Curtir séries e músicas pode ser diferencial na prova de Língua Estrangeira do Enem

enem
15.09.2021, 06:00:00

Curtir séries e músicas pode ser diferencial na prova de Língua Estrangeira do Enem

Professores falam como o áudio e o audiovisual são importantes para enriquecer o vocabulário

"Larga essa Netflix" ou "Para de ouvir tanta música nesse Spotify" são frases comuns entre pais e responsáveis que se preocupam com a possibilidade dos jovens estarem jogando tempo fora enquanto assistem La Casa de Papel ou escutam o álbum da cantora norte-americana Olivia Rodrigo. O que eles, muitas vezes, não consideram é que as ondas sonoras da música 'Good 4 u' e as falas do professor da série espanhola podem agregar no processo de estudo de quem está prestes a fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Quem diz isso são os próprios professores, que veem os streamings de músicas, séries e filmes como ferramentas extracurriculares fundamentais para a construção de um vocabulário em língua estrangeira.

"Ter uma afinidade prévia com o idioma é fundamental. E essa afinidade não está relacionada só ao estudo formal. Se o estudante assiste séries, consome música ou mantém vínculo com alguém que fale o idioma escolhido, isso o aproxima de um desempenho melhor", explica Danilo Santiago, professor de espanhol. Para ele, os momentos em que um jovem se coloca em frente à televisão ou escuta suas músicas favoritas no fone de ouvido em língua estrangeira - quando há um contato com o áudio original e uma busca pelo entendimento das falas e dos versos - não são tempo perdido. Pelo contrário, podem ser considerados até como um "ócio produtivo".

Relação com a língua estrangeira
A análise do professor é mais que uma boa notícia para muitos jovens que têm uma relação próxima com a língua estrangeira que escolheram para o exame. A estudante Anne Ribeiro, 19 anos, por exemplo, optou pelo inglês por se sentir mais segura na língua devido ao contato que tem com conteúdos no idioma. "Eu acredito que é mais fácil você tentar em inglês porque tem muita cultura de língua inglesa aqui. A própria Netflix traz muito conteúdo dos EUA, do Canadá e da Inglaterra. E lá tem muita opção de ouvir em inglês e ler em português ou ao contrário. Isso ajuda demais", conta ela. 

Para Júlia Maia, 18, a situação é a mesma. O inglês é mais presente em sua vida de maneira geral e isso a deixa mais confortável para optar por ele na parte de língua estrangeira. "É uma lingua que tenho muito mais facilidade não só por aulas, mas principalmente por conta do tipo de mídia que tenho consumido, que é majoritariamente de origem inglesa/americana", declara a estudante, que quer cursar psicologia.

Júlia optou por inglês por estar mais próxima da língua (Foto: Acervo Pessoal)

No entanto, nem todo mundo está escolhendo a língua pela afinidade. Ingrid Oliveira, 19, vai fazer a prova de espanhol por achar que a língua é "mais parecida" com o português e, por isso, poderia impor menos dificuldades. "Eu escolhi espanhol porque é mais fácil se eu precisar chutar, só isso mesmo. Porque muitas palavras se parecem com o português e, pelo contexto, posso deduzir mais fácil caso não saiba o que significa. Acho que a prova de idiomas não é o maior dos meus problemas", declara a estudante. 

Como escolher?
Sobre as falas de Ingrid, Santiago diz que essa crença é equivocada e a semelhança entre algumas palavras pode confundir os estudantes, colocando-os mais perto do erro do que do acerto. "Como professor de espanhol, tento desmistificar que é igual ao português porque alunos escolhem essa língua pela crença que tem muita coisa igual e não é assim. Óbvio que vai ser menos complicado se adaptar ao espanhol caso não exista domínio em nenhuma das línguas. No entanto, não é igual e os falsos cognatos estão aí pra mostrar isso pra eles da pior forma no exame", alerta o professor. Veja abaixo lista com alguns falsos cognatos.

Tanto Santiago como outros professores destacam a proximidade com a língua como principal critério para a escolha. Cláudia Santos, professora de inglês do campus Seabra do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifba), ratifica isso. "Considerar a proximidade com a língua é um caminho interessante. Na educação brasileira, os estudantes têm mais contato com a língua inglesa. Tem uma força maior, mas o espanhol não deixa de ter força por isso. A escolha vai depender do desejo do estudante, da língua em que ele tem mais segurança e pode ter um desempenho melhor", indica. 

Ferramentas externas de aprendizado
Ainda de acordo com Cláudia, essa proximidade é forjada também no consumo de conteúdo externo à sala de aula, que ajuda na preparação para o exame. "Tudo que você fizer para estudar é bem-vindo. Quanto mais o estudante se aproxima de conteúdo em língua estrangeira, melhor fica o vocabulário dele ou dela. O Enem avalia leitura e escrita, falar e ouvir não estão entre as habilidades que serão verificadas ali. Porém, tudo que você tiver acesso na língua vai te colocar mais perto de uma compreensão mais completa do idioma e ajuda", salienta a professora. 

Cláudia entende que ferramentas extracurriculares podem ser essencias no aprendizado (Foto: Acervo Pessoal)

Quem também concorda com as falas da professora é Lafayete Rios, professor de espanhol do Ifba no Campus Jequié. "A prova trabalha com diversos gêneros textuais como música, charge, poemas e outros. Por isso, a imersão do aluno na língua é de extrema importância para a familiaridade dele com as questões. E existem várias ferramentas que auxiliam neste processo. Aplicativos de música e streaming de séries são exemplos. Agora, tem que fazer sempre anotando, pesquisando e procurando entender de verdade, como falo para os meus alunos", diz Rios. 

Faz diferença
É isso que Júlia sempre procura fazer quando está em contato com esse tipo de conteúdo. Ela não deixa de verificar palavras que desconhece e possam causar problemas lá na frente. "Eu consumo filmes, livros, séries e notícias. Estou sempre procurando ampliar meu vocabulário em línguas estrangeiras, e quando me deparo com palavras que desconheço, apesar de usualmente ser fácil inferir o significado por conta do texto, gosto de saber exatamente o que significa, sinônimos e etc", afirma. 

Anne, que quer fazer Jornalismo, não fica só nas músicas, filmes e séries. Ela também corre atrás de informações na língua inglesa para aprimorar ainda mais seu domínio do idioma. "Não só Netflix, uso outras ferramentas também porque a internet me possibilita isso. Escuto música, pego as letras e estudo. Abro os sites de jornais como The New York Times e The Guardian, que sempre caem na prova. E, por último, uso um software em que você pode criar as suas próprias fichas de perguntas e respostas para ajudar na melhora do seu vocabulário. Vou respondendo as questões que eu criei e ajuda muito", conta ela, que até já foi aprovada no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA) no segundo semestre, mas vai fazer novamente a prova. 

Valor da leitura
As nem tão novas ferramentas são, claro, formas importantes de consolidar o aprendizado como os profissionais de educação já indicaram. No entanto, eles não deixam de ressaltar que tem uma velha prática continua fundamental neste processo: a leitura. Marcos Dorian Sá, professor de Inglês do Ensino Médio do Villa Global Education, indica que o estudante que quer um bom desempenho precisa ler as mais diversas formas textuais para conseguir dominar com facilidade os textos propostos. "Pra isso, ele precisa de três coisas fundamentais: ler com eficiência em pouco tempo, ter um vocabulário que o permite entender como as palavras podem se encaixar de maneira diferente através do contexto e possuir a habilidade de saber o tema do texto através do título e conseguir buscar as informações específicas. Tudo isso só dá pra desenvolver através de prática", afirma Sá.

O professor ainda dá dicas de como encarar as questões de língua estrangeira no exame. "Uma dica que sempre dou é separar o texto em parágrafos e dar, pelo menos, três palavras-chave para cada parágrafo desse. É uma boa alternativa porque eles não vão perder o tempo, que é precioso na prova, para ler o texto mais de uma vez. Vão ler e, através dessa técnica, saberão onde encontrar cada resposta. A outra dica é inverter o processo: ler e compreender bem a pergunta para, depois, ir ao texto já sabendo o que busca", orienta. 

Rios corrobora com as afirmações do professor de inglês e faz questão de acrescentar que o ideal é diversificar a leitura que é praticada em língua estrangeira. "Leitura é base de tudo. Se você tem essa prática, vai conseguir interpretar e escrever bem. Hoje, não existe mais uma cobrança gramatical. É, basicamente, interpretação. Então, fazer essa prática em diversos gêneros textuais aumenta o contato e sua capacidade de assimilar o que for colocado de forma mais ágil possível, que é importante no Enem", conclui. 

Glossário do CORREIO

Com ajuda dos professores entrevistados para esta matéria, a reportagem construiu um glossário com os famosos falsos cognatos - palavras em outras línguas que são semelhantes a da língua portuguesa, mas têm significado diferente -, e seus verdadeiros significados:

Espanhol:

Apellido = sobrenome 
Sobrenombre = apelido 
Taza = xícara 
Vaso = copo 
Copa = taça 
Escritorio = escrivaninha 
Oficina = escritório 
Taller = oficina 
Cubierto = talher 
Embarazada = grávida 
Borracha = bêbada 
Rojo = vermelho 
Cachorro = filhote 
Zurdo = canhoto 
Prejuicio = preconceito

Inglês:

Push = empurrar
Novel = romance
Application = inscrição
Parents = pais
Fabric = tecido
Data = dados
Realize = perceber
Mayor = prefeito
Baton = cacetete
College = faculdade
Lecture = palestra
Pasta = massa
Devolve = transferir
Pretend = fingir
Lunch = almoço

Canal reúne todos os simulados e videoaulas

O Revisão Enem é um projeto multiplataforma - impresso, digital e redes sociais - do CORREIO em parceria com o SAS, plataforma de educação, com o objetivo de auxiliar os estudantes no preparo para as provas.

O projeto traz conteúdos especiais com reportagens, artigos, dicas para a redação e de livros, filmes e séries que têm relação com o exame; além de estratégias de resolução de questões. Há também um canal especial que reúne todos os simulados e videoaulas para os alunos.

O Enem exige uma rotina intensa de estudos. Por isso, o CORREIO disponibiliza uma série de simulados interativos, com questões objetivas para os estudantes testarem os seus conhecimentos. Os alunos podem acompanhar semanalmente a resolução das questões, conferir os gabaritos e analisar seu desempenho, além de revisitar as questões no dia e na hora que quiserem.

Nas redes sociais (@correio24horas), o jornal traz conteúdos nos grupos de leitores do Whatsapp e vídeos no Instagram/IGTV com dicas sobre como fazer a redação dentro das competências avaliadas no Enem; e também o Raio-X do ENEM, que tira dúvidas de cada disciplina.

Conteúdos da 7ª semana já estão disponíveis:

- Simulado

- Vídeo aula 

- Vídeo direto ao ponto

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas