Como uma promessa quebrada por Moro tumultuou a terceira via

entre
02.04.2022, 05:00:00
(Allison Sales/Estadão Conteúdo)

Como uma promessa quebrada por Moro tumultuou a terceira via

Recuo de ex-juiz ameaça derrubar entrada na União Brasil

Um dia após se filiar à União Brasil sob a condição de abdicar da candidatura à Presidência da República, o ex-juiz federal Sérgio Moro quebrou a promessa. Na tarde  de sexta-feira, disse que não trocou o Podemos pela nova sigla para ser candidato a deputado federal por São Paulo e que jamais pensou em desistir da sucessão presidencial. A reação contrária, como era possível prever, foi imediata e partiu de um grupo de oito integrantes da executiva nacional da legenda, todos originários do antigo DEM.

Logo após as declarações do ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, os nove dirigentes liderados pelo secretário-geral do partido, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, anunciaram que entrariam com um pedido para impugnar a filiação de Moro. “Vamos apresentar, ainda hoje, um requerimento de impugnação da filiação dele. Será assinado pelos 8 membros com direito a voto no partido, o que corresponde a 49% do colegiado. A filiação, uma vez impugnada, requer 60% para ter validade”, disse Neto.

O ex-juiz havia se filiado à União Brasil na quinta-feira. Em nota, Moro chegou a afirmar que, nesse momento, abriria mão da pré-candidatura a presidente. A desistência seria um gesto feito para quebrar a rejeição à entrada dele na sigla. No entanto, aliados de Moro vazaram à imprensa que o ex-juiz jamais pensou em abandonar o páreo. Antes de anunciar a mudança de planos, ele chegou a redigir uma nota, na qual confirma a entrada na sigla, sem mencionar, porém, a desistência da corrida pelo Palácio do Planalto.

No mesmo dia, o documento chegou ao conhecimento do bloco ligado a Neto. Insatisfeito com o teor do texto, o grupo divulgou posicionamento em que expressa o veto coletivo à candidatura presidencial do ex-ministro. No texto, os oito dirigentes da União Brasil declaram respeito à trajetória de Moro e elogiam a capacidade do ex-juiz para contribuir com a política nacional, mas deixam claro que sua entrada no partido não poderia estar condicionada ao desejo dele de concorrer à sucessão presidencial.

Recado direto
Além de Neto, o comunicado foi assinado pelo deputado federal paraibano Efraim Filho, 1º secretário do partido; o ex-senador potiguar Agripino Maia, vice-presidente; o governador goiano Ronaldo Caiado, a deputada federal do Tocantins Professora Dorinha, o ex-ministro Mendonça Filho (PE), o senador Davi Alcolumbre (AP) e o prefeito de Salvador, Bruno Reis, todos vice-presidentes da União.

“Caso seja do interesse de Moro construir uma candidatura em São Paulo pela legenda, o ex-ministro será muito bem-vindo. Mas, neste momento, não há hipótese de concordarmos com sua pré-candidatura presidencial pelo partido”, diz o texto. A ofensiva deflagrada após o recuo do ex-juiz  ultrapassou as fronteiras da cúpula nacional do partido e ganhou a adesão de diretórios estaduais. 

Adesão de paulistas
Tesoureiro da União Brasil em São Paulo, o deputado federal Alexandre Leite afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que a filiação de Morto será impugnada, caso ele insista na candidatura a presidente. Em nota, Leite afirmou que o ingresso do ex-juiz na legenda “se deu com a concordância de um projeto pelo estado de São Paulo, isto é, (ser candidato) a deputado estadual, deputado federal ou, eventualmente, ao Senado”.

“Em caso de insistência em um projeto nacional, o partido vai impugnar a ficha de filiação de Moro”, completou Leite. Ainda segundo a Folha, o parlamentar paulista classificou a União Brasil como um partido com “políticos de palavra” que continuará muito bem sem Moro, caso ele decida pela desfiliação ou seja defenestrado.

“Teremos uma chapa profissional e vamos eleger uma bancada grande de qualquer jeito. Ele seria um plus”, ponderou Leite, evidenciado a resistência da legenda em servir aos planos do ex-ministro de Bolsonaro.

Com vaivém de Doria, UB tenta atrair sucessor

Um dia após o ex-governador paulista João Doria (PSDB) ameaçar ficar no cargo com a justificativa de obter apoio no próprio tucanato, a União Brasil fez uma ofensiva para tentar atrair o sucessor dele, Rodrigo Garcia (PSDB), para concorrer à reeleição pelo partido.

Garcia deixou o DEM antes da fusão com o PSL, para concorrer ao governo estadual pelo PSDB. No entanto, após a jogada de Doria, que irritou boa parte dos próprios aliados, ex-correligionários do novo governador deflagram uma operação para tenta trazê-lo de volta. Líderes da União Brasil ainda aguardavam resposta de Garcia  até o fechamento desta edição. Na sexta, a janela para trocas partidárias foi fechada.

Na reta final do prazo, parlamentares do partido ainda mantinham esperanças na filiação de Garcia. Já o PSDB foi pego de surpresa com a manobra da União Brasil. Em conversas reservadas com a imprensa, líderes tucanos avaliaram que a decisão do novo governador seria balizada pela boa relação com quase a totalidade dos prefeitos do estado, a maioria do PSDB. 

Seus aliados também esperavam que Garcia não criasse mais instabilidade com a migração de última hora. Ao mesmo tempo, o PSDB chegou a convidar ACM Neto, candidato da União Brasil ao governo da Bahia, para se filiar.

Troca-troca em números

*100 do total de 513 deputados federais foi o número aproximado de parlamentares que haviam migrado de legenda e informado a mudança ao TSE até a noite de sexta;

*70 é a nova bancada do PL, agora a maior da Câmara.
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas