Consumo de alimentos industrializados impacta na saúde das crianças

bem-estar
03.12.2018, 05:55:00
Imagens de Gregg Segal, que podem ser vistas no site www. greggsegal.com, alertam para aumento do consumo de industrializados. Na foto, o brasiliense Henrico  (Gregg Segal/Divulgação)

Consumo de alimentos industrializados impacta na saúde das crianças

Saiba quais são os maiores violões da dieta infantil e veja opções de industrializadas mais inteligentes

Quem nunca trocou refeições in natura ou preparadas em casa por alimentos industrializados? Itens como refrigerantes, salgadinhos, bolachas recheadas, nescau, hambúrgueres e guloseimas eram rotina na vida do estudante Matheus Garcia, 15 anos. “Comia tudo industrializado e minha mãe não ligava. Podia comer brigadeiro a semana inteira que ela não ia reclamar”, conta.

Os hábitos alimentares do jovem baiano são realidade na vida de muitas crianças. Preços mais acessíveis associados à falta de tempo dos pais fazem com que a preferência acabe sendo por itens  prontos. O problema, explicam especialistas ouvidos pelo CORREIO, é que esses alimentos muitas vezes são ricos em conservantes, sódio, gordura e açúcares refinados, considerados vilões da alimentação quando consumidos com frequência.

“Industrializados não têm nenhuma fibra e nem sais minerais. São muito calóricos e não dão saciedade. Isso atrapalha o desenvolvimento e crescimento sadio de uma criança. A glicemia sobe rápido, levando a um disparo da insulina, o que pode gerar hipoglicemia reativa (diminuição da concentração de glicose no sangue) e despertar maior vontade por esses carboidratos”, explica o médico Gabriel Almeida, que há mais de dez anos trabalha na área de qualidade de vida e preparação física. 

A maioria dos alimentos fabricados pelas multinacionais possuem baixo valor nutricional, são hipercalóricos e hiperpalatáveis, ou seja, pensados para serem o mais saborosos possíveis
(Foto: Reprodução)

Ou seja, quanto mais a criança come industrializados, mais quer o alimento, acarretando em um ciclo vicioso já na infância. O maior consumo de produtos processados e/ou refinados interfere não só no bem-estar diário como aumenta o risco de problemas na saúde, incluindo doenças no coração, colesterol alto e obesidade, muito comum entre crianças de todas as faixas etárias. 
Também pode influenciar na maior incidência de alergias.

“O açúcar e a gordura hidrogenada, usada para manter esses produtos por mais tempo, formam um ambiente perfeito para o acúmulo de gordura no corpo, já que esses carboidratos ‘ruins’ vão deixar as células cronicamente inflamadas”, acrescenta o médico. 

Além da inflamação das células, Gabriel pontua que a maior parte desses produtos favorece o crescimento de bactérias patogênicas que prejudicam a absorção das vitaminas e minerais fundamentais ao nosso organismo. Na opinião do especialista, entre os maiores violões da dieta infantil (veja outros abaixo) estão as bolachas recheadas, que carregam gordura saturada, gordura trans, corantes e elevado teor de açúcar. "Não agregam nenhum valor nutricional significativo à alimentação da criança", concorda a nutricionista Karoline Basquerote, especialista em Nutrição Clínica e Doenças Crônicas.

Marmita
E como sair deste ciclo vicioso? Para o jovem Matheus Garcia, que abre esta reportagem, o clic veio aos 14 anos, quando decidiu mudar os hábitos alimentares com acompanhamento de um nutricionista e introdução de exercícios físicos. “Comia tudo industrializado e não estava me sentindo bem comigo mesmo. A princípio, era uma questão estética, mas depois percebi que a saúde vinha junto. Desde então, me sinto mais disposto”, conta o estudante, que hoje tem uma alimentação bem regrada.

Marmiteiros defendem estilo de vida mais saudável, prático e barato

Matheus, inclusive, faz questão de levar uma marmita para escola com coisas que prepara em casa e frutas. Quando não dá tempo, ele compra tapioca ou acaí na cantina da escola. “A maioria das comidas vendidas lá é industrializada. Hoje só faço uma refeição na semana que não é tão saudável. Faz parte da minha rotina comer alimentos limpos, que fazemos em casa, tipo arroz, macarrão, carne, salada, etc. Também bebo bastante água”,  acrescenta.

Vasilhames de vidro são melhores opções para marmitas. Ideal é separar um para cada alimento
(Foto: Reprodução)

Assim como Matheus, os pequenos Lucca, 4, e Léo, 2, têm uma alimentação supersaudável, fruto de um planejamento cuidadoso da confeiteira Luciana Simas Ribeiro, 40, que desde antes deles nascerem resolveu mudar a própria alimentação. “Estava com obesidade mórbida, então tirei os industrializados da minha vida e levei uma gravidez tranquila. Pari do primeiro filho 500 g acima do que engravidei. Na introdução alimentar de Lucca, me encantei pelo método BLW (em que o bebê começa a comer com as mãos os alimentos cortados em pedaços, bem cozidos). Fui seguindo meu coração e foi natural. Nunca ofereci nada amassado ou processado. Eram sempre alimentos inteiros”, conta ela, que criou Instagram @mamaegourmet para compartilhar sua experiência com os filhos.

Desde cedo, os meninos foram acostumados a experimentar as texturas e sentir o sabor de cada alimento e nunca rejeitaram coisas diferentes. “Eles se alimentam do que tem na mesa. Comer salada e vegetais é rotina. Criei eles dessa forma, então os alimentos naturais e frutas não são novidade. Me preocupo com a alimentação deles por causa da saúde”, ressalta.

Os alimentos in natura e as preparações caseiras fazem parte da rotina alimentar desse lar. “Aqui não entra biscoito recheado, nem salgadinhos, refrigerante, suco é só natural ou polpa. Não existe um segredo. Tem mais a ver com o exemplo que a gente dá desde cedo”, afirma Luciana. Lucca e Léo até já comeram salgadinhos e doces, mas não fazem questão. “Eu adoro purê de abóbora, batata, tomate, alface, repolho, feijão e franguinho”, conta Lucca. “Brócolis com arroz, macarrão, milho, queijo e salada”, completa Léo. Na escola, os irmãos costumam levar uma fruta e algo que a mãe prepara em casa. “Maça, banana, melão, melancia, suco, cookie de banana e de maça”, lista o mais velho.

Luciana adora ver receitas novas pelo Instagram e faz questão de não incluir nada embalado na alimentação dos filhos. “Tem dia que mando pipoca, outros dias cookies de banana, muffin ou bolo de cenoura. Às vezes, as pessoas culpam a falta de tempo, mas minha vida é louca. É questão de prioridade. Muitos pais chegam no supermercado e compram lanches industrializados achando que é saudável e não é”.

Para que uma criança tenha um desenvolvimento sadio sem problemas futuros, com saúde em todas as partes do corpo, o ideal é mesmo influenciar uma refeição rica em hortaliças, verduras, proteínas, água, etc, de forma criativa, para que doenças sejam evitadas, recomenda Gabriel Almeida. 

O médico também indica o estímulo de brincadeiras que gerem gasto energético pelo menos 1h por dia e redução do uso de telas para menos de 1h por dia.

“Desembale menos e descasque mais. Leve as crianças ao supermercado ou às feiras, cozinhe junto com eles e coloque-os em contato com os alimentos para instigar a curiosidade por outros sabores”, recomenda.


Fotógrafo registra alimentação infantil 

Apesar de muita gente ter consciência que alimentos ultraprocessados não são saudáveis, os efeitos do acesso fácil e globalizado a eles só ficam claros quando as pessoas param para pensar no que comeram num determinado período. E foi justamente fazendo esse exercício que o fotógrafo americano Gregg Segal criou o projeto Daily Bread (pão diário) e fez imagens como a do topo dessa matéria pelo mundo inteiro. Clique para ampliar e ver algumas fotos do projeto.

Clique para ampliar e ver as fotos | Ademilson, Brasilia, 2018: “O dia de Ademilson é dividido entre a escola pela manhã e agricultura à tarde; ele ajuda o pai a colher mandioca, um alimento básico de sua dieta livre de produtos processados ​​e
Clique para ampliar e ver as fotos | Ademilson, Brasilia, 2018: “O dia de Ademilson é dividido entre a escola pela manhã e agricultura à tarde; ele ajuda o pai a colher mandioca, um alimento básico de sua dieta livre de produtos processados ​​e (Fotos de Gregg Segal/Divulgação)
Davi, Brasília, 2018: “Davi com a comida que comeu em uma semana e sua pipa. O conjunto é feito a partir de materiais coletados da favela Chácara Santa Luzia, em Brasília, onde moram Davi e sua família, uma comunidade de mais de 12 mil pessoas"
Davi, Brasília, 2018: “Davi com a comida que comeu em uma semana e sua pipa. O conjunto é feito a partir de materiais coletados da favela Chácara Santa Luzia, em Brasília, onde moram Davi e sua família, uma comunidade de mais de 12 mil pessoas"
Kawakanih Yawalapiti, 9, do Alto Xingu, no Mato Grosso: “Peixe do rio Suiamissa, tapioca e frutas – e muito pouco mais. Não há alimentos embalados [e] processados"
Kawakanih Yawalapiti, 9, do Alto Xingu, no Mato Grosso: “Peixe do rio Suiamissa, tapioca e frutas – e muito pouco mais. Não há alimentos embalados [e] processados"
Ayme, Brasília, 2018
Ayme, Brasília, 2018
Thayla, Brasília, 2018
Thayla, Brasília, 2018
Daria, Los Angeles, 2016
Daria, Los Angeles, 2016
Adveeta, Mumbai, 2017
Adveeta, Mumbai, 2017
Andrea, Sicily, 2017
Andrea, Sicily, 2017
Asma & Fatima, Dubai, 2018
Asma & Fatima, Dubai, 2018
Carolina, Los Angeles, 2016
Carolina, Los Angeles, 2016
Josh, Nice, 2017
Josh, Nice, 2017
Yusuf, Dubai, 2018
Yusuf, Dubai, 2018
Nona, Los Angeles, 2016
Nona, Los Angeles, 2016

Através delas, dá para perceber as peculiaridades preservadas em diferentes culturas e também a mesmice na alimentação infantil. “A globalização traz essa homogeneização. Estamos tão ocupados no dia a dia que nem pensamos direito no que estamos ingerindo. Quando você repara no que comeu durante uma semana e percebe que a sua rotina não é muito saudável, isso te atinge de uma maneira incômoda”, explica.

O projeto também consiste em registrar como a cultura de cada país aparece no prato dos garotos e garotas ao redor do mundo. Segundo ele, a motivação é mostrar a diferença entre comunidades que prezam pela alimentação livre de alimentos ultraprocessados e junk food — os grandes vilões associados à obesidade, hipertensão e diabetes.

Em lugares como Estados Unidos, onde o fast food é mais barato que comidas saudáveis, é comum as pessoas mais pobres terem uma alimentação pior. Ou seja, embaladas e cheias de conservantes. Inspiração para o projeto, um estudo de 2015 da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, revelou que entre os 10 países com dietas mais sadias, nove são da África. Nesses locais, as classes menos favorecidas têm mais acesso aos produtos frescos.


Industrializados que são vilões da alimentação infantil

  • Nescau: Achocolatados são praticamente açúcar e corante. O médico Gabriel Almeida sugere o preparo de uma opção mais saudável: fazer um achocolatado com nibs de cacau e adoçante (como xilitol).
  • Bebidas industrializadas (refrigerantes, sucos de caixinha): Têm em sua formação basicamente corante e açúcar. Segundo Gabriel, as crianças caem num ciclo vicioso e quanto mais tomam, mais vão sentir vontade de ingerir. Prefira opções naturais ou sucos industrializados sem açúcar. Outra dica é, desde cedo, não acostumar os pequenos a ingerir bebidas junto com a comida.
  • Salgadinhos e biscoitos recheados: Ricos em sódio, ingredientes transgênicos, glutamato, corantes, gordura e açúcar. Prefira sempre as opções mais naturais, caseiras. Os salgadinhos têm muito carboidrato. Ou seja, possuem alto índice glicêmico e, quando associados a corantes, aumentam a chance de disbiose (desequilíbrio da flora intestinal), o que aumenta risco de doenças. Também dá para fazer salgados caseiros assados, com massa de batata doce, por exemplo.
  • Embutidos (peito de peru, salsicha, mortadela, presunto, salame): Ricos em sódio, gorduras, conservantes, corantes, nitrato (responsável por deixá-los avermelhados) que é cancerígeno.
  • Doces (balas, chocolates, sorvetes): Possuem açúcar e corantes. O consumo pode aumentar a concentração de insulina e adrenalina no sangue, que em excesso provocam ansiedade, excitação e dificuldade de concentração nas crianças. O ideal é oferecer chocolates amargos (com 70% ou 90% de cacau).
  • Comidas prontas industrializadas (nuggets, hamburgueres, almondegas, lasanhas e etc): Ricas em sódio, espessantes, nitrato, gordura. Opte pelas opções caseiras sempre.
  • Leite em pó: Para o médico Gabriel Almeida esse não é o pior industrializado. Isso porque, como é um item mais focado nas crianças, geralmente não é adoçado. O problema é que tem vários aditivos e corantes que alteram a flora intestinal, o que favorece surgimento doenças, inclusive da obesidade.

Opções de industrializadas mais inteligentes

Polvilho integral, da Crek Crek: Esse biscoito de polvilho é uma boa opção para o lanche da criançada por ter pouco sódio e não ter gordura trans. Também não tem gordura hidrogenada e leite.

Purê de frutas, da Pic-Me: Ainda que o ideal seja ofertar a fruta in natura para a criança, esse purê de frutas não tem conservantes, aditivos químicos e nem açúcar.

Cookies integrais, da Jasmine Alimentos: Apesar de ser industrializado, o biscoito ele tem pouco sódio e gorduras saturadas e não tem gordura trans, conservantes e outros aditivos nocivos à saúde.

Biskui, da Bauducco: Esse biscoito não tem leite e nem gordura trans. Seu teor de sódio é baixo.

Leite fermentado, da Yakult: O produto aumenta a imunidade, ajuda no funcionamento intestinal, inibe a produção de novas toxinas, impede a multiplicação de bactérias que não fazem parte do organismo e contribui com a digestão.

Mel e cacau, da Belvita: Para as crianças que têm dificuldade de abrir mão da bolacha de chocolate, os biscoitos Belvita tem açúcar na composição, o que não é positivo, mas tem um sabor similar às bolachas de chocolate e é uma opção mais
saudável.

Iogurte grego, da Batavo: O produto tem mais proteína do que a maioria dos iogurtes.

Suco de uva, da Suvalan: Nem sempre dá para preparar um suco fresco para o filho, mas nem por isso é preciso colocar um néctar cheio de açúcar na lancheira. Essa opção, por exemplo, não ter adição de açúcar, conservantes e corantes. Também tem sabores como abacaxi e maçã. Outra marca interessante é a Fazenda da Toca, que tem selo de produto orgânico.

Barra de cereal com maçã e amêndoas, da Hart's Natural: À base de frutas e oleaginosas, o produto é rico em fibras, que ajudam a controlar a saciedade e o funcionamento do intestino, além de ter gorduras boas para a saúde do coração.

Cookies integrais cacau, da Kobber: O chocolate pode estar presente nos lanches, porém na forma de cacau, e não achocolatado. Além de ser integral, esse produto não tem gordura trans e é rico em fibras.

*Colaborou Vanessa Brunt


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