Crônica: Se Salvador fosse verbo, seria sextar

salvador
29.03.2021, 18:00:00
Mãe Marta e a roupa branca na sexta-feira (Paula Fróes)

Crônica: Se Salvador fosse verbo, seria sextar

Sabia que nosso hábito de vestir branco vem dos muçulmanos?

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Sextar. Se o neologismo fosse um verbo, seria intransitivo. Não requer complemento, como uma sexta-feira. Se basta, como Salvador.

É a euforia profana do século XXI, afinada com a cidade que, dizendo o Google, já nasceu sextando em 29 de março de 1549. 

É também a tradição sagrada, esplendor de uma religiosidade que se reforça na mistura de uma Salvador que não anda só. 

Que vai (ia, rima de pandemia) à Igreja do Bonfim vestindo branco às sextas-feiras num gesto que, de tão arraigado, esconde rico ato ecumênico. Três religiões: catolicismo, candomblé e islamismo. Afinal, se Maomé não vai à colina, a colina vai a Maomé. 

Pode soar estranho, mas é verdade. O hábito de vestir branco às sextas-feiras chegou a este lado do Atlântico inicialmente com os malês, negros muçulmanos que vieram da África (majoritariamente da Nigéria e do Benin) para cá na condição de escravizados. Os mesmos malês protagonistas da Revolta de 1835 e que acabaram reverenciados no nome do bloco afro fundado em Itapuã em 1979. Eles costumavam usar roupas brancas às sextas porque tal dia da semana é considerado sagrado no Islã. 

Por aqui, embora a presença muçulmana tenha se tornado numericamente ínfima com o avançar dos anos, a tradição foi mantida através  dos iniciados no candomblé - que, ao contrário do islamismo, manteve sua presença na cidade. É agora que entra a parte da história sabida pela maioria. Na religião de matriz africana, a sexta-feira é dedicada a Oxalá, orixá associado à cor branca. 

Já para os católicos, trata-se de um dia especial em razão da memória à Sexta-feira da Paixão. Por isso a igreja mais conhecida da Bahia é particularmente mais frequentada às sextas. Para quem não sabe ou não lembra, convém reforçar que o Senhor do Bonfim não é um santo, e sim a imagem de Jesus Cristo crucificado. 

Juntando a contribuição de cada fé, uma simples ida ao Bonfim vestindo branco na última sexta do mês é muito mais complexa do que parece. É essa herança o diferencial capaz de deixar a sexta-feira tão peculiar em Salvador. Não é exatamente sobre religião; é muito mais sobre cultura. Uma cultura da convivência, da harmonia, do respeito.

Hoje, o aniversário de 472 anos caiu em uma segunda-feira, a antítese do sextar. É isso mesmo, tudo tem seu tempo. Neste em que um abraço e um beijo podem custar uma vida, a segunda vem a calhar.

E qual a lógica então de uma crônica sobre a sexta-feira para dar os parabéns? A rigor não tem, mas já que chegamos até aqui, podemos fazer três pedidos. Profanando a tradição, vou contar pelo menos um deles: que Salvador logo esteja de volta à plenitude de uma sexta!

Feliz aniversário, cidade-mãe. De um filho orgulhoso desta terra.


O Aniversário de Salvador é uma realização do jornal Correio com o patrocínio da Wilson Sons, Jotagê e CF Refrigeração e o apoio da Sotero, Salvador Shopping, Salvador Norte Shopping, JVF e AJL.

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