Conheça o Beco do Wilson, espremido no metro quadrado mais caro da cidade

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23.10.2021, 07:00:00
Atualizado: 23.10.2021, 11:50:19
(Nara Gentil/CORREIO)

Conheça o Beco do Wilson, espremido no metro quadrado mais caro da cidade

Beco do Wilson sobrevive em meio a prédios de luxo e é point de um bar já tradicional na vizinhança; ao longo da história, becos foram sendo destruídos

Uma caminhada de um minuto é o suficiente para percorrer, do início ao fim, a Travessa ou Beco do Wilson, um estreito entre os prédios do bairro do Corredor da Vitória que passa despercebido a quem não está atento à paisagem. Cada vez com mais frequência, alguém surge na entrada dele e pergunta: “Aqui é novo?”. Quem está lá dentro responde que não, pelo contrário. Existe vida no beco há, pelo menos, 80 anos.

Entre um mercadinho amarelo e um salão de beleza, a sinalização de que estamos no Beco do Wilson consta numa placa azul: “Travessa Hugo Wilson”. Ao meio-dia, o fluxo no Beco aumenta com o vai e vem de trabalhadores de obras, empresas ou órgãos públicos que vão almoçar no Abaixadinho, instalado no endereço desde 1974. Mas, em dias de semana, é só. Aos finais de semana, principalmente nesta fase de flexibilização, o movimento também cresce.

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No dia a dia, o Beco é mais frequentado pelos próprios moradores - até porque ele é passagem para lugar nenhum. A rota para a Praia Xangrilá, que existia, foi fechada nos anos 80, com a construção da Mansão Carlos Costa Pinto. Vendedores ambulantes, de pastéis e doces, no entanto, têm o Beco como uma rota. 

Os becos são, por definição, ruas estreitas e curtas, com residências dos dois lados, que ligam um ponto ao outro ou não têm saída.

O Plano de Desenvolvimento Urbano de Salvador (PDDU) tipifica um beco como qualquer outra rua, alameda ou travessa. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano municipal não sabe quantos deles existem na cidade.

No Beco do Wilson, são 16 casas grudadas umas às outras, pintadas e habitadas.

Embora sejam tão próximas, são ventiladas. Prestes a começar o verão, a temperatura sobe um pouco e algumas delas deixam as janelas abertas. Há ainda um prédio, com quatro apartamentos, construído nos anos 40.

Até 1975, havia um só banheiro para os moradores do Beco do Wilson, ainda existente. As casas têm um quarto e, na maioria delas, o banheiro e cozinha foram construídos à frente. Só no final da década de 80, a água começou a chegar por canos. 

“Lembro que tinha fila para ir ao banheiro, porque só tinha um. Também só tinha um tanque para todos”, recorda Carlos Santos, 69, nascido e criado no Beco, e filho da moradora mais antiga do local - Dona Benzinha, 101, que mudou de endereço somente na pandemia, para ficar com uma filha.

Mesmo com moradores que vivem ali há quase 80 anos, como Dona Benzinha, o Beco não pertence a nenhum deles, mas aos herdeiros de dois espanhóis. Todos moram de aluguel, que custa entre R$ 552 e R$ 1,4 mil (os apartamentos), o que os deixam incertos sobre o amanhã.

Os donos do beco já receberam propostas de venda - não informaram quantas. Mas, nunca venderam, pois nunca foi vantajoso, segundo um deles.
 
O valor de venda do metro quadrado no bairro do Corredor da Vitória é de R$ 8,6 mil, realizado pelo setor de Inteligência de Mercado ZAP.

Silêncio no beco: rota para praia Xangrilá foi fechada na década de 1980 (Foto: Marina Silva/CORREIO)

 'Sempre fui pobre, mas nunca senti discriminação'
O silêncio faz parte da rotina nos dias de semana no Beco do Wilson. Se lá fora há uma zona de carros, caminhões e marteladas, no Beco o volume fica decibéis abaixo.

“Nem a televisão a gente ouve alto e o som é sempre baixinho. Eu mesma reclamo, se tiver alto”, diz a aposentada Ana Soares Fortez, 57, que sempre morou na mesma casa, uma residência de um quarto e uma sala, que na infância ela dividia com seis familiares.

Segundo Ana, o som baixo não tem a ver com os vizinhos nos prédios. “Sempre fui pobre, mas nunca senti essa discriminação”, diz. Dois moradores de prédios vizinhos da Vitória, que não quiseram ser identificados, disseram que “não tinham o que falar sobre o Beco do Wilson”, pelo fato de nunca terem sequer entrado lá. 

Os moradores chegam atraídos pelo aluguel não só no centro da cidade, como no perímetro mais caro de Salvador. A locação de um apartamento de 32 metros, a 500 metros dali, custa R$ 2,5 mil. As casas do beco têm 30 metros, em média. 

O Beco do Wilson era da família Costa Pinto até 1963, quando foi vendido a dois espanhóis, Garcia e Laureano, donos do mercadinho da esquina com o Beco. Garcia, falecido há 14 anos, emigrou da Galícia na década de 50, fugido da Ditadura de Franco, a convite do amigo Avelino, já instalado na capital baiana, com uma funerária no Pelourinho.

Aqui, Garcia fez sociedade com Laureano, abriram o Armazém da Vitória - hoje Casa das Frutas - e compraram o Beco dos Costa Pinto.

“Moramos lá a minha vida toda. Só sai de lá quando meu filho completou 7 anos e hoje ele tem 21”, conta José Luiz Garcia, 54, filho de Garcia, que hoje administra metade dos aluguéis.

De lá, José Luiz traz na lembrança o mato, a praia e o “esgoto a céu aberto”.
 
Os habitantes do Beco, até a época dos espanhóis, eram funcionários dos Costa Pinto. Havia também moradores que nada tinham a ver com os Costa Pinto, como a família de Ana. As casas do passado caíram com o tempo e foram substituídas por novas. Em época de Natal, as famílias trocavam pratinhos feitos.

O hábito se repetia na Sexta-Feira Santa. A mãe de Ana trocava com a 32, que trocava com a 28, e por aí vai. No Beco do Wilson, as casas são numeradas de dois em dois. Dois bares - entre eles o tradicional Abaixadinho - e um depósito de bebidas fazem o comércio local. 
 
A vizinhança preserva uma aparente fraternidade e as pessoas, pelo menos as mais antigas no endereço, se conhecem pelo nome e se conectam pelas memórias em comum. Sem portão de acesso, o acesso ao Beco do Wilson é livre, até chegar à casa de Ana.

“Coloquei essa grade aqui há uns cinco anos, porque as coisas não são como eram antes com esse negócio de droga, ladrão”, lamenta. 

Rita Souza Lima, 45, que hoje comanda o Abaixadinho com a mãe, mais conhecida como Lita, lembra de uma infância livre. Pelo mato, desciam até à Praia do Xangrilá. “Corria aqui o dia todo. A gente achava tudo lindo”.

A 'higienização' dos becos
Tudo leva a crer que o Hugo Wilson que dá nome ao beco, na verdade, seja Hugh Wilson, engenheiro inglês que morava no século 19 em um palacete no bairro do Campo Grande, com gradis importados da Inglaterra. A última consoante foi abrasileirada e incorporada como vogal. 

Os próprios moradores da travessa e os atuais moradores desconhecem a história por trás do nome da travessa. Essa versão é apresentada pelo historiador Rafael Dantas.
 
Antes da consolidação de um padrão elitizante nessa região central da cidade, em meados do século 20, os becos “eram onde as pessoas se encontravam, dinamizavam suas vidas no espaço urbano”, diz Dantas. “O que é um beco? Uma ligação entre caminhos. E eram importantíssimos porque eram lugares de passagem. Salvador cresce nesses becos”, conta. 
 
Os becos foram paulatinamente substituídos conforme o padrão higienista da época.

“Os becos vão embora e, nesse caso do Beco do Wilson, temos um foco de resistência”, acredita Dantas.

Em Salvador, os becos residenciais do centro sobreviveram principalmente entre o Politeama, Garcia, Carlos Gomes, Sodré e a Baixa dos Sapateiros.

Hoje, eles resistem “desde que não haja grandes obras por perto”, afirma a antropóloga e professora da Universidade Federal da Bahia Urpi Montoya. Na Baixa do Sapateiros, região que ela estudou e é abordada no livro "Entro em Beco Sai em Beco", quatro desapareceram com a construção de um estacionamento no Pelourinho.

Lá, ela descobriu ao menos dez becos, criados há mais de um século, ou mais recentemente, na década de 60. Mas, resistem de forma pouco visível. “Como suas formas são pouco visíveis, não sabemos sequer que elas existem”.

Os becos são como corredores onde casinhas se erguem pelas beiradas, muito próximas umas das outras, e, em regiões como a Baixa dos Sapateiros, se tornaram uma opção para uma massa de trabalhadores que precisavam de adaptação preferencialmente próxima dos núcleos urbanos.

“Esta demanda foi lucrativamente atendida por pequenos proprietários que tinham terrenos nos quais podiam construir uma série de casinhas para serem alugadas. O custo era barateado colocando um único banheiro para todas elas”, explica Urpi.

É justamente o que ocorria no Beco do Wilson.

Samba começa 13h no Abaixadinho (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

 O samba do beco
Às 11h, começam a chegar os primeiros frequentadores do Abaixadinho, na entrada do Beco do Wilson. Fundado em 1974 pelo marido falecido de Maria Luiza Lima, 73, conhecida como Dona Lita, o bar traz samba às tardes de sábado do beco.

Sem microfone ou qualquer aparelho de som, o samba é tocado e cantado por, na maioria das vezes, homens aposentados, que se conheceram no bar ou fora dali, e moram nas redondezas da Vitória, Graça e Barra.
 
O samba surgiu pouco antes do início da pandemia. Aconteceu assim: o aposentado Albérico Marques, 66, que conheceu o bar por intermédio de Marquinhos, outro habitué, tentou fazer um som com galões de água de um estabelecimento vizinho. O dono do depósito não gostou. Albérico menos ainda. “Fiquei virado”.

Naquela mesma semana, Albérico desembolsou mais de R$ 600 para comprar instrumentos para o samba. No outro sábado, surgiu o Samba do Bandolim, que segue um repertório que passeia de João Bosco a Martinho da Vila, de Benito de Paula a Raul Seixas - adaptado. "Aqui é o único barzinho assim mais popular para a gente vir", comenta a empreendedora Keila Filadelfo, 55.
 
Aos sábados, uma média de 25 pessoas participam do samba. Oito delas diretamente, tocando ou cantando. O samba ganha projeção no boca a boca. Um amigo conta a outro - a maioria do público é masculina - e, no sábado seguinte, um novo visitante aparece.

A tarde é regada a cerveja, doses de cachaça mineira e tira-gosto - o que mais sai é o caldo de sururu. Para almoçar, o mais famoso é a dobradinha de Dona Lita. A maior parte dos frequentadores conhece a Travessa do Wilson há décadas. O tio do aposentado Marquinhos - Marcos Paes, 67 - foi quem o levou para o Abaixadinho.

Dona Lita: à frente do Abaixadinho, onde é servido sua famosa dobradinha no almoço (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Na época, sempre tinha um sambinha, mas não assim, organizado, com data para acontecer e hora para começar a terminar - das 13h às 18h.

“Aqui já teve de tudo. Inclusive umas pessoas conhecidas e cantoras também, frequentavam aqui”, conta Marquinhos.

Na época em que agência de publicidade Engenho Novo ficava no Corredor da Vitória, os funcionários promoviam uma lavagem do “Beco do Abaixadinho”. 

Quando a reportagem visitou o beco, somente dois visitantes não tinham a tradição de frequentá-lo. Era o casal de turistas Márcia Bicudo, 45, e Aparecido Leitão, 61, que entraram ali pois viram cadeiras e mesas que indicavam a presença de um barzinho. 

“Lá em São Paulo têm uns lugares que nem esse. É muito interessante”, diz o contador Aparecido.

Mesmo nos sábados mais fracos de movimento, o samba não deixa de acontecer. No meio de uma dessas tardes de música, Albérico dividia o partido alto com um jovem que estava à espera de um amigo.

Seja por obra de velhos conhecidos, ou recém-chegados, o samba que ecoa mostra que o beco não é de hoje, muito pelo contrário.

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