Conheça a estudante de Medicina que fatura R$ 7 mil por mês com 'Táxi do Amor'

salvador
09.02.2019, 05:00:00
Atualizado: 09.02.2019, 08:07:36
Valdete conta que sofre bullying por causa de táxi chamativo (Evandro Veiga/CORREIO)

Conheça a estudante de Medicina que fatura R$ 7 mil por mês com 'Táxi do Amor'

Em Salvador, dos 7.260 taxistas em atividade, apenas 100 são mulheres

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Bancos, retrovisores, marcha, volante… Tudo é rosa! Para completar, ela ainda instalou uma luz de neon, também rosa, no interior do carro e decorou o painel com várias bonecas. Não estamos falando do carro da Barbie, a boneca mais famosa do mundo, mas de um que anda pelas ruas e avenidas de Salvador.

O carro modelo Spin tem dona: Valdete Araújo, 51 anos, é uma das pouco mais de 100 motoristas mulheres que trabalham na capital baiana, que conta com cerca de 7 mil taxista na ativa, segundo a Associação Geral dos Taxistas (AGT). Isso quer dizer que há uma mulher para cada 72 homens dirigindo táxis no município. Coincidência, R$ 7 mil é o valor que ela diz faturar por mês. Contudo, nem vá pensando que sempre foi assim. Val, como prefere ser chamada, já sofreu muito. A fome foi apenas uma das dificuldades.

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Nessa sexta-feira (8), o CORREIO entrevistou Val, que, além de ser taxista, é enfermeira, técnica de laboratório, técnica de enfermagem e estudante de Medicina - começa no próximo dia 18 as aulas numa faculdade particular. Tá bom pra você? Então, senta que lá vem conversa.

Nascida em Euclides da Cunha, Valdete Araújo da Franca é a irmã mais nova dos sete filhos de Lázara Araújo e Augusto Corrêa. Aos 2 anos, ela veio com a família para Salvador em busca de uma vida melhor. A mãe trabalhava como lavadeira de roupas enquanto o pai se revezava entre as funções de metalúrgico e pedreiro. Dentro de casa não havia muito luxo, mas nunca faltaram três coisas: amor, comida e educação.

“Eles sempre lutaram muito para que a gente estudasse. Nem que fosse só para terminar o segundo grau [ensino médio]”, lembrou a taxista.

Amor por bonecas
Logo de cara, Valdete fez questão de contar o porquê de tantas bonecas no carro. “Você ainda nem perguntou, mas eu vou te falar logo”, afirmou, antes de dizer que o motivo para ter tantas bonecas hoje é para compensar a falta delas no passado difícil que enfrentou. Ela conta que bonecas são sua grande paixão. Seu quarto, na casa que construiu no bairro de São Marcos, é todo rosa e cheio de bonecas. Presente para a mãe, que hoje tem 75 anos? Boneca, ora!

“Quando era criança, eu não tinha as bonecas que queria. Nunca pude escolher. Eu perguntava a minha mãe o motivo, e ela contava que era porque a gente não tinha dinheiro. Minhas primeiras bonecas foram doações. Algumas sem olho, outras sem cabelo. Teve uma que ganhei e os olhos estavam pra dentro da boneca… Minha mãe consertava e eu botava pra dentro de novo”, contou, aos risos.

Painel do carro é enfeitado com bonecas (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

A luta dos pais para que ela tivesse uma boa educação pareceu contaminar a caçula da família. Ela conta que desde criança tinha duas certezas sobre o que queria fazer na vida. A primeira de todas era brilhar. A segunda é que queria trabalhar com saúde. Ela contou sobre os dois desejos para a mãe e, em 1988, dona Lázara matriculou a filha mais nova em um curso técnico de Laboratório e Análises Clínicas em São Rafael.

Dois anos mais tarde, em 1990, ela concluiu o curso profissionalizante e o ensino médio. Como prêmio, os pais de Val fizeram um esforço e compraram uma passagem para ela viajar para São Paulo - estado onde um de seus irmãos morava.

“Passei três meses lá, foi todo o período de minhas férias, e fiquei encantada com tudo aquilo. Conheci pessoas, soube de oportunidades de trabalho e botei na cabeça que ia ficar lá de vez. Pra morar mesmo”, lembrou.

Ao voltar para Salvador, ela contou aos pais sobre o desejo, ou melhor, a decisão de ir para a capital paulista de vez. Dona Lázara e Seu Augusto não aprovaram a medida, mas de nada adiantou. Valdete juntou o próprio dinheiro e foi. Logo na chegada, sentiu na pele o preconceito e teve muitas dificuldades para conseguir emprego. Era uma moça de apenas 20 anos, recém-formada em um curso técnico, mas sem qualquer experiência no mercado de trabalho. Os primeiros seis meses em São Paulo foram marcados por uma palavra: desemprego.

Valdete aposta em táxi estilizado para lucrar (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Volta por cima
O jeito foi procurar alternativas. Enquanto não encontrava nenhuma oportunidade como técnica laboratorial, Valdete trabalhou como dama de companhia, empregada doméstica, arrumadeira, cuidadora e lavadeira de roupa até que recebeu sua primeira oportunidade, em um hospital no bairro paulistano da Vila Mariana. Depois, uma outra oportunidade surgiu e ela foi trabalhar como técnica de outro laboratório, onde ficou por cinco anos. Nesse segundo trabalho, ela aprendeu a fazer tudo: exame parasitológico de fezes, sumário de urina, bioquímica e leitura das lâminas de hematologia.

Com a experiência e contatos, outras oportunidades surgiram e ela recebeu proposta para trabalhar no Hospital Alvorada. Ela aceitou, mas também continuou trabalhando no laboratório porque enxergou uma oportunidade de aumentar a renda e conseguiria conciliar. Foi no novo posto de trabalho que ela teve seu primeiro contato com a enfermagem.

“Eu via as enfermeiras fazendo curativo, preparando remédio e fiquei encantada. Ali eu podia lidar direto com as pessoas. Não deu outra e me matriculei em um curso de técnica em enfermagem”, lembrou empolgada.

Quando as coisas pareciam caminhar melhor, tudo desandou e Valdete foi demitida dos dois empregos. O tempo das vacas magras foi cruel e ela estava sozinha na cidade. Tinha que pagar aluguel, água, luz, transporte e alimentação e não tinha de onde tirar dinheiro. Chegou a passar fome e viver apenas com água e açúcar dentro de casa.

“Nunca senti nada tão cruel quanto a fome”, contou, aos prantos.

Sem emprego, Valdete chegou a ficar 3 meses sem pagar aluguel e foi despejada. Também precisou trancar o curso de técnica em enfermagem porque não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Quem a acolheu foi uma mulher que trabalhava vendendo salgados na frente do Hospital Alvorada, seu antigo local de trabalho. Segundo Valdete, uma vez ela contou sua situação e a mulher abriu as portas da própria casa para que aquela desconhecida passasse um tempo até conseguir levantar dinheiro e voltar para Salvador.

Val garante que um dia voltará à capital paulista para agradecê-la.

“Ela me deu tudo. Deu roupa, lanche, casa e me ajudou a vender todos os móveis que tinha em São Paulo. Foi assim que consegui dinheiro pra voltar”, explicou.

De volta pra casa
Em Salvador, os pais a receberam de coração aberto, não sem antes “oferecer” um sermão enorme pela forma com que ela foi embora e por ter passado tanta necessidade na terra da garoa. Pensa que ela se arrependeu? Que nada. A Taxista do Amor diz que a experiência em São Paulo foi necessária para a vida dela.

“Acho que precisei perder tudo para voltar. Sofri muito, mas não me arrependo de ter ido” 

Já reinstalada na cidade onde se criou, Valdete retomou e concluiu o curso técnico em enfermagem e partiu para um novo sonho: a graduação em Enfermagem. Ingressou na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) em 2008 e concluiu em 2012. Foi na faculdade onde ela conheceu uma grande amiga e mestra: a professora Daniele Dourado, que assumiu o papel de mentora de Valdete.

A admiração que a taxista tem pela professora é tão grande que até hoje, após quase 7 anos de formada, ela trabalha voluntariamente como monitora de Daniele Dourado. Todas as sextas-feiras ela está na FTC para auxiliar sua mentora em uma das disciplinas que oferece no curso de Odontologia.

Nascida para brilhar
Mesmo formada, Valdete encontrou dificuldades para se colocar no mercado profissional como enfermeira. As contas não paravam de chegar e ela seguia desempregada. Foi então que ela decidiu arriscar. O ano era 2015 quando ela pegou seu carro, na época um Fiesta, e foi até o terminal do ferry-boat para trabalhar como motorista de transporte alternativo. 

Chegou até os motoristas que já trabalhavam por lá, pediu as orientações sobre como deveria fazer e foi acolhida. Ela nunca teve vergonha de perguntar e por isso procurou saber com os companheiros de praça como deveria fazer para cobrar e como chegar até os clientes. Foi assim que aprendeu e, durante pouco mais de um ano, trabalhou fazendo corridas entre a praia do Cantagalo e o ferry-boat.

Já em 2016, um conhecido sugeriu que ela começasse a trabalhar com táxi. Pensando em sair da informalidade, mais uma vez ela perguntou o que deveria fazer para ser taxista. Se matriculou nos cursos, regularizou alguns documentos pendentes e saiu em busca de carro e alvará para alugar. Assim começou a sua história com o táxi.

“Meu primeiro carro foi um Doblô, ele fazia sucesso e todos os clientes ficavam de olho nele porque é grandão”, lembrou a já taxista.

Valdete pagava R$ 750 por semana para alugar o carro, que, um dia, deu uma pane e bateu em uma barra de ferro. Valdete teve um pequeno corte na testa e alguns arranhões.

Sem a Doblô, o jeito foi procurar um novo carro. E ela também preferiu buscar uma nova locatária. Foi nessa época que surgiu a ideia de um carro diferenciado.

O novo veículo escolhido foi um Spin, igualzinho ao que ela tem hoje. Dessa vez, com uma exigência: falou com a locatária que queria colocar alguns adereços no carro. Na época, alguns adesivos, capa rosa para os bancos e tapetes em rosa-choque deram uma nova cara ao veículo.

Nascia ali o Táxi do Amor. Junto a ele, também vieram as promoções como a que realizou em um Dia dos Namorados: Val comprou champanhes e brinquedos de sex shop para oferecer aos casais que tiveram a sorte de pegar uma corrida em seu carro.

Estilizar o carro, oferecer descontos e paparicar os passageiros foi a maneira que Val encontrou para driblar a resistência que encontrou na profissão. Ela diz que sofreu “muito bullying”, em geral, por conta do jeito dela e de seu carro. Já recebeu apelidos como “quebrona” por ter um carro que chama muita atenção e confessa que fica muito triste - e até assustada - com as represálias que já sofreu dos colegas de profissão.

“Eu segui em frente porque eu sempre quero brilhar. Coloquei na cabeça que teria o carro mais lindo pra fazer sucesso e inveja neles”, contou com voz determinada.

Determinação e criatividade são os dois caminhos mais utilizados por Val em suas batalhas diárias. Ela diz que não gosta de trabalhar de manhã e por isso só começa a rodar a partir das 18h.

Aos domingos e segundas ela se reveza entre o Cantagalo e Rio Vermelho. Nas terças-feiras, o itinerário varia entre o Pelourinho e Rio Vermelho. Quando amanhece ela vai em busca de alguma corrida na rodoviária antes de voltar para casa.

A rotina às vezes muda um pouco e ela vai até o samba da Feira de São Joaquim, que rola aos domingos. Em dias de sábado, passa na Barra, no seu ponto preferido (Rio Vermelho) e finaliza realizando corridas no paredão da Engomadeira.

“Eu fico feliz porque hoje eu tenho uma vida financeira boa. Tenho duas casas, ganho bem e ainda alegro as pessoas. É muito gratificante”, avaliou a taxista.

Pelo menos quatro vezes por ano, Val chega em alguma comunidade carente de Salvador para distribuir brinquedos e alimentos que compra com o próprio bolso. Páscoa, Dia das Mães, Dia das Crianças e Natal é certo de acontecer algum evento. Ela não se prende a nenhum lugar ou instituição de caridade. Apenas se solidariza, pede licença e chega. No último Dia das Crianças, distribuiu R$ 2,5 mil em brinquedos na comunidade do Jardim Santo Inácio.

Para se tornar uma pessoa realizada, contudo, ainda falta uma coisa: o sonhado curso de Medicina. Valdete até chegou a iniciar o curso de Medicina Veterinária em 2016, mas abandonou porque não se sentiu feliz.

“Meu negócio é cuidar de gente”, contou antes de revelar que no próximo dia 18 ela vai iniciar as aulas no curso de Medicina. Formada em enfermagem, ela fez uma prova de transferência interna na FTC e conseguiu a aprovação. E aí se prepare para ver uma mulher, médica, enfermeira, técnica laboratorial e dona de um táxi todo rosa. Só se vê na Bahia.

* Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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