Crise do coronavírus reduz preços do algodão e soja

bahia
11.03.2020, 05:20:00
Crise do coronavírus reduz preços do algodão e soja (AIBA / ABAPA)

Crise do coronavírus reduz preços do algodão e soja

Agropecuária baiana demonstra cautela em momento de retração da economia mundial

A crise na economia mundial provocada pelo avanço do coronavírus e agravada por uma disputa entre produtores mundiais de petróleo apresenta, até o momento, sintomas leves no agronegócio baiano. Apesar de enfrentarem oscilações bruscas na cotação do dólar e de a queda na demanda externa já se refletir no preço de produtos como a soja e o algodão, o clima é de cautela. No caso do algodão baiano, a redução no preço médio do produto chegou a 22%, na comparação com os preços de mercado há um ano. 

Quem vive do campo sabe que as mudanças, muitas vezes repentinas no cenário, são uma das poucas certezas, diz o produtor rural Júlio César Busato, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ele conta que o maior desafio de momentos como o atual é o de conviver com mudanças repentinas no cenário. 

A crise na economia mundial provocada pelo avanço do coronavírus e agravada por uma disputa entre produtores mundiais de petróleo apresenta, até o momento, sintomas leves no agronegócio baiano. Apesar de enfrentarem oscilações bruscas na cotação do dólar e de a queda na demanda externa já se refletir no preço de produtos como a soja e o algodão, o clima é de cautela. No caso do algodão baiano, a redução no preço médio do produto chegou a 22%, na comparação com os preços de mercado há um ano. 

Quem vive do campo sabe que as mudanças, muitas vezes repentinas no cenário, são uma das poucas certezas, diz o produtor rural Júlio César Busato, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ele conta que o maior desafio de momentos como o atual é o de conviver com mudanças repentinas no cenário. 

“A volatilidade é um problema muito grave, porque você assume um compromisso contando com o dólar a R$ 4,60 e no dia seguinte ele está a R$ 4,80. Isso é muito ruim, mas é a realidade que estamos vivendo no mundo neste momento”, diz. 

Outro problema é que a retração na economia global se reflete numa queda na demanda por produtos agrícolas, diz Busato. Ele lembra que há um ano, o algodão estava cotado a US$ 0,82 por libra peso e hoje o produto está cotado por US$ 0,64, enquanto a soja estava por US$ 9,80 o bushel e agora a mesma quantidade do produto é encontrada por aproximadamente US$ 8. “Os mercados realmente desabaram”, lamenta. 

Busato acredita que a queda nas bolsas mundiais e a alta do dólar na última segunda-feira foram o “fundo do poço” da crise atual. “Foi transferida para a realidade econômica um problema de saúde pública. As pessoas podem ter passado a comprar menos, os mercados diminuíram as demandas por produtos, mas não na proporção que aconteceu. Tem muito de efeito manada. Torcemos para que as coisas se estabilizem. Já houve perdas, não tem mais jeito, vamos trabalhar com preços abaixo do que estávamos antes do coronavírus e teremos que conviver com isso”, avalia. 

Ele acredita que o impacto imediato para os produtores de soja e algodão não é muito grande porque as vendas são em dólares e os principais insumos também são comprados em dólar. A diferença fica por conta dos insumos comprados no mercado nacional, de 35% no caso do algodão e de 25% na produção da soja. 

No último mês, as compras de insumos agrícolas da China caiu 28% entre os produtores brasileiros, apontou um relatório do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro). O pesquisador Felippe Serigati disse, numa entrevista ao Canal Rural, que o resultado poderia ser explicado tanto como uma resposta rápida à alta do dólar, que encarece os insumos, quanto pelos problemas na logística.

Os preços das commodities recuaram no mês passado pressionados pelas incertezas sobre a economia mundial. O coronavírus pesou, mas Serigati diz que a doença não foi a principal responsável. “É como um caminhão passando em cima de uma ponte. Ela tremeu, mas isso mostra que a ponte já estava frágil”, diz.

O pesquisador afirma que agora é preciso torcer para que as altas no dólar continuem compensando o preço em real e para que a baixa do petróleo se traduza em custos logísticos menores.

Cautela
O presidente da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda Oliveira, acredita que o momento atual requer cautela. “Este é um momento que requer tranquilidade. Temos que observar o que está acontecendo nas bolsas, essas disputas internacionais, como essa do petróleo”, diz. “Cautela é o melhor caminho, até porque há observadores internacionais que veem neste momento muita especulação”, lembra. 

Segundo ele, não houve nenhum reflexo mais significativo na agropecuária baiana. Humberto Miranda acredita que esses efeitos podem acontecer no caso de uma alta mais duradoura do dólar no patamar atual, ou do barril de petróleo. “Se o cenário atual persistir por muito tempo, pode interferir em nossos custos de produção, porque o Brasil importa insumos importantes para a fabricação de defensivos e adubos. Em compensação, as exportações, que são feitas em dólar, acabam por ter um ganho”, compara. “Acabamos tendo um efeito compensatório”, diz.  

O presidente da Faeb diz que as perspectivas para a atividade, até agora, são boas. “Existe uma possibilidade de crescimento da colheita de grãos. Este é número muito positivo. Não podemos entrar na onda especulativa do comércio internacional”, diz. Ele cita os dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 

“As coisas continuam acontecendo, o agricultor continua produzindo sem nenhum reflexo até o momento”, destaca. Segundo ele, na safra atual, as chuvas este ano aconteceram nos momentos corretos e bem distribuídas. “Nós esperamos resultados positivos para os grãos, mas também para o café, cacau, que enfrentou secas no passado. Então as expectativas são muito boas”, afirma. 

Safra
O LSPA estimou a produção baiana de cereais, oleaginosas e leguminosas para este ano em torno de 8,8 milhões de toneladas, o que representa uma expansão de 6,1% na comparação com 2019. Em relação à área plantada, o IBGE projeta avanço de 0,4% na comparação anual, registrando uma extensão de cerca de 3,1 milhões de hectares.

As projeções indicam uma produção de mandioca de 963 mil toneladas, mantendo-se estável em relação à safra passada. A safra do cacau, por sua vez, está estimada em 110 mil toneladas, correspondendo a uma alta de 4,8% na comparação com a anterior. O algodão teve sua produção projetada em 1,5 milhão de toneladas, representando uma alta de 1,7%, em relação à safra anterior. A área plantada de 350 mil hectares corresponde a uma expansão de 5,4% na mesma base de comparação. 

A estimativa para a safra de milho ficou em 1,9 milhão de toneladas, em 593,5 mil hectares plantados, representando uma retração de 14,8% em relação a 2019. A primeira safra do cereal pode atingir 1,5 milhão de toneladas, em 363,5 mil hectares. Por sua vez, a expectativa para a segunda safra da lavoura é de 359 mil toneladas plantadas em 230 mil hectares.

A produção de soja, por sua vez, teve sua estimativa revista para 5,5 milhões de toneladas, em área plantada de 1,6 milhão de hectares, o que resultado numa expansão de 4,0% em comparação com o volume produzido na safra anterior. Para a lavoura da cana-de-açúcar, o IBGE estima uma produção de 4,0 milhões de toneladas, o que indica uma retração de 3,9% em relação à colheita anterior.

A previsão para o feijão alcançou 321 mil toneladas, superando em 10,7% a produção de 2019. A área plantada estimada totaliza 456 mil hectares. Prevê-se que a produção da primeira safra alcance 137,3 mil toneladas, numa área de 246 mil hectares. A produção de segunda safra está estimada em 184,2 mil toneladas, numa área de 210 mil hectares.

A expectativa para a produção total de café este ano ficou estável em 181 mil toneladas. A safra do tipo arábica está projetada em 74,3 mil toneladas, o que representa uma variação anual de 2,6%. A safra do conilon está estimada em 106,6 mil toneladas, correspondendo a um recuo de 1,4%, na comparação com 2019.

Indústria florestal
A indústria baiana de base florestal, que inclui a produção de papel e celulose, tem se destacado na balança externa da Bahia nos últimos anos, sempre entre os principais produtos de exportação, lembra o empresário e economista Wilson Andrade, que é o diretor executivo da Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf). “O peso das exportações é grande e o câmbio valorizado teoricamente favorece quem exporta. O problema é que os movimentos bruscos não são saudáveis. O que aconteceu ontem (segunda-feira) não foi bom para ninguém”, lembra. 

Segundo ele, a possibilidade do cenário atual perdurar é motivo de preocupação porque compromete receitas de regiões dependentes do petróleo e podem até gerar um “clima de intranquilidade política” no país. A sorte, complementa, é que não há nenhum sinal de que este cenário é duradouro. “É difícil avaliar por quanto tempo vai durar. Não vivemos um momento agradável, mas o que força muito essa situação são as especulações”, diz. 

Wilson Andrade acredita que o cenário atual de retração nas demandas de commodities ainda não pode ser considerado fato consumado para o ano. “Se permanecer assim, todo mundo perde. Mas não temos ainda argumentos para dizer que vai permanecer assim. Pode ter um agravamento, esperamos que não”, destaca. 


Cinco efeitos no agronegócio 

Câmbio 
Com o avanço do coronavírus, a expectativa é que o dólar continue subindo. De acordo com a Necton Investimentos, a expectativa é que a moeda norte-americana chegue aos R$ 5 em algum momento. “E o Banco Central pode fazer muito pouco neste momento”, diz o economista-chefe da empresa, André Perfeito.

Retração  
Além da retração que acontece como efeito do surto do coronavírus, a economia brasileira pode ser impacta negativamente pela grande retração nos preços do barril de petróleo, porque os preços mais baixos inviabilizam investimentos no setor. O aspecto positivo é que a queda pode reduzir preços de combustíveis

Importação  
Além do avanço do coronavírus prejudicar a produção de defensivos e insumos agrícolas, principalmente na China, a alta do dólar torna os produtos adquiridos no exterior mais caros para os produtores brasileiros. Em fevereiro, o consumo de produtos do tipo já caiu

Preços  
Com a redução da demanda pelas commodities agrícolas, o cenário externo é de depressão nos preços, o que pode comprometer os valores da safra 2020/2021. A recomendação de especialistas é tentar travar preços para garantir ganhos mínimos

Insumos 
Os preços internacionais do petróleo recuaram e podem cair ainda mais com o avanço do coronavírus pelo mundo, segundo a MacroSector Consultores. É esperado que insumos e outras commodities se desvalorizem. Pode ser um bom momento para a aquisição de máquinas e outros produtos


Bolsa fecha com maior alta desde 2008

(CORREIO Gráficos)

Ontem foi um dia de alta para o Ibovespa após o mergulho do dia anterior, quando o índice de referência da B3 havia registrado sua maior perda (-12,17%) desde 10 de setembro de 1998. A alta de 7,14% foi o maior avanço desde 8 de dezembro de 2008 (+8,31%), quando o então presidente eleito dos EUA Barack Obama anunciava um pacote de investimentos em infraestrutura, em reação à crise americana, tornada global.

Em mais um dia movimentado, o giro financeiro totalizou R$ 40,0 bilhões na sessão, após ter chegado a R$ 43,9 bilhões na segunda-feira, o maior do período pós-carnaval. No ano, o Ibovespa perdeu 20,26%; no mês, 11,48%; e na semana, 5,90%. Aos 92.214,47 pontos no fechamento de ontem, o Ibovespa retomou nível observado em maio do ano passado, quando o índice fechou aos 91.946,19 e, no dia seguinte, aos 94.484,63 pontos.

Os ganhos em São Paulo se acentuaram por volta das 16 horas, após a mídia americana anunciar uma reunião entre o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Após o encontro, Mnuchin disse haver entendimentos entre republicanos e democratas sobre resposta econômica ao coronavírus, sem dar detalhes adicionais. Em encontro com senadores republicanos, o presidente Donald Trump teria sinalizado que pretende desonerar a folha de pagamentos.

O mercado de câmbio também teve um dia marcado por ajustes e a realização de ganhos após a disparada do dólar. A moeda norte-americana fechou em queda de 1,63%, a maior desde 4 de setembro de 2019, aos R$ 4,6472. O real acompanhou o comportamento de outras moedas de emergentes, que ganharam valor perante a divisa dos Estados Unidos.  Um novo leilão de US$ 2 bilhões de dólares no mercado à vista pelo Banco Central também contribuiu para a queda do dólar, de acordo com operadores. Nos últimos dois dias, o BC colocou US$ 5,5 bilhões em dinheiro novo no mercado de câmbio. 


Bolsonaro minimiza impactos de doença
Um dia depois de os mercados financeiros ao redor do mundo registrarem perdas históricas, o presidente da República, Jair Bolsonaro, negou ontem que haja uma crise, culpou a imprensa pela situação e disse que “muito do que falam é fantasia”. “Muito do que tem ali é muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”, disse Bolsonaro em evento em Miami. 

Na segunda-feira, 9, ele já havia dito que a disseminação da doença estava “superdimensionada”. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também tem minimizado o coronavírus. Segundo fontes presentes ao jantar entre Trump e Bolsonaro em Mar-a-Lago no sábado, os dois conversaram sobre a disseminação do vírus e estimaram que até o final de abril haverá uma melhora na situação.

Ainda ontem, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado aprovou convite para que o ministro da Economia, Paulo Guedes, apresente as medidas que o governo federal deve adotar para conter os impactos da crise internacional do petróleo e do coronavírus. 

Integrantes do Legislativo cobram a adoção de medidas para conter os impactos da epidemia na economia.

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