De Darwin a Balotelli, os nove rolés mais aleatórios de gringos famosos pela Bahia

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01.09.2019, 06:30:00
Atualizado: 01.09.2019, 18:41:54

De Darwin a Balotelli, os nove rolés mais aleatórios de gringos famosos pela Bahia

Sartre e Simone de Beauvoir visitaram Feira, McCartney denunciou crime ambiental no Dique e Sinatra foi vaiado em Itaparica

As vogais, por aqui, são ditas quase sempre mais abertas. Isso explica o porquê daquele convite para um passeio ameno, um giro despreocupado, ser chamado de “rolé”. Há algum tempo, sobretudo entre os baianos mais novos, virou coqueluche chamar de “rolê”, ao modo paulista. Esta grave denúncia já seria suficiente para encerrar esta coluna por hoje.

No entanto, ainda temos mais um cadinho a dizer. Nessa Bahia de nossos deuses, algumas das personalidades mais famosas dos últimos cinco séculos estiveram por aqui. Santos, cientistas, ativistas sociais, intelectuais, lendas esportivas, revolucionários e prêmios Nobel.

Na ocasião dos 40 aniversários deste mesmo CORREIO, a jornalista Doris Miranda fez um preciso levantamento relembrando onze personalidades ilustres que visitaram Salvador. Pessoas do quilate de: João Paulo II, Nelson Mandela, Paul McCartney, Bono Vox, Madre Teresa de Calcutá e Michael Jackson.

O que nos interessa, contudo, são os rolés aleatórios. Ou seja, grandes personalidades mundiais que estiveram na Bahia em situações inusitadas, cerimônias excêntricas ou simplesmente em festa estranha com gente esquisita.

Em tempo: nada mais Bahia que começar reclamando de provincianismo com imitações linguísticas e terminar exaltando gringos famosos.

Segue a lista.

1 – Darwin foi sacaneado pelos avós das Muquiranas

O pai da teoria que revolucionou a ciência e o entendimento da adaptação das espécies esteve no Carnaval de Salvador com recém-completados 23 anos. Charles Darwin (1809-1882) viaja a bordo no navio Beagle para conhecer a fauna e a flora das Américas. Tudo que via anotava em seu minucioso diário de bordo. Ele chegou a Salvador em 28 de fevereiro e ficou aqui até 18 de março. O ano era de 1832.

No livrinho, Darwin relata o quanto ficou espantado com a beleza da vegetação e escandalizado com a escravidão negra. Numa das passagens mais divertidas narra sua experiência amuada no Carnaval de Salvador, em 4 de março.

O cientista britânico Charles Darwin (Imagem: Reprodução)

Inglês, ele foi alvo preferencial de uma brincadeira famosa por aqui durante a folia. Os homens, fantasiados, tacavam bolas de cera, seringas e latas repletas de água e farinha em quem viam pela frente. Mulheres e gringos eram os alvos preferenciais da malta. Darwin não se mostrou adaptado à brincadeira e saiu encharcado, além de puto da vida.

Curioso notar que estes foliões, lá em 1832, podem ser considerados os avós do bloco As Muquiranas, tanto na fantasia quanto no costume de molhar as pessoas durante o trajeto da festa.

2 – Almodóvar almoçou com Anitta na Ilha dos Frades   

Agora damos um salto no tempo para contar que o cineasta vencedor de dois Oscars, o espanhol Pedro Almodóvar, esteve aqui em Salvador num rolé super aleatório no verão de 2016. Por convite do amigo Caetano, ele passeou no Farol da Barra, visitou a Cidade Baixa e, lá pelas tantas, pegou um barquinho e foi conhecer a praia do Loreto, na Ilha dos Frades.

O mais curioso nesta história foi sua companhia: a dançarina carioca Anitta. Não se sabe exatamente se a funkeira é cinéfila de carteirinha, mas a última vez que ela opinou sobre a sétima arte foi massacrada pelos fãs por revelar cenas do filme “Vingadores: Guerra Infinita”.

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar (à esq.) e seu bonde baiano na praia (Foto: Reprodução/Instagram)

Na ilha dos Frades, Anitta e Almodóvar se lambuzaram numa moqueca de dendê do restaurante da Preta e depois curtiram as águas mornas do local paradisíaco. O registro desse dia foi feito por Paula Lavigne, esposa de Caetano.

3 – Sinatra foi vaiado em Itaparica

Quem conta esta história é um dos homens mais importantes da Rede Globo de Televisão, o ex-diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Em seu livro autobiográfico, “O Livro do Boni”, o ex-diretor narra que, em 1980, Frank Sinatra (1915-1998), dono de uma das vozes mais célebres do século XX, esteve no Brasil para um show no Maracanã, no Rio de Janeiro. Depois da festejada apresentação, deu uma escapada para conhecer Salvador e, entre um gole e outro, foi parar na Ilha de Itaparica.

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O cantor Frank Sinatra (Foto: Reprodução)

Por lá, rolava um show de artistas locais e quando a organização soube que Sinatra estava na plateia, fez o convite para dar uma palhinha. Ele subiu e abriu o vozeirão cantando “My Way”. O público aplaudiu e Sinatra emendou uma segunda música: “Strangers in the night”. Os aplausos se repetiram, muito embora um pouco mais comedidos que os primeiros.

Ainda assim, Sinatra se preparou para emendar uma terceira canção, quando foi interrompido pelas vaias da plateia. O povo já havia se cansado do ítalo-americano e de suas músicas que não davam pra dançar. Eles pediram a saída dele para que os artistas locais comandassem o ritmo de uma forma mais frenética.

4 – Ex-beatle denuncia o mau cheiro do Dique

Uma das reconhecidas bandeiras do cantor Paul McCartney é seu ativismo em prol do meio ambiente. Tanto que o ex-beatle, aos 77 anos, defende o vegetarianismo e, sempre que pode, denuncia a indústria da carne.

Na primeira e até agora única vez que esteve em Salvador, em 2017, Paul denunciou um crime ambiental de forma bem aleatória. Assim que chegou a Salvador, ele usou a ferramenta stories da sua conta pessoal no instagram para fazer uma brincadeirinha e promover o show na Fonte Nova.

Ele reuniu os três jornais impressos da capital (Correio, A Tarde e Tribuna) e postou as reportagens que falam de sua vinda à Bahia. A legenda era “I read the news today” (Eu li as notícias hoje), que é justamente o primeiro verso da famosa música “A Day In The Life”.

Até aí tudo bem. O engraçado dessa história é que, na forma que ele posicionou os jornais para tirar a foto, o Correio aparece na frente e a manchete do dia era: “Mau cheiro no Dique afasta filhos de santo”.  A reportagem revelava como o mau cheiro foi causado pela decomposição de microalgas por falta de oxigênio no Dique, resultante da poluição.

Foto: Reprodução/Instagram

Paul é uma das personalidades com maior número de seguidores no Instagram no mundo inteiro. Ao todo, 2,7 milhões de usuários acompanham suas postagens e viram a denúncia ambiental... meio sem querer.  

5 – Sartre e Simone de Beauvoir visitam abatedouro em Feira

O casal intelectual mais famoso do mundo esteve na Bahia em 1960. Jean Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986) vieram ao Brasil a convite de Jorge Amado e Zélia Gattai, a quem cultivavam uma amizade pelas afinidades literárias e na filiação política com o Partido Comunista. Eles queriam conhecer o mundo para além dos limites da Guerra Fria e saíram peregrinando por países da América do Sul e Central.

O roteiro foi longo e incluiu a visita a mais de dez cidades brasileiras, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e Salvador. Na Bahia, Jorge e Zélia cumpriram um intenso itinerário. Em Salvador, visitaram a favela de Alagados, os saveiros, as feiras livres e os terreiros de Candomblé.

Eles foram parar também em Feira de Santana e lá visitaram um abatedouro de gado e rodaram pelo centro da cidade conhecendo o comércio local.

O casal de escritores Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Feira (Foto: acervo da família)

Parece loucura demais imaginar o filósofo existencialista e a escritora intelectual do feminismo passeando pelas ruas de Feira. No entanto, quem acompanha esta coluna sabe que este rolé, embora pareça aleatório, tem relação direta com as semelhanças de Feira e Paris, capital da França.

6 – Umberto Eco levou chá de cadeira

Um dos mais laureados filósofos, semiólogos e escritores do século XX, o italiano Umberto Eco (1932-2016) esteve na Bahia para conhecer Jorge Amado e levou um chá de cadeira enorme do baiano. A espera foi tão longa que ele desistiu do encontro, que (infelizmente) acabou nunca acontecendo. Quem conta essa história é a escritora Joselia Aguiar, em Jorge Amado – Uma Biografia.

À época, Umberto Eco ainda não tinha a notoriedade que viria a conquistar. Era professor de comunicação da Universidade de Bolonha. Ele havia lido os livros de Jorge Amado e ficou impressionado com a descrição dos personagens e a força do candomblé. Tentou a todo instante marcar esse encontro, mas Jorge, recluso em Itapuã, não deu muita bola.

Escritor havia lançado, em 2015, livro Número zero, sobre jornalismo. Foto: Wikipedia/reprodução

O escritor italiano Umberto Eco (Foto: AFP)

“Não diga que estou na cidade, não posso receber todo professor italiano que vier à Bahia”, disse Jorge a um interlocutor que veio tentar marcar o encontro.

7 – Robinson Crusoé manteve escravos na Bahia

Este não é uma personalidade real e, sim, de ficção. Mas é tão famoso que cabe ser lembrado. Quem relembrou esta história foi João Gabriel Galdea, meu sócio nesta coluna Baianidades.

Robinson Crusoé é um personagem do escritor inglês Daniel Defoe. O livro, o primeiro romance inglês de extremo sucesso, escrito em 1719, conta a história de um fazendeiro nascido em Iorque que se estabelece na Bahia.  

Crusoé mora quatro anos em Salvador e compra uma fazenda para plantar cana e tabaco – à época todas estas atividades eram movidas por mão de obra negra. Querendo ampliar a produção de seu latifúndio, ele viaja de barco para a Guiné para tentar comprar mais escravos. Nesta empreitada, seu navio afunda durante um temporal e ele vira um náufrago isolado no meio do Atlântico. O livro narra suas aventuras para sobreviver na ilha deserta, caso que inspirou Tom Hanks no seu famoso filme ‘Náufrago’.

8 - Pavarotti desafina em Salvador

A Bahia parece não ter muita sorte com as grandes vozes internacionais. Além do episódio com Sinatra, outro vozeirão que passou vergonha por aqui foi o tenor lírico Luciano Pavarotti (1935-2007).

O tenor italiano Luciano Pavarotti fez show em 2000 com Gal e Bethânia (Fotos: Reprodução/Isto É)

O italiano veio fazer um show na Bahia, em 2000, em razão dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Foi uma superprodução, vendida para transmissão ao vivo pelo canal pago HBO, em parceria com a extinta Directv. Antes de Pavarotti, cantariam na Bahia Marina, Gal e Bethânia. Mas aquele dia parecia mesmo fadado ao fracasso.

Uma chuva torrencial atrapalhou o início do show. Bethânia foi impecável em seu repertório, mas Gal enfrentou problemas técnicos no microfone. Já Pavarotti esteve irreconhecível. Sua potência vocal nem de longe parecia aquela que o consagrou com os três tenores (ele, Plácido Domingo e José Carreras). Quando tentou cantar “Manhã de Carnaval”, em português, errou feio na pronúncia das palavras e o público, já encharcado, foi dispersando com o olhar torto para o italiano.

Glutão confesso, levantou-se a possibilidade de Pavarotti ter se enchido de dendê no dia anterior e, diante disso, comprometido a capacidade vocal.

9 – Passando mal e botijão de gás

Para finalizar, duas histórias com jogadores famosos de futebol. Por ter sediado Copa do Mundo, Copa das Confederações, Copa América e alguns jogos das Olimpíadas, a Bahia tem recebido nos últimos tempos vários craques internacionais, da envergadura de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Manuel Neuer, Arjen Robben entre tantos outros.

Mas, em 1999, aconteceu uma das histórias mais insólitas envolvendo um craque internacional. Houve um amistoso na velha Fonte Nova entre Brasil e Holanda. As duas equipes tinham sido semifinalistas da Copa da França, um ano antes, e travado o melhor jogo daquele Mundial.

Conforme contou o brasileiro Wamberto, anos depois, horas antes do jogo, Van der Sar se empanturrou de acarajé e entrou em campo se sentindo mal. Ele estava meio tonto e com os reflexos comprometidos, tanto que falhou no primeiro gol do Brasil (numa falta cobrada por Roberto Carlos) e não teve reação no segundo.

Na volta do intervalo, com o intestino mais solto do goleiro, a Holanda conseguiu reagir e empatar o jogo, que terminou em 2 a 2.

A última história envolve o atacante italiano Mario Balotelli, que muito recentemente quase foi contratado para jogar no Flamengo. Durante a disputa da Copa das Confederações, em 2013, a Itália veio jogar com o Brasil, aqui em Salvador. A esquadra italiana ficou hospedada no Stiep.

Horas antes de um dos treinos, o atacante saiu andando pelas ruas do bairro para interagir com os baianos. Lá pras tantas, encontrou um vendedor de botijão de gás que não se fez de rogado e, sem mesmo descansar o peso de 13 quilos nas costas, saiu numa foto com o craque de Palermo.

Foto: Raphael Carneiro/Globoesporte.com


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