Coronavírus: velhos hábitos que oferecem perigo de contaminação

bahia
29.07.2020, 05:00:00

Coronavírus: velhos hábitos que oferecem perigo de contaminação

Correr só na orla pode, mas bater perna na rua não é seguro; infectologista explica nível de risco

O que é seguro: comer acarajé no Rio Vermelho? Bater perna na Avenida Sete? Se reunir com a família para confraternizar? Subir a Colina Sagrada na sexta? Rodar o amalá para Xangô na quarta? Com a retomada das atividades na capital baiana se concretizando e o ‘#fiqueemcasa’ sendo cada vez menos posto em prática, os baianos estão se permitindo flexibilizar a quarentena e voltar a alguns hábitos.

 Antes de colocá-los em prática, é importante conhecer o perigo associado para se proteger corretamente e diminuir o risco de contaminação pelo  novo coronavírus. Algumas atividades externas possuem maior risco do que outras. Esse é o caso das atividades que geram aglomerações e precisam de contato com superfícies externas.  “Os hábitos de reunião deveriam ser os últimos a voltar. Colocar gente no mesmo ambiente fechado só tem menos perigo do que estar num show, onde  as pessoas ficam bem próximas”, explica Matheus Todt, infectologista da S.O.S. Vida.

 Ele cita também a lamentável rotina que, mesmo sem querer, o baiano é obrigado a ter: pegar ‘buzu’ lotado. “Como eu posso permitir que um ônibus sem ventilação circule cheio de pessoas próximas umas das outras com uma doença que se transmite por contato?”, questiona.  Todt argumenta que o transporte público deve funcionar o mais vazio possível e com higienização constante. 

O ambulante Emerson Almeida, 18, tem ficado atento: “Tenho usado mais o metrô para ir até o centro da cidade, onde trabalho. Às vezes, pego algum transporte lotado, mas não é sempre. Percebo que eles estão mais limpos”. 

Aglomeração não
Todt é contra a redução da frota do transporte público. “O argumento de reduzir o número de ônibus para as pessoas ficarem em casa não faz sentido. Se eu reduzo o transporte, é óbvio que vai aumentar a concentração de pessoas”, argumenta. Atualmente, circula em Salvador 70% da frota de ônibus, o equivalente a 1.514 veículos. 

Dentro das atividades com menos risco, o infectologista classifica aquelas que podem ser feitas individualmente, como correr na orla e até tomar banho de mar. “O problema é quando muitas pessoas fazem isso ao mesmo tempo”, diz. Em Salvador, ainda está proibido frequentar as praias. Exercícios no calçadão, no entanto, estão liberados. O ciclista Roberto Alves, 49, diz que pratica atividade física na orla diariamente. “Uso máscara e evito aglomerações”, afirma.  

Ir para a casa de veraneio é considerada uma atividade de baixo risco, desde que as pessoas que frequentem o imóvel sejam as mesmas que estavam na casa da cidade. A nutricionista Louise Tiúba, 32, que tem casa em Guarajuba, mantém o costume com segurança. Ela viaja apenas com o marido e o pai, com quem mora em Salvador. “Só voltaremos a receber amigos depois da vacina”, revela.  

Quem vai para o interior ver a família precisa saber que o risco é alto. “Todo deslocamento é perigoso nesse período pela possibilidade de levar o vírus e causar um surto”, explica o médico.  Durante a pandemia, o estudante Danilo Costa, 23, já fez duas vezes o deslocamento de Salvador para a pacata Ribeira do Amparo: “Como os meus estudos foram interrompidos, decidi ficar com a minha família, mas tive que voltar a Salvador para resolver coisas”. 

Deslocamento
Ribeira do Amparo possui 51 casos de covid-19 e 15 mil habitantes. Mesmo assim, Danilo confessa que tem quebrado o isolamento para confraternizar na casa de familiares ou receber em sua casa o barbeiro. Essas duas atividades, segundo o infectologista da S.O.S. Vida, possuem risco de moderado a alto. Para ele, quanto mais pessoas presentes maior o perigo.

O mesmo princípio é utilizado por Todt para argumentar que atividades comerciais não essenciais deveriam ser as últimas a voltar: “Seja no shopping ou na Avenida Sete, bater perna é ir em direção a um fluxo de pessoas e possíveis aglomerações, fora o perigo de colocar a mão num local contaminado e depois levá-la ao rosto”.

Ângela Féliz e seu esposo, o pastor Fernandilson (Foto: arquivo pessoal)

Outras atividades que já voltaram a funcionar em Salvador e possuem alto risco de contaminação são as de cunho religioso. Membro da Igreja Assembleia de Deus de Vila Canária, Ângela Félix, 53, continua frequentando o culto. Ela é esposa do pastor, que pegou covid, mas já está recuperado: “Para mim, ir para a igreja é a oportunidade de estar orando por  aqueles que estão passando por dificuldade nesse período”. 

No caso do candomblé, o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro, disse que somente as atividades essenciais estão mantidas no terreiro. “Toda quarta-feira rodamos o amalá para Xangô, mas agora utilizamos apenas de quatro a cinco membros da casa”, diz. 

Leonel continua fazendo as atividades essenciais do seu terreiro (Foto: aquivo pessoal)

Com a reabertura, Leonel disse que os terreiros estão se preparando para ampliar a quantidade de presentes em suas atividades, mas com as devidas medidas de segurança. “Pensamos que as pessoas devem, por exemplo, passar álcool em gel antes e depois de tocar no amalá”, disse Leonel. Para o infectologista, quanto maior a quantidade de pessoas na prática, maior o risco. “Quanto mais pessoas presentes, aumenta a possibilidade de ter alguém contaminado e assim aumenta o risco de contaminação”, disse Matheus Todt.  

Confira a lista completa de todos os hábitos e perigo associado, segundo o infectologista Matheus Todt, infectologista da S.O.S. Vida:   

Pegar o ‘buzu’ lotado 
Risco:
muito alto 
Motivo: se uma doença se transmite por contato, como permitir que um ônibus sem ventilação adequada circule cheio de pessoas próximas umas das outras? 

Comer acarajé no Rio Vermelho. 
Risco:
alto  
Motivo: qualquer local que reúne pessoas comendo (sem máscaras)  é um local de risco, pois tem contato entre as pessoas. 

Bater perna na Avenida Sete 
Risco:
alto 
Motivo: tem o perigo da aglomeração, fora o risco de colocar a mão num local contaminado e depois levá-la ao rosto 

Fazer compras no shopping  
Risco:
alto  
Motivo: não é tão fácil manter o controle de distanciamento e higienização nos grandes centros comerciais.   

Fazer compras na Feira de São Joaquim  
Risco:
alto 
Motivo: Uma feira aberta precisa ter uma estrutura que garanta a quantidade limitada de pessoas e, mesmo assim, tem que ter cuidados na manipulação de mercadorias. As feiras e mercados abertos são atividades prioritárias, mas são locais perigosos, de risco elevado. É preciso usar máscara, álcool em gel antes e depois de manipular os objetos e reduzir a quantidade de pessoas no local.  

Ir para o interior ver a família  
Risco:
alto 
Motivo: toda vez que há deslocamento é possível levar o vírus para o local de destino. É por isso que as viagens foram interrompidas logo no início, pelo perigo de levar o vírus para um local que não tem. O deslocamento tem que ser o absolutamente necessário, tanto o de ir pro interior, como o de voltar para a capital.  

Ir no culto ou missa dia de domingo 
Risco:
 alto  
Motivo: colocar pessoas no mesmo ambiente só é menos perigoso do que um show, em que as pessoas ficam mais próximas ainda.  

Rodar e arriar o amalá toda quarta-feira para Xangô 
Risco:
alto 
Motivo:  quanto mais pessoas presentes, aumenta a possibilidade de ter alguém contaminado e assim aumenta o risco de contaminação 

Fazer farra na casa dos amigos ou familiares 
Risco:
de moderado a alto.  
Motivo: é perigoso, pois é difícil controlar medidas de distanciamento num local onde as pessoas conversam e bebem.  Quanto maior a quantidade de pessoas na confraternização, mais elevado é o risco 

Se reunir com a galera para assistir aos jogos de Bahia e Vitória 
Risco:
de moderado a alto.  
Motivo: se essa reunião for na rua, com poucas pessoas presentes e todos distanciados, o perigo cai. Quanto maior o espaço e o distanciamento, menor o risco. O problema é conseguir manter as medidas de segurança.  

Ir ao salão de beleza ou barbearia  
Risco:
moderado 
Motivo: risco próximo ao de ir em um consultório médico. A pessoa vai ser atendida por alguém de máscara. Assim que ela sair, higieniza a superfície e evita que o cliente entre em contato com as superfícies. 

Subir a Colina Sagrada na sexta-feira 
Risco:
moderado 
Motivo: se a pessoa não entrar na igreja, fizer sua oração do lado de fora, sem aglomeração de pessoas, melhor. O risco vai aumentando a depender da quantidade de pessoas presentes.  

Correr na orla:  
Risco: baixo 
Motivo: se não há aglomeração de pessoas na atividade física, existe uma relativa segurança, pois é um ambiente aberto. Se as pessoas usarem máscara e respeitarem a distância, não haverá problemas.  

Dar um mergulho no Porto da Barra 
Risco:
baixo 
Motivo: Não há registro de transmissão do coronavírus pela água. Se for dar um mergulho, sozinho, há segurança. Mas se aglomerar, o risco fica muito alto, as pessoas vão se contaminar mesmo com a máscara. É preciso lembrar, porém, que as praias continuam interditadas e serão analisadas em um protocolo à parte. 

Ir para a casa de praia  
Risco:
baixo. 
Motivo: se uma família está indo para uma casa própria, de veraneio, sem a chegada de nenhuma pessoa, está tudo bem. O problema é se for uma casa de aluguel, onde outras famílias já passaram. Aí tem que ter o cuidado com a higienização do espaço, pois não se sabe as condições da família que deixou o local.

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas