Devotos ignoram pedido de ficar em casa e vão ao Bonfim: 'isso é a fé'

bahia
14.01.2021, 10:32:26
Atualizado: 14.01.2021, 16:46:18
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Devotos ignoram pedido de ficar em casa e vão ao Bonfim: 'isso é a fé'

Guarda municipal dispersou aglomerações

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A propaganda da festa do Senhor do Bonfim de 2021 dizia que, no dia da tradicional lavagem, quem tem fé fica em casa. Mas muitos baianos decidiram não obedecer a esse lema. Assim que o dia amanheceu nessa quinta-feira (14), a Colina Sagrada começou a receber devotos.  

O ciclista Gilson Pereira saiu de sua casa em Pernambués às 5h e chegou no Bonfim meia hora depois. Como ainda não havia barreiras, ele conseguiu chegar até a porta de igreja e fazer sua oração. Depois, foi de bicicleta até a igreja da Conceição da Praia, onde encontrou o amigo Mario Augusto, por volta das 7h. Não satisfeitos, a dupla saiu novamente em direção ao Bonfim para expressar a sua fé. Chegaram às 8h. 

"Todo ano eu venho. Isso é a fé. O Senhor do Bonfim me ajudou muito, chego me arrepio todo ao falar", explicou Gilson. O amigo Mario, que faz parte do grupo de risco da covid-19 e por isso não retirava a máscara do rosto, fez questão de não perder o evento. "Eu fui criado em cima de barraca de festa de largo. Isso não tem explicação. Quando você se apega aos orixás, ao candomblé, ao catolicismo, sua vida muda", apontou.  

Durante a manhã, diversos corredores e ciclistas chegaram até a baixa do Bonfim, relembrando a tradicional Corrida Sagrada que abre o dia festivo. Muitos levantavam os braços em direção ao santuário e faziam uma oração de agradecimento ao protetor. “Eu peço saúde para todos. Quero que esse ano tenha muita paz e alegria para todo mundo”, disse o instrutor de funcional Rafael Senra, 31 anos. Junto com um grupo de mais quatro pessoas, ele saiu às 7h da Igreja da Conceição da Praia, como normalmente aconteceria se houvesse a lavagem.  

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Nem todos os esportistas presentes no Bonfim usavam a máscara. “É muito difícil correr com ela”, disse uma pessoa, sem se identificar. Muitos aglomeraram no gramado da Baixa do Bonfim, aos pés da Colina Sagrada, mas logo foram dispensados pela Guarda Civil Municipal (GCM).  

Cortejo  
Enquanto os velocistas povoavam a Baixa do Bonfim, a Igreja da Conceição da Praia começou a receber devotos que esperavam a imagem do Senhor do Bonfim passar para segui-la até o Santuário. Isso só foi acontecer por volta das 10h. A devota Renilda da Silva, 62 anos, chegou 7h na igreja e nem se importou de esperar. “Ficar em casa é impossível. Essa fé que nós temos e demonstramos todo ano torna difícil ficar em casa. Temos que rezar mesmo e para que essa pandemia passe”, argumentou.  

Quando a imagem do Senhor do Bonfim chegou, Renilda se aproximou e jogou pétalas de flores. Depois, saiu em procissão junto com outras 50 pessoas. O grupo foi se dispersando ao longo do trajeto, pois alguns andavam mais rápido do que outros. “Eu queria mesmo que a imagem andasse mais devagar para eu poder acompanhar, mas eu entendo que essa medida foi para evitar aglomeração. É importante”, falou o devoto Jair Bispo, 53 anos, que tinha ficado bem para trás. 

Era ainda possível ver pessoas na rua tomando cerveja, mesmo de manhã, para aguentar o forte calor que fazia nessa manhã. Outros aproveitaram o momento de menos aglomeração para focar mais na parte religiosa do evento. “Antes eu ia no meio da alegria, da música, da cerveja. Hoje eu só vou caminhando e rezando”, disse Edilson da Cruz, que estava acompanhado da esposa Mirceia Carvalho e da filha Danile Santos.  

Ao chegar na Colina Sagrada, diversos vendedores ambulantes tentavam lucrar com o festejo popular. A vendedora de fitinhas Josimeire Oliveira Santos, 41 anos, chegava a lucrar R$ 1 mil no evento, mas não estava tão animada para o que seria obtido em 2021. “Acho que não vou tirar nem R$ 300 de ganho. Eu vim mesmo, pois estou desempregada e quis aventurar”, explicou.  

Fé 
Para o devoto Emiliano Matos, 48 anos, a Lavagem do Bonfim não foi de “quem tem fé vai a pé” ou “quem tem fé fica em casa”. Ele optou pelo modo que, ironicamente, foi o mais tranquilo para chegar no Bonfim: o carro. É que o trânsito nas avenidas da região não foi interditado e não houveram engarrafamentos. Ao contrário do que acontece tradicionalmente, foi possível fazer a procissão tranquilamente dentro de um veículo.  

“Eu vim desse jeito, pois a pandemia está forte. Tinha que vim de qualquer modo e o carro foi a forma mais segura que encontrei. Aqui eu faço meu agradecimento. Desde criança eu venho entregar minha vida ao Senhor do Bonfim. Hoje peço a ele que nos dê proteção e a vacina”, disse Matos.  

Já Sandra Castro Paternostro aproveitou a mudança no cortejo para aumentar o percurso andado. Ela primeiro seguiu a imagem pelas ruas da Graça, onde mora. Quando não conseguiu mais acompanhar a velocidade dos carros, pegou um taxi em direção da Conceição da Praia. Então, fez sua oração e foi caminhando sozinha até o Bonfim, enquanto também rezava o terço. “Ele norteia a minha vida. Sigo com ele para conquistar todos os meus objeitvos. E o Senhor do Bonfim não falha”, garantiu.  

Dentre os fiéis presentes, houve aqueles que não aceitavam o fato de não poder acessar a Colina Sagrada. “Eu sou devoto e penso que não adiantar pedir a benção dele daqui de longe. Tinha que ser mais perto. Não é a mesma coisa ter que ficar aqui”, disse Vicente da Silva, 55 anos, que não usava máscara. “Se eu pudesse subir a Colina, iria usá-la. Mas para ficar aqui eu não uso não”, falou.    

*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier 

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