Conrado Schlochauer: ‘É impossível imaginar a máquina sem a pessoa’

agenda bahia
05.11.2018, 06:00:00
Atualizado: 05.11.2018, 15:51:58
Conrado Schlochauer escreve artigos em sites e revistas sobre inovação e aprendizagem de adultos (Divulgação)

Conrado Schlochauer: ‘É impossível imaginar a máquina sem a pessoa’

Especialista estará no Seminário Humanize[se]; leia entrevista

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Conrado Schlochauer costuma se apresentar como ‘presentista’, alguém que, como ele mesmo explica “sabe que já tem futuro demais aqui e tem de espalhar esse futuro por mais gente”. O embaixador da Singularity University estará em Salvador, no dia 7, quando fará a palestra ‘Pensamento exponencial: Uma visão Humana’, no Seminário Humanize[se], durante o encerramento do Fórum Agenda Bahia 2018. 

No mesmo evento, participará também do debate ‘Humanize[se]: Como homem e máquina podem andar juntos na nova era tecnológica?’, junto com o designer Frank Tyneski, a idealizadora do PretaLab e diretora de projetos do Olabi MarkerSpace, Sil Bahia, e o vice-presidente Global de Pessoas, Marketing, Comunicação Empresarial e Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Marcelo Arantes.

Em conversa com o CORREIO, Schlochauer explica o que é pensamento exponencial, defende o aprendizado contínuo ao longo da vida e afirma que as pessoas não são reféns dos processos de mudança ocorridos na era tecnológica: “Eu vejo que tem gente que por um lado está idealizando, endeusando, e por outro lado, demonizando a tecnologia, quando ela é uma ferramenta”.

Também ressalta que para a combinação entre pessoas e máquinas dar certo em um futuro que pressagia o domínio da Inteligência Artificial, é preciso ressaltar os aspectos e as capacidades humanas específicas, como a empatia e a criatividade para se adaptar às circunstâncias e resolver problemas.

Quem é - Conrado Schlochauer é embaixador do Capítulo São Paulo da Singularity University. Também foi um dos fundadores da Affero Lab, a maior empresa de aprendizagem corporativa do Brasil. Empreendedor apaixonado por aprendizagem, nos últimos 20 anos dedicou-se à pesquisa e inovação e ao desenvolvimento de programas de liderança, jovens talentos e transformação digital para mais de 300 das maiores empresas do Brasil. 

Ao longo desse período, concluiu o mestrado em Criatividade (PUC/SP) e um doutorado em Aprendizagem de Adultos, no Instituto de Psicologia da USP. Também possui uma série de especializações internacionais, incluindo o Executive Program, na Singularity University. 

Escreve com frequência para revistas e sites nacionais e faz palestras em grandes eventos, falando sobre inovação em Aprendizagem de Adultos e Transformação Digital. 

O Fórum Agenda Bahia 2018 é uma realização do jornal CORREIO, com patrocínio da Braskem, Sotero Ambiental e Oi, apoio institucional da Prefeitura de Salvador, Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro, Federação das Indústrias da Bahia (Fieb) e Rede Bahia; e  apoio do Sebrae e da VINCI Airports.

Leia a entrevista:

O senhor vai fazer a palestra Pensamento Exponencial: Uma visão humana, no Fórum Agenda Bahia 2018. Pode adiantar um pouco do que irá apresentar ao público baiano?

A ideia da conversa sobre pensamento exponencial é exatamente falar um pouco do papel do homem nesse processo de transformação todo. Na verdade, esse processo de crescimento, de tecnologia, de velocidade, de mudança, ele se dá por causa do homem. A gente não é refém desse processo. Eu vejo que tem gente que por um lado está idealizando, endeusando, e por outro lado, demonizando a tecnologia, quando ela é uma ferramenta. Mas uma ferramenta que está gerando uma velocidade que nós, como espécie, vamos ter de nos adaptar. Mas, basicamente, a gente não pode tirar o elemento humano, criativo e empático desse processo.

O que é pensamento exponencial e como essa forma de pensar nos ajuda a entender e adaptar aos novos tempos de revolução digital?

O pensamento exponencial é melhor compreendido quanto a gente contrapõe ele ao pensamento linear. Então, o mundo sempre cresceu de uma maneira constante, linear e local. E de repente, é exponencial e global. Exponencial, basicamente, quer dizer que na mesma mudança de tempo, em dez anos, o que acontecia de 1950 a 1960 - o crescimento da tecnologia, o crescimento da população, o impacto em aspectos socioambientais -, quando você pega de 2010 para 2020, a mudança é muito radical, isso é exponencial. É aquela curvazinha que faz com que, quando você anda no tempo aqui no eixo x, a quantidade de mudança, no eixo y, é bastante alterada. É fundamental a gente ter esse farol de pensamento porque a gente sabe e vai entender não só que a mudança acontece, mas como ela acontece, especialmente no final da curva exponencial, de maneira muito rápida. De você brigar se o Uber deveria entrar ou não no Brasil, para ele virar uma realidade absoluta, isso foi uma questão de dois anos.

O Fórum Agenda Bahia 2018 tem uma questão central - Como humanos e máquinas podem andar juntos nessa era tecnológica -. Do ponto de vista do pensamento exponencial, como essa combinação é possível?

A primeira coisa é que os humanos e as máquinas andam juntos há bastante tempo. Então, a gente tem um processo de transformação que já vem ocorrendo há bastante tempo e agora está mais fácil. Então, é impossível você imaginar a máquina sem a pessoa e não o contrário. A combinação que a gente tem vai ser de, mais uma vez, ressaltar os aspectos mais humanos, como a capacidade cognitiva especifica, que mais tem a ver com empatia, mais tem a ver com a maneira como a gente resolve problemas, e utilizá-la. Quando a gente fez as máquinas, a força física era menos importante. Então, agora que a gente desenvolveu a possibilidade de usar computadores para atividades cognitivas repetitivas, a gente vai direcionar nossa capacidade para outras coisas.

"A combinação que a gente tem vai ser de ressaltar os aspectos mais humanos, como a capacidade cognitiva especifica, que mais tem a ver com empatia, mais tem a ver com a maneira como a gente resolve problemas, e utilizá-la.

Muito se fala em era exponencial e disruptiva, que momento é esse que estamos vivendo? E de que maneira isso afeta o cotidiano das pessoas, seu modo de pensar e de existir no mundo? 

Eu sou meio crítico, eu brinco que tem a ‘Santíssima Trindade’ da mudança que a gente vive, que é disrupção, exponencial e digital. E acho que a gente, na verdade, não sabe muito bem o que é isso. Então, a questão da era exponencial e disruptiva que a gente está vivendo, eu acho que tem muito a ver com uma vontade de vender livro. Na verdade, as mudanças rápidas se dão ao longo de meses e anos. Eu acho que a gente vai, por um lado, ser impactado por novas tecnologias que vão tornar a nossa vida mais fácil, para algumas pessoas, e mais complexas, para outras. Nós vamos ter jeitos diferentes de interagir com o mundo. Mas, especialmente, acho que a gente vai ter de continuar aprendendo. Acho que quando a gente pega a transformação do mundo, que se dá nessa velocidade exponencial, e quando a gente pega a longevidade, o fato de que a gente vai viver mais tempo, tem uma necessidade de a gente focar nosso aprendizado de uma maneira bem intensa.

"Eu acho que a gente vai, por um lado, ser impactado por novas tecnologias que vão tornar a nossa vida mais fácil, para algumas pessoas, e mais complexas, para outras.

Quais habilidades os empreendedores e/ou líderes empresariais precisam desenvolver para pensaram de forma exponencial?

A gente fala habilidades do futuro, mas eu sou um pouco crítico. Estou escrevendo um livro junto com outras pessoas, a gente pesquisou e identificou 302 habilidades listadas entre Fórum Econômico Mundial, vários autores, Unicef, etc. Então, eu acho que virou um tema da moda falar das skills (habilidades) do futuro e eu vou focar em um só, que é ‘lifelong learning’, capacidade de aprender ao longo da vida, capacidade de aprender e reaprender é fundamental, principalmente sem fazer julgamentos.

Para você, a tecnologia é um meio de construirmos um futuro mais justo e mais inclusivo? O que ainda precisamos aprender para aplicar a tecnologia em prol de mudanças positivas no mundo?

A primeira coisa é:  o que é a tecnologia? Porque sempre foi isso, uma maneira de fazer um futuro mais justo, mais inclusivo. Carro é tecnologia, luz é tecnologia, rádio é tecnologia. Mas a gente normalmente trava a tecnologia no que foi inventado nos últimos 10 anos. Mas desde que a gente pegou uma pedra, como homo sapiens, aliás, bem antes disso até, para quebrar um coco para comer, uma ferramenta tecnológica estava fazendo a gente ter uma interação melhor com o mundo. Esse é o processo constante. A gente tem efeitos colaterais como a poluição, a pobreza, como a questão da fome. São questões laterais, involuntárias e negativas pelo fato da gente ter dominado tanto a tecnologia que a gente consegue crescer populacionalmente de uma maneira muito grande. Então, eu acho que o aprendizado para usar a tecnologia, efetivamente é uma visão de futurismo. E o futurismo não é futurologia, não é você querer acertar o futuro. Futurismo é você querer pensar em imagens possíveis, em cenários possíveis, e criar um cenário que você escolhe e agir no presente. Eu me apresento como ‘presentista’, alguém que sabe que já tem futuro demais aqui e tem de espalhar esse futuro para mais gente. Tem um monte de coisas que um número bem pequeno da população sabe, conhece ou utiliza. E quanto mais gente tiver esse conhecimento, melhor. Então, aplicar a tecnologia em prol de mudanças positivas, é saber que a tecnologia é meio. No fundo, é conversar com o ser humano e entender exatamente o que a gente quer como sociedade e o que cada um quer como responsável por uma partezinha da espécie humana.

PROGRAMAÇÃO DO SEMINÁRIO HUMANIZE[SE]:

Manhã

8h – Credenciamento
9h - Cerimônia de Abertura
9h30 - Palestra Design Para a Era Experimental, com Frank Tyneski
10h - Talkshow do palestrante Frank Tyneski 
10h20 - Palestra Pensamento Exponencial: Uma Visão Humana, com Conrado Schlochauer
10h50 - Talkshow do palestrante Conrado Schlochauer 
11h10 - Painel Humanize[se]: Como homem e máquina  podem andar juntos nessa nova era tecnológica?, com Frank Tyneski, Conrado Schlochauer, Sil Bahia e Marcelo Arantes

Tarde

14h às 15h30 - Oficina Psico-Estética:  A Arte Prática do Design Thinking, com Frank Tyneski
14h às 15h30 - Oficina O Mundo mudou. E você?, com  Eduardo Endo, diretor dos MBAs da FIAP
14h às 15h30 – NAVE: Programação e robótica como solução para as cidades, com Anderson Paulo da Silva
14h às 15h30 – Pessoas e Tecnologia: criando novas relações de trabalho, com Marcelo Arantes
16h às 17h30 - Oficina Criative [se], com Alessandra Terumi 
16h às 17h30 - Desafio de Inovação Acelere[se]. As oito startups participantes do programa de mentorias farão um pitch para investidores em potencial. Cristiana Arcangeli fará palestra sobre os desafios de empreender e dicas para novos empreendedores
16h às 17h30 - Painel Tecnologia, Impacto Social e Diversidade, com Sil Bahia, diretora de projetos do Olabi Markerspace, Brenda Costa, cofundadora do OxenTI Menina, e Ka Menezes, Professora da Faculdade de Educação da UFBA, presidenta do Raul Hacker Club de Salvador Bahia e idealizadora do Projeto Crianças Hackers.
16h às 17h30 – Painel Inteligência Artificial na Indústria 4.0: impactos e novas habilidades profissionais, com Rita Pellegrino e Erick Sperandio.

SERVIÇO

O quê - Seminário Humanize[se]
Quando -  07/11, 8h às 17h30
Onde - Quality Hotel & Suítes São Salvador (Rua Dr. José Peroba, 244 – Stiep)

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