Compositor de ‘Arerê’ e outros hits do axé, Gilson Babilônia pode ‘mimar você’ sem ser reconhecido

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25.01.2021, 06:03:00
Atualizado: 25.01.2021, 09:36:52

Compositor de ‘Arerê’ e outros hits do axé, Gilson Babilônia pode ‘mimar você’ sem ser reconhecido

Artista é exemplo de como a Bahia não dá o devido valor a compositores que não se firmaram como intérpretes

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Entre um jogo e outro da Copa de 2014, arranjei um tempo pra comemorar meu aniversário entre amigos, no Largo da Mariquita. Lá pelas tantas, com a turma já bem alta, encosta em nossa mesa um jovem senhor, em posse de um violão, e pergunta se pode tocar algo pra gente. Um amigo, tentando conter a investida do artista de rua, avisa que “tá todo mundo só no cartão”. Com compreensão, Gilson Babilônia pede apenas um aceno de ouvidos. Toca alguma coisa de Djavan ou Jorge Vercilo, e depois vem com a proposta que muita gente ali temia: “posso mostrar uma música minha?”

Gilson Babilônia (Foto: Divulgação)

O mood que variava entre o “beleza, cante logo e se pique” e “carai, vamo ter que fingir que gostamos de alguma merda” muda assim que o artista ‘mete a introdução’, gerando um bug geral na mesa do bar. “Eu te quero só pra mim. Você mora em meu coração. Não me deixe só aqui, esperando mais um verão...”, larga o cantautor na nossa caixa dos peito.

“Essa música é dele?!”, “Como é o nome dele mesmo?”, “Bicho mentiroso da porra” são alguns dos buxixos quase palpáveis circulando assim que Gilson Carvalho de Jesus, hoje com 56, começa a cantar ‘Mimar Você’. Gravada por Timbalada, Caetano e muitos outros gigantes, é apenas uma entre muitas obras-primas de sua lavra, que inclui clássicos do axé como ‘Arerê’, ‘Levada Louca’, ‘Empurra-Empurra’ e ‘Pra Abalar’, hits com Ivete e Banda Eva; ‘Terra Festeira’ e ‘Bate Couro’, sucessos com Daniela Mercury; ‘Saia Rodada’, do Chiclete, ‘Capetinha do Arraial’, com o Asa, e muito mais, quase sempre em parceria com Alain Tavares.

Em 2014, Gilson Babilônia toca uma de suas canções famosas; meus amigos buscam informações sobre ele no celular (Fotos: Galdea)

“Foi pra mostrar quem faz a arte de verdade. Aquilo ali é a minha TV, minha rádio... Eu fiz isso algumas vezes, mas depois parei, pra o pessoal não achar que eu quero me amostrar. Mas é uma forma de divulgação do compositor”, relembrou ele na semana passada, quando o entrevistei para a coluna por ocasião do Dia Mundial do Compositor, comemorado dia 14.

De 2014 pra cá, meu amigo Aguirre Talento, jornalista de O Globo e testemunha ocular (e auricular) da história, me pressiona para relembrar esse dia épico em algum texto, mas as imagens (que sem elas teriam toda a pinta de culhuda) estavam perdidas até um dia desses. Quem localizou foi outro amigo, o servidor público Ademar ‘Mazinho’ Costa, que aparece nos registros arqueológicos bem ao lado de Babilônia, conferindo no celular se ele era quem dizia ser. 

Sorte nossa que não fomos os únicos a não reconhecê-lo.

“Eu sempre ouvia os buxixos, né, tipo ‘qui! Esse cara é maluco, rapaz’, ‘isso é aquele compositor que fez uma música só’. Aí quando eu tocava uma atrás da outra, o pessoal falava ‘é, rapaz, o cara tem pra lá de 50 sucessos’. Mas hoje o anonimato é até favorável, que a gente pode curtir a família, os amigos, sem ser incomodado”, comemora o compositor.

BA x Rio
Mas a ignorância geral (começando pela pessoal) sobre quem é Gilson Babilônia, e tantos outros compositores importantes da música baiana que não se notabilizaram como intérpretes, me incomodou. De cara, quis saber se a coisa flui errada assim em outros cantos, e procurei meu amigo João Paulo Gondim, jornalista e profundo conhecedor do cancioneiro carioca, pra saber como é o tratamento e reconhecimento dessa turma no Rio.

Um dos nossos encontros mais ‘recentes’ foi lá mesmo, durante a Olimpíada de 2016, e já o próprio evento dá alguma resposta ao meu questionamento. “Lembra quando passeamos no Boulevard Olímpico naquela noite pós-CCBB e pré-Praça São Salvador? Você lembra das pelúcias à venda dos mascotes dos jogos? Tom e Vinicius! Alguém em sã consciência os valoriza como intérpretes?”, ilustra Gondim, entregando o rolé e a diferença de tratamento aos talentos.

“No Rio, cultua-se muito o compositor talentoso! Por exemplo, o Noel Rosa é justamente endeusado como compositor! Sim, há gravações em que ele interpretou, mas ninguém exalta as suas qualidades vocais (se é que ele as tem)”, complementa, citando ainda os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, além dos cultuados Guilherme de Brito, Moacyr Luz, Nelson Cavaquinho, Nélson Sargento, Monarco, Carlos Cachaça, enfim, todos que seriam reconhecidos (assim os vivos) andando pelos calçadões.

No mundo das escolas de samba, a lista de compositores venerados por lá, citados por Jotapê, se amplia ainda mais.

Música Que o Pariu
Mas tem gente por aqui preocupada em valorizar os compositores da Bahia? Pior, digo, melhor que tem! Há um ano, compartilhei no Insta minha satisfação em descobrir, através do projeto Música Que o Pariu (MQP), que ‘Deusa do Amor’ - clássico de espectro poético semelhante a ‘Mimar Você’ - tinha sido composta pertinho de mim.

“Sou nascido e crescido em Marechal Rondon, bairro que fica entre Pirajá e Campinas de Pirajá. Embora sem passar por dentro do meu bairro, Adailton Poesia teve seu alumbramento dentro de um buzu a oeste do meu coração”, escrevi na ocasião, com o vídeo do compositor falando sobre o itinerário de sua criação imortal.

Produtor do MQP, canal dedicado a contar as histórias por trás das canções, o compositor baiano Pessoa acredita que esse não-reconhecimento acaba sendo um desincentivo ao surgimento de novos criadores. 

“A valorização do público, de reconhecer o compositor dentro da cadeia musical, de fato, não temos, e isso é um grande problema porque cria uma bola de neve de que, por ser um profissional pouco valorizado, ninguém quer ser compositor. Ou quer ser somente intérprete de suas próprias canções”, destaca Pessoa.

“Minha percepção do Rio é de que a cultura que há no samba enredo, de mobilizar os compositores anualmente para escreverem pra suas escolas, e a expectativa do próprio público, já valoriza o compositor no processo. Temos (ou tínhamos) cultura semelhante nos blocos afros, que é de onde foram reconhecidos talentos como Adailton Poesia, Jau, Tonho Matéria”, complementa. 

Fábrica funcionando
Apesar do ostracismo para a velha guarda, há exceções a serem louvadas ou tidas como um exemplo para novos momentos. “Acho que Saulo tem um trabalho massa de valorização do compositor; o encontro dele com Dom Chicla é o mais próximo que conheço desse reconhecimento de forma pública. De colocar o cara no palco e dizer ‘ele é autor dessa música, conheçam ele, valorizem’”, ilustra Pessoa.

Tanto ele quanto Gilson Babilônia citam ainda nomes que demonstram que a nossa fábrica de criar segue a todo vapor: destaque para Tierry, Filipe Escandurras e Bruno Caliman, compositores de meio mundo de hits, especialmente no universo dominante do sertanejo.

Hereditário
Mas de onde sai tanta gente boa? No caso de Gilson Babilônia, que é de quem eu vim falar, vem da Linha 8 (Liberdade/Pero Vaz), com DNA de Feira de Santana, posto que filho de Zé Pretinho da Bahia. 

Zé Pretinho da Bahia, pai de Gilson Babilônia (como a fisionomia na juventude denuncia), também compôs clássicos (Foto: Reprodução) 

“Meu pai sempre músico, eu sempre ouvindo. Mas nunca tomei aula de música, de canto, meu pai nunca me ensinou nada. Aprendi por ver e já tá no dom, no sangue, né? É genética”, supõe ele, ao mencionar o pai, que é autor de clássicos como ‘A Flor da Laranjeira’, sucesso com Clemilda, e ‘Campeão dos Campeões’, sobre o EC Bahia, gravada pelos Novos Baianos.

O talento hereditário teve lições ultra-precoces, afinal, quando Gilson tinha 12 anos, seu pai, hoje radicado no Rio, se separou de mainha.

“Aí eu disse: ‘mãe, se preocupe não que eu vou dar uma casa pra senhora; eu vou fazer igual a meu pai, vou viver de música.” 

Ok, hoje com 320 canções gravadas (mais de 50 estouradas), cumpriu a promessa - “hoje dá pra segurar aqui o cloro da piscina, cuidar dos jardins da Babilônia” -, mas o caminho foi longo, com as desafinadas comuns que a vida dá para um garoto da periferia.

“Fui vender cafezinho na Barra, depois trabalhei de cobrador em Feira, isso com 13 anos. Fui padeiro, trabalhei em oficina, auxiliar de serviços gerais, soldador elétrico, torneiro mecânico, pintor industrial, em distribuidora de frios... Isso tudo adolescente, e sempre com um cavaquinho do lado”.

Destino
Depois de tentar o Exército, foi batalhar para uma ex-cliente dos cafezinhos. Era a proprietária da finada Arca Joias, no Barra Center, que o convocou para atuar como office-boy. Na hora do almoço, costumava ir comprar comida para a chefa no restaurante Buona Gente, que tinha como caixa o futuro parceiro Alain Tavares.

Os dois em nenhum momento trocaram palavra, nem mesmo na época do Colégio Luiz Viana, em Brotas. “Alain estudou lá e eu também estudava. Olhe aí como o destino vai”. E foi de vez quando, depois de trabalhar na antiga Primavera (instrumentos musicais) do Itaigara, catou um espaço na gravadora WR Estúdios, a ‘Motown do Axé’, onde substituiu um xará.

“Gilson Freitas, irmão de Carlinhos Brown, trabalhava num estúdio de propaganda que tinha conexão com a WR. Aí Gilson saiu e entrou outro Gilson, que sou eu. Wesley Rangel [dono da WR, já falecido] falava: ‘esses Gilsons me perseguem’. E nesse dia que eu entrei lá, a Timbalada tava gravando, e Alain Tavares tocava na Timbalada. Olha como o destino quis que a gente se encontrasse mesmo”, relembra Babilônia sobre seu parceiro perfeito.

Cumprida a conspiração divina, a própria história da música baiana, a partir de 1993, ajuda a traçar a trajetória de nosso personagem. Dele e de outros parceiros importantes como Lula Carvalho, Celso Bahia, Jorge Papapa, Edgar Camel e Buziga, os quais, igualmente, ninguém no Largo da Mariquita pararia para pedir uma selfie ou uma palhinha de suas criações que forjaram parte essencial da cultura da Bahia.

Confira 10 músicas de Gilson Babilônia e companhia que você certamente já ouviu, cantou e dançou algum dia.

1 - Arerê - Ivete Sangalo / Banda Eva

2 - Mimar Você - Caetano Veloso

3 - Saia Rodada - Chiclete com Banana

4 - Levada Louca - Ivete Sangalo / Banda Eva

5 - Terra Festeira - Daniela Mercury

6 - Pra Abalar - Saulo / Banda Eva

7 - Capetinha do Arraial - Asa de Águia

8 - Aviza a vizinha - Araketu

9 - Empurra-Empurra - Ivete Sangalo

10 - Amor Bacana - Bell Marques e Wesley Safadão

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