescimento médio de 13% ao ano.

Tanto o cacau produzido na Bahia quanto no Pará é industrializado praticamente todo em Ilhéus, onde estão 15 fábricas de chocolate, boa parte delas remanescentes do período áureo da cultura, dizimada pela praga da vassoura-de-bruxa a partir da década de 1980. As maiores empresas são a Cargill, a Olam e a Barry Callebaut.

É para estas empresas que os produtores de cacau esperam vender o produto a um preço mais elevado, depois de terem conquistado o selo de identificação geográfica.

Ainda não há estimativa oficial de em quantos por cento o cacau deva ficar valorizado, mas produtores falam em 70%. Nesta quinta-feira (26), a arroba (15 quilos) do cacau estava sendo comercializada por R$ 178,50.

Conquista
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb) Humberto Miranda afirmou que “essa é uma conquista dos produtores rurais, que vêm se preparando, buscando conhecimento e investindo fortemente em tecnologia”.

“Eles saem da condição de produtores de commodities apenas, para atender a essa demanda do mercado, por produtos diferenciados. Eles se reergueram e não permitiram que o cacau da Bahia perdesse sua força, mesmo depois de passar por momentos de extrema dificuldade”, declarou.

Cristiano Santana, presidente da APC, avalia que o selo oferece agregação de valor ao cacau, tanto em termos de qualidade do produto como de valorização da região como um todo.

“A IG garante uma maior organização à cadeia produtiva, porque os produtores passam a trabalhar em cooperação; valoriza o potencial turístico da região, toda a tradição sociocultural e histórica local, que está ligada ao cacau”, disse.

Santana observa que “o mercado consumidor está cada vez mais exigente e quer um produto diferenciado, que siga as normas ambientais e tenha história, qualidade superior e originalidade comprovada, principalmente os compradores do cacau destinado à produção de chocolate, o chamado ‘cacau fino’.”

Segundo ele, “tem empresas pagando 70% mais caro que o normal, para adquirir produto com esses requisitos”.

Para o analista de mercado e especialista na commodity cacau, Thomas Hartmann, a indicação geográfica é importante para os fabricantes de chocolate, mas o que a Bahia precisa mesmo é melhorar a produção, já que as empresas ainda tem de recorrer ao cacau africano para atender à demanda por chocolate.

Segundo a TechNavio, uma empresa de pesquisa de mercado, as importações de cacau no Brasil devem crescer em volume, 2,4% ao ano, até 2019. O consumo mundial de cacau é de 4,2 milhões de toneladas.

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