Descabelados: quatro passos para ‘dar um grau’ na cabeleira e cortar o cabelo em casa

coronavírus
18.07.2020, 12:00:00
Atualizado: 19.07.2020, 12:57:43
A jornalista Fernanda Slama cortou o cabelo online, com o auxílio de uma profissional que estava no Rio de Janeiro (Foto: Acervo pessoal)

Descabelados: quatro passos para ‘dar um grau’ na cabeleira e cortar o cabelo em casa

Quem disse que cabelo não gosta de pente? Veja também histórias de quem cortou o próprio cabelo durante o isolamento social, sem medo de se arrepender

Se nos últimos três meses seu cabelo vive à base de coque lá no alto da cabeça, só vale postagem de #tbt e evita aparecer em videoconferências, venha de lá e bata aqui! Lisos, cacheados, ondulados, crespos: a tesoura do desejo de mudar está à solta na quarentena. Tem gente que chega na cara e na coragem e faz o seu próprio corte em casa, sem esperar a autorização para a reabertura dos salões de beleza, fechados em Salvador desde  março, por conta da pandemia. 

É uma tesoura na mão e uma ideia na cabeça, como aconteceu com a jornalista Fernanda Slama, que fez live do corte virtual, conectada com uma cabeleireira ‘topzeira’, lá do Rio de Janeiro, a Mari Sixel, do Salão Azul.

'Quanto mais volume, mais cacho e mais leoa, melhor', afirma Fernanda Slama
(Foto: Acervo Pessoal)

“É um salão com uma proposta super cool, bem moderna. Aí, comprei o voucher para o pós-pandemia e, de repente, pensei em fazer o corte virtual e foi assim que surgiu a ideia. Diferente de você cortar sozinho, que vai descobrindo ali no espelho o que está fazendo, estava com uma outra pessoa em uma outra cidade em uma telinha pequenininha na live do Instagram. Fui na fé e na coragem, acreditando nela”, conta.

O ao vivo foi acompanhado por cerca de 70 amigos e familiares de Fernanda, que também opinaram bastante durante a live. O post com o resultado teve quase cem comentários.

“Eu queria ainda mais volume no meu cabelo. Quanto mais volume, mais cacho e mais leoa, melhor. Cabelo é um pouco disso, vai mudando com o momento que você está. Estou me sentindo com o cabelo dos sonhos. Não me arrependi nem um pouco”.

Há alguns anos, Fernanda foi diagnosticada com alopecia areata, um distúrbio caracterizado pela perda de cabelo em formatos arredondados, provocada por predisposição genética ou participação autoimune.

“Meu corpo entendia meu cabelo como algo estranho e eu fiquei com quatro carecas na minha cabeça. Fiz um tratamento e ali eu vi o quanto aquilo era importante mesmo. Para muitas pessoas, o cabelo é a moldura do rosto. Muda realmente  todo o sentimento, a angústia, a ansiedade”, afirma Fernanda.

E quem disse que cabelo não sente? Para Gilmara Lima,  psicóloga da Clínica AmorPsi, mesmo no isolamento social, o cabelo não perde a conexão com a autoestima.

“As pessoas comunicam sua personalidade através do cabelo. Há uma relação com o cabelo, como eu me posiciono. Se eu me sinto bem, se minha autoestima está elevada, automaticamente, eu consigo me posicionar de uma forma segura”, explica.

Muitas vezes, a força dessa pessoa transparece  e se concretiza na relação que ela tem com esse cabelo. “Uma pessoa que vai fazer uma videochamada, se ela não está com o cabelo do jeito que deseja, automaticamente ela irá se sentir vulnerável, desconfortável”, completa. 

Espelho 
As pontas do cabelo cacheado da empresária Juliana Carvalho estavam sem jeito e bem ressecadas. Um dia desses, logo quando chegou do trabalho, lavou o cabelo, mesmo à noite. Ela poderia ter deitado e dormido tranquilamente o sono dos justos depois da rotina corrida, mas deu lá um estalo e Juliana levantou da cama, lavou o cabelo novamente e resolveu cortar todas as pontas que estavam incomodando. 

'Meu cabelo é referência para muitas clientes', diz Juliana Carvalho
(Foto: Acervo pessoal) 

“Cortei mesmo. Olhei dois vídeos de como cortar cabelo cacheado. A técnica era a mesma e pensei: não tem como dar errado (risos). Quando meu cabelo não está como quero, fico de mau humor. Sempre cuidei dele, tenho uma loja de cosméticos e meu cabelo é referência para muitas clientes”.

Normalmente, Juliana chega a pagar R$ 220 para cortar o cabelo, além das luzes que costuma dar quando vai ao salão de beleza.

“Ficou bem melhor do que estava, não ficou ruim. Visto que não gastei nem um centavo para cortar, amei”, garante.

A estudante Brenda Borges também não resistiu ao corte em casa. Para ela, cabelo tem que ser prático. “Sempre tive cabelo longo na adolescência e uma relação complicada com meu cabelo. Se eu pudesse, raspava, porque acho que só faz calor, mas a ideia me assusta ainda. O processo é lento. Não gosto de pentear”. 

'Foi isso que coloquei na cabeça: mudar', pontua Brenda Borges
(Foto: Acervo Pessoal) 

Tesoura, espelho, pente, uma tia de confiança (sem muita experiência) e o resultado foi o cabelo na altura do queixo. “O meu cabelo estava crescendo, já passava dos ombros. Comecei a sentir uma agonia, algo estranho. Parecia sem corte, sem vida. Não combinava com o meu rosto ou com minha personalidade. Quero ser real. E meu cabelo precisa representar isso. Geralmente, eu não consigo parar de pensar quando coloco algo na minha cabeça e nesse momento, foi isso que coloquei: mudar”, pontua Brenda.

A nutricionista Ítala Silva é mais uma que foi guiada pelo impulso. Desde os 12 anos, ela alisa o cabelo. Aderiu ao permanente, depois o mega, passando pelos alongamentos e adotou o look com tranças. A quarentena, no entanto, mudou tudo.

“Cabelo empodera a mulher e é importante para elevar a autoestima. O visual com tranças ficava bonito, mas assim como acontecia com o mega hair, o incômodo que eu sentia na cabeça durante a aplicação me fez querer deixar meu cabelo livre. Tomei coragem. Simplesmente acordei e tirei as tranças. Passei um mês com meu cabelo preso e no mês passado, enfim, eu mesma cortei ele e deixei curto”. 

'Cabelo empodera a mulher e é importante para elevar a autoestima', ressalta Ítala Silva
(Foto: Acervo Pessoal)

Ela confessa que ainda não trocou a foto do Whatsapp, mas segue se adaptando ao novo visual. “Olhei vários tutoriais e sigo olhando todos os dias, aprendendo como arrumá-lo”, diz.

Foi lá e fez
Não foi só Ítala que optou por uma mudança radical. O administrador Ledo Freitas passou foi a máquina zero no cabelo, após quatro meses sem ir ao salão.  

'Nunca tinha raspado o cabelo', confessa Ledo Freitas
(Foto: Acervo Pessoal)

“Ultimamente, fico procurando coisas para fazer dentro de casa. Meu cabelo já estava grande, mas não seria um problema deixá-lo grande, já que não tenho saído muito de casa. Nunca tinha raspado o cabelo, porém gostei tanto que estou pensando em fazer de novo”.

Antes de passar a máquina, um companheiro chamado boné já resolvia a falta de manutenção. “O maior desespero que passei com o meu cabelo até agora foi quando comecei a raspar. Pensei que estava fazendo vários buracos na cabeça, porém no final deu tudo certo”, responde aliviado. 

O advogado Matheus Maciel não se conteve em somente cortar o cabelo sozinho, mas mexeu também na barba e se entregar a um bigode ‘inocente’. “Passou um mês, dois… Mas aí, teve uma hora que eu já estava parecendo Chewbacca (personagem do filme Star Wars). Peguei a máquina que nunca usei no cabelo, ajeitei o pezinho e pronto. Aproveitei para tirar uma parte da barba e deixar um bigode  estilo 'compadre Washington'. Qualquer coisa, qualquer jeito, eu termino ficando bonito”. 

'Aproveitei para tirar uma parte da barba e deixar um bigode  estilo compadre Washington', conta Matheus Maciel
(Foto: Acervo Pessoal)

Descolorido, descabelado, aparado ou escovado. Cabelo quando cresce é tempo. O CORREIO não vai revelar hoje o segredo do ‘bigodinho’ novo de Matheus, mas contou com a ajuda da proprietária do Salão Sá Marina Cabelo e Estética, Néa Vasconcelos, para montar um guia e ajudar você a fazer seu corte em casa. O centro de beleza localizado na Pituba tem as cantoras Daniela Mercury e Mônica San Galo entre as clientes. Néa listou ainda algumas dicas para cuidar dos cabelos na pandemia. (Veja o passo a passo abaixo).

“Você pode estar com o melhor look e se seu cabelo não condiz com a beleza que você espera, a sua produção fica incompleta e você não se sente linda por causa dele. Cabelo molda o rosto e quando  está como gostamos, traz sempre uma alegria”, acrescenta a especialista.


CONFIRA O TUTORIAL

1. Divida o cabelo ao meio Para cortar o cabelo em casa, é necessário ter uma tesoura - que não precisa ser profissional-, prendedores e um pente fino. Cabelos lisos e ondulados devem ser lavados antes do corte. Se forem Cacheados ou crespos, é importante mantê-los secos por conta da variação dos cachos. “Divida o cabelo em etapas e use o prendedor para separá-los”, explica Néa Vasconcelos, do Salão Sá Marina.

(Foto: Divulgação)

2. Leve o cabelo à frente e corte as laterais Prenda o cabelo com as pontas dos dedos e estique até a frente, como reforça a cabeleireira. No caso dos cabelos cacheados e crespos, a recomendação de Néa é que ele seja só aparado nas pontas mesmo, sem muitas ‘inovações’. “Evite molhar o cabelo crespo e cacheado para cortá-lo. Com ele seco, você consegue verificar melhor onde pode cortar sem que isso deixe um buraco depois”.

(Foto: Divulgação)

3. Hora da franja  Para não ter erro, corte a franja sempre reta. “Puxe, mais uma vez, o cabelo para frente. Meça o tamanho que quer cortar e corte reto. Para evitar dar ‘zebra’, evite cortar as laterais. Na dúvida, corte sempre pouco. Mais uma dica para as crespas e cacheadas: não corte a franja. Como é um cabelo que não cresce uniforme, exige um corte profissional para não perder o volume”, orienta.

(Foto: Divulgação)

4. Acabamento Para cabelo lisos e ondulado: é bom escová-lo após o corte para ir nivelando as pontas. Os cacheados e crespos não precisam passar por esse processo. “É ter atenção no espelho e ir tirando os excessos, de olho nas pontas que sobraram, avaliando com bastante cuidado para não cortar demais e evitar que fiquem desordenados”, complementa Néa.

(Foto: Divulgação)


CUIDADOS COM OS CABELOS NA QUARENTENA

Cacheados e crespos A dica é utilizar produtos específicos para cada tipo de ondulação à base de óleos essenciais, entre eles, macadâmia e óleo de coco. Tudo isso cria mais nutrição e ajuda na forma dos cachos. Outra opção também é buscar uma nutrição que tenha reposição hídrica. São cabelos que precisam muito desta compensação, visto que a curvatura do cabelo dificulta a distribuição uniforme desses nutrientes.

Lisos e ondulados São cabelos que necessitam de um tratamento de nutrição à base de muita proteína, entre elas, queratina. Isso evita a descamação e contribui para um maior fortalecimento dos fios.

Alimentação também conta  Alimentos  ricos em vitamina B12,  ferro, cobre, zinco, minerais e proteínas ajudam a fortalecer os fios do cabelo e   deixá-los mais  saudáveis. 

Cuide do lado emocional  O estresse  libera cortisol, hormônio que provoca desde inflamações na pele até  a queda precoce de cabelo. 

Faça a higienização de escovas e pentes de cabelo  Mais do que nunca, a higienização destes itens precisa ser feita com frequência por conta da pandemia.  Coloque água e sabonete líquido em um recipiente. Em seguida, esfregue até remover toda a sujeira e enxágue. Tire o excesso de umidade com uma toalha e não deixe de colocá-los para secar, principalmente, as escovas com esponja.


QUAL A SITUAÇÃO DOS SALÕES NA PANDEMIA?

Os estabelecimentos estão fechados desde março, em Salvador e não é permitido o atendimento em casa. Segundo anúncio feito pelo prefeito ACM Neto, os salões estão no grupo que deve retomar as atividades na segunda fase de reabertura, após 14 dias do retorno dos shoppings.

O prefeito disse  que está otimista para que a primeira fase da retomada possa acontecer já na semana que vem, caso a ocupação de leitos de UTI usados por pacientes contaminados por covid, atualmente em 78%, chegue a 75%. Quando o número em Salvador estiver em 70%, e permanecer assim por cinco dias seguidos, a fase dois será então ativada.

Segundo a presidente da Associação Baiana de Salões de Beleza (Abasbe), Sarah Pires, Salvador tem, atualmente, 54 mil estabelecimentos que atuam no setor. Oitocentos profissionais da área foram demitidos. “Muitos atendem hoje de forma irregular porque precisam sobreviver”.

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