Copo de leite faz Haddad acusar Bolsonaro de ‘brindar supremacistas brancos’; entenda

em alta
30.05.2020, 21:15:00
Atualizado: 30.05.2020, 21:22:46
(Foto: Reprodução)

Copo de leite faz Haddad acusar Bolsonaro de ‘brindar supremacistas brancos’; entenda

Leite tem sido usado como símbolo por neonazistas nos EUA; petista enxergou provocação após repercussão de mortes de homens negros. Presidente nega

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Adversário derrotado por Jair Bolsonaro na corrida eleitoral de 2018, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad condenou um gesto do presidente da República que, na visão do petista, seria uma alusão a movimentos neonazistas, que adotaram o copo de leite como símbolo.

A acusação, feita no Twitter, relaciona a provocação, supostamente feita durante uma live na noite dessa sexta-feira (29), às grandes repercussões de assassinatos de homens negros, um no Brasil e outro nos EUA, ambos por forças policiais. 

“O menino João Pedro, baleado pelas costas; George Floyd, asfixiado. Bolsonaro tomando leitinho com Allan dos Santos para brindar supremacistas brancos. Sinto asco", escreveu o petista.

Após a repercussão, Bolsonaro se manifestou e classificou o comentário como fake news.

Reprodução/Facebook

A crítica de Haddad está baseada no fato de o movimento supremacista branco norte-americano e de outras parte do mundo ter adotado o leite como um símbolo.

Desafio do leite
Durante sua live transmitida na noite desta quinta-feira (29), Bolsonaro citou o Desafio do Leite, criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), como forma de incentivar o consumo e ajudar os produtores e a economia.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi a primeira a dar início ao desafio, ao lado do produtor e presidente da Abraleite, Geraldo Borges. Depois, desafiou Bolsonaro, que tomou o leite ao lado do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e do secretário de Agricultura e Pesca, Jorge Seif Júnior.

"Eu gosto e tomo leite de vez em quando. Tomo sempre, dia sim, dia não, tá certo? E vamos ajudar o consumo de leite no Brasil. Nada de consumir refrigerante", comentou Bolsonaro na ocasião.

'Entendedores entenderão'
Quando as suspeições foram levantadas por opositores de Bolsonaro, sobre o ato de tomar leite, o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, e o jornalista e membro do governo, Allan dos Santos, se manifestaram. 

O primeiro postou no Twitter uma foto dos atores Taís Araújo e Lázaro Ramos tomando leite, enquanto o segundo postou um vídeo, ele mesmo, bebendo um copo de leite durante uma live, logo após o desafio, e rindo, fazendo ainda o comentário de que “entendedores entenderão”. Um dos participantes da live ainda chega a citar "mensagem subliminar".

Assista.

Análise
O uso do leite como símbolo neonazista nos Estados Unidos ocorre, pelo menos, desde 2017. Começou como uma brincadeira, mas depois acabou virando de fato uso comum entre os supremacistas brancos. 

Neonazistas brindam com leite nos Estados Unidos (Foto: Reprodução/YouTube)

Especialista em Antropologia da Informática e Professor de Antropologia da Universidade da Virgínia (EUA), David Nemer fez uma série de tuítes comentando a suposta provocação feita por Bolsonaro e aliados. 

"As pessoas não tem entendido o pq que Bolsonaro tem tomado um copo de leite durante as lives dele. O que é um claro aceno e cumprimento aos grupos da extrema direita", inicia ele, destacando que a alegada apropriação da "Alt Right (extremistas brancos americanos)" ocorreria com um atraso de, pelo menos, dois anos.

"Nacionalistas brancos fazem manifestações bebendo leite para chamar a atenção para um traço genético conhecido por ser mais comum em pessoas brancas do que em outros - a capacidade de digerir lactose quando adultos. É uma tentativa racista para se embasar em 'ciência' p/ diferenciar e justificar a 'raça branca'. Mas como já provado e explicado por toda ciência: Não há evidência genética para apoiar qualquer ideologia racista", conclui Nemer.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas