Conheça Solange Borges, a chefe de cozinha que resgata saberes ancestrais em Camaçari

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22.01.2022, 07:20:00

Conheça Solange Borges, a chefe de cozinha que resgata saberes ancestrais em Camaçari

Ela criou o Culinária de Terreiro, espaço onde cozinha com os clientes e fala de ancestralidade e Candomblé

Um instante de silêncio, dois olhares que se encontram, um prato de comida bem saboreado na mesa e está ali, no não dito, o que Solange Borges, 59 anos, entende por amor. Essa é uma mulher que não gosta de beijos e abraços. Já se ela vê alguém provar da sua comida e sorrir, quem sabe esboçar emoção, é diferente. “Gosto disso: a pessoa comer e me olhar, feliz. Me sinto amada”. 

Leia mais: Chefes, mulheres perpetuam tradições ancestrais na cozinha nacional

Solange, a mulher que trocou os abraços pelas comidas que provocam olhares, criou um negócio que tem atraído chefes de todo o país. É o Culinária de Terreiro*, espaço criado em 2017, onde os clientes cozinham com ela, ao lado de um terreiro de Candomblé - liderado pela filha de Solange.

As comidas, todas, resgatam a ancestralidade e histórias que Solange quer compartilhar. A ideia de cozinhar profissionalmente surgiu dessa pretensão. 

“Fiquei pensando como eu poderia conversar sobre o Candomblé, com um assunto que todo mundo gostasse. Qual é a melhor forma? Comida”

Na frente da casa de Solange, na Agrovila Pinhão Manso, em Camaçari, cresce uma acácia amarela. As casas, como a dela, são fundeadas por roças de dendê - que, transformado em óleo, vai nos preparos feitos por ela - urucum, mandioca e outros frutos e legumes, a depender da estação. A terra sempre foi um sonho, que agora ela vive.

Desde a infância, ela aprendeu, sem saber que era ensinada, com um “pegue ali, minha filha” e “refaça isso aqui”, a fazer acarajé com a mãe. Não aprendeu por amor. Joselita vendia os bolinhos de feijão fritos para sustentar os quatro filhos. A Solange, que era a filha mais velha, coube ajudá-la nas vendas.

Foi nessa época que Solange também aprendeu que o “alimento é sagrado”. A mãe dela era iniciada no Candomblé e preparava “com devoção, afeto, cuidado a comida do santo”. A sacralidade já emocionava Solange, que ficava ali, só aprendendo sem dizer nada. 

As crianças que acompanhavam a mãe e os pais aos terreiros - como Solange - não entravam na cozinha, ambiente sagrado no Candomblé, onde mulheres preparam, ritualisticamente, os alimentos dos orixás. Ainda assim, uma coisa ficou em Solange: “O terreiro de Candomblé é salvaguarda da cozinha baiana”. 

Descobrindo ancestralidade da comida
Da infância até entender a ancestralidade viva da cozinha baiana, o caminho não foi uma linha reta. Solange não queria ser chefe de cozinha. Baiana de acarajé, menos ainda. Quando a matriarca faleceu, em 1985, Solange se afastou do Candomblé, da venda de alimentos e exerceu diferentes funções.

Foi faxineira, empregada doméstica, diarista, manicure, até 1988, quando foi aprovada em um concurso público para trabalhar na ala administrativa do Hospital Geral de Camaçari. 

Solange ensina preparo de acarajé (Foto: Divulgação/Fernanda Maia)

A reconexão com a cozinha começou em 2009. “Fiz um curso para me capacitar um pouco, para entender um pouco mais de cozinha”. Nas aulas, Solange viu que já sabia boa parte das técnicas: a diferença é que não conhecia o nome delas. Não tinha tido tempo de aprendê-las. Além do trabalho fora de casa, criou os dois filhos sozinhas. 

“Mas me considero uma pessoa que venceu. Porque não tenho dificuldade de me alimentar”, diz.

Não só se alimenta como alimenta uma quantidade cada vez mais crescente de gente que chega para conhecer a Culinária de Terreiro. Domingo passado, o chefe Alex Atala a presenteou com um exemplar autografado do seu novo livro, sobre a mandioca.

De manhã e noite, saem raízes, cuscuz ou beiju. No almoço, uma salada com plantas da roça, feijão, carne ou tilápia criada pelo vizinho. Solange é dois filhos e três netos, que "adoram a comida da vovó". 

Até chegar ao Pinhão Manso, em 2014, a chefe de cozinha morou na rua onde tinha crescido. “As pessoas me viam como mãe de santo, porque sabiam de minha mãe, mas eu não era do Candomblé". O retorno à religião aconteceria apenas em 2011, quando ela foi iniciada.

Depois disso, o destino pôs o caminho em ordem: a culinária se tornou um negócio e forma de entender e falar sobre suas próprias raízes. Hoje, Solange  é uma liderança feminina posta na Agrovila e incentiva outras mulheres a viverem e perpetuarem seus saberes ancestrais. 

O sonho de que todos façam acarajé
Em 2011, mesmo ano em que foi iniciada no Candomblé, Solange concluiu uma graduação em Letras. Nessa época, conciliava o trabalho no hospital com os estudos e um cargo como secretária executiva de um político. A cozinha, profissionalmente, não era bem uma possibilidade.

Três anos depois, quando a filha montou um terreiro no Pinhão Manso, Solange foi junto e começou a arquitetar o que seria o Culinária de Terreiro, que recebe de chefes de cozinha a famílias para imersões gastronômicas. As comidas preparadas não são sagradas, pois não são feitas em ambientes religioso, com técnicas específicas.

A ideia não é essa e sim preservar hábitos e culturas alimentares ancestrais marcadas por matrizes africanas. 

Solange e sua culinária de terreiro (Foto: Fernanda Maia/Divulgação)

Solange só descobriu que o projeto seria daquela forma enquanto fazia. “Eu fui descobrir depois que eu fui para Academia, depois que eu conheci pessoas, depois que chefes vieram aqui”. 

“A ancestralidade já existia em mim, mas eu fazia as coisas sem saber que estava fazendo. Eu fui abraçando essas narrativas”.

Quando Solange não está perto do fogão, nem respondendo clientes ou trabalhando na terra, está lendo principalmente temas ligados à gastronomia e ancestralidade. “Mas eu gosto de ler o que me encanta. Ultimamente tenho lido até menos, muito trabalho”.

Todos os dias, a chefe compartilha em sua página no Instagram registros da rotina de trabalho na roça e na cozinha e ensina receitas. Há um sonho que, segundo ela, simboliza seu projeto: “Fazer com que todas as pessoas daqui saibam fazer acarajé. Isso tudo é nosso, está na nossa raiz”. 

*Para ter informações sobre visitas ao espaço, entre em contato pelo número 71) 99935-1339 ou via Instagram (@culinariadeterreiro).

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