Diário de uma plantonista: médica relembra um dos dias mais letais da pandemia até aqui

salvador
28.02.2021, 06:00:00
Atualizado: 28.02.2021, 07:54:09
(Rovena Rosa/EBC)

Diário de uma plantonista: médica relembra um dos dias mais letais da pandemia até aqui

'As pessoas não têm noção do que está sendo feito para atender à demanda', diz infectologista Verônica Rocha ao relembrar dia em que a Bahia registrou 100 mortes

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Verônica Rocha, 35 anos, é infectologista, coordena o núcleo de controle de infecção hospitalar do Instituto Couto Maia, em Águas Claras, e também mãe de dois bebês. Às vezes, contrapõe a realidade hospitalar ao mundo aqui fora e se sente “meio esquizofrênica”. Pensa nas seis mães de recém-nascidos internadas, longe das crias, enquanto os filhos dela brincam ou dormem no cômodo ao lado. Estão seguros. “Como estarão os outros nenéns?”, pensa. Também lembra dos jovens internados.

"Parece que vivo dois mundos. Me sinto meio esquizofrênica" (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela narrou um plantão no dia 25 de fevereiro, quando a Bahia bateu recorde no número de mortes por coronavírus, com 100 mortes diárias, desde o despertar à hora de dormir, com mudanças inesperadas, falta de leitos e superlotação. De repente, um silêncio reflete o caos, ou uma notícia muda o dia - e a vida - de alguém. 

25 de fevereiro - Salvador anuncia lockdown parcial, bate recorde no número de mortes em 24 horas e hospitais chegam a 100% de lotação

5h às 7h30 -  Acordo e amamento meu bebê de sete meses, Mateus, e depois brinco com Laura, de dois anos. Dou comida e brinco de casinha. Brinco pensando no que me espera, pensando por qual UTI  vou começar. Monitoro todas elas e estou preocupada porque, cada vez mais, não têm leitos disponíveis. Onde será o meu foco, como reduzir a taxa de letalidade? Os jovens melhoraram? Todo dia penso neles. Penso nas puérperas internadas com coronavírus, longe dos seus bebês. Fico pensando. Tiro um tempo para me exercitar. Volto para casa, tomo café e sigo para o hospital.

8h às 8h20 - Chego no hospital e troco minha máscara. Abro todos os prontuários. Vejo que as mães e os jovens estão melhores e fico feliz. Uma dela sentou hoje... Está ligada à ventilação mecânica, mas melhor. Uma notícia boa. A primeira coisa que faço é olhar o prontuário desses pacientes, ver quais foram os antibióticos passados... Um dos jovens está com uma bactéria no sangue e precisamos mudar ele de lugar. Mas só tem uma vaga de UTI e os pedidos estão cada vez maiores.

8h20 às 10h40 - É o momento da reunião do gabinete de crise. Eu, como controladora de infecção hospitalar, preciso estar presente. Contamos a ocupação das enfermarias, o estoque dos equipamentos de proteção, os leitos. Por uma coisa ficamos felizes: conseguimos reduzir o índice de letalidade aqui no hospital. Mas, o hospital está cheio, só tem uma vaga. Saímos da reunião.

10h45 - A diretora nos chama para voltar para a sala de reunião: “Temos que transformar todos os leitos em leitos de covid-19”. Uma fala impactante, mas infelizmente precisamos fazer isso. Um silêncio toma a sala, é um sinal concreto da segunda onda. Começamos a ver o que cada pessoa tem que fazer. As pessoas são remanejadas. Não paramos.

11h às 12h - Começo a verificar os locais que receberão mais pacientes. Por onde as pessoas vão entrar? Cada detalhe precisa ser pensado. Minha sensação é de que vivo num filme. As pessoas não têm noção do que está sendo feito para atender a demanda. Ando nas ruas, abro o Instagram, é festa, encontro. Parece que vivo em dois mundos diferentes. Me sinto meio esquizofrênica. Não podemos parar. Vejo um paciente com os pulmões totalmente comprometidos. Como ele está conseguindo respirar?

12h às 13h - Hoje preciso fazer uma dança de cadeiras no hospital. Uma dança de leitos. Se uma pessoa está com uma bactéria mais resistente, não posso deixar ela perto de outra. Mas como vou perder um leito? Sento com o pessoal da regulação de vagas para pensar uma forma. Não podemos perder leito. Achamos uma solução. Aviso a uma enfermeira da minha equipe que ela não terá como tirar a folga prevista. A escala vai precisar mudar. São muitas coisas para resolver.

13h às 13h15 - Almoço em 15 minutos, um prato com arroz, feijão, salada, filé de carne e suco de manga. Não podemos conversar, o almoço não é mais um momento de se distrair. Tem um acrílico entre nós, que nos separa. Penso na próxima UTI que eu vou. Quando estou lá dentro, não vejo o mundo lá fora.

13h15 às 14h30 - Pego as amostras de pacientes para verificar se tem alguma bactéria nova em circulação. Estou com minha equipe, eu e duas enfermeiras. Temos que parabenizar o que está dando certo e pensar em pontos positivos. A higiene está boa, ninguém usando celular, relógio, que podem servir para espalhar contaminação. Pelo menos uma coisa legal, depois de muita luta.

14h30 às 15h30 - Os jovens começam a chegar em maior volume e isso me deixa assustada. A gente fica muito impactado. Uma paciente está internada há dois meses, entubada, com coronavírus. Depois de três semanas avaliando que ela tinha uma febre que não passava, o pulmão que não melhorava, várias reanimações, pensamos na hipótese de tuberculose. Ela começa a apresentar resultados com a medicação. Como a covid-19 pode acordar problemas. Vai ver ela já tinha tuberculose e isso nunca tinha se manifestado. Durmo e acordo também pensando nela, que veio de São Paulo para Salvador para resolver uns problemas e acabou internada. Quem sabe não se contaminou durante a viagem?

15h30 às 16h40 - Separo um tempo à pesquisa que coordeno na Bahia, em parceria com a Fiocruz, para checar a condição dos pacientes. Dentro dessa confusão toda, ainda precisamos fazer pesquisa.

16h40 às 17h30 - Deixo o hospital para trás. No caminho, vejo que Cajazeiras nunca viveu a pandemia. Vejo os bares abertos, ruas com gente, pessoas sem máscara. Vida normal. A realidade do hospital parece que não existe, ou está sendo ignorada. Eu vivo mesmo em dois mundos.

17h30 às 20h15 - Chego em casa direto para o banho. No caminho, os bebês ficam querendo ir para cima de mim. É o recomeço do dia. Mamar, brincadeira. Faço uma videochamada com meus pais. Eles estão preocupados com a situação aqui. Bateu um desespero em nós. Ninguém acompanha o crescimento do meu bebê de sete meses. Somos eu, minha filha, meu marido e ele. Não sei quando vou ver minha família, que mora no Rio de Janeiro. Colegas médicos me mandam mensagem, preocupados que possam estar com coronavírus. Uma amiga do Rio me pergunta sobre a Bahia. 

20h15 às 22h30 - Tenho uma reunião online para discutir a situação dos residentes. Eles estão com o ensino comprometido. Enquanto estou na reunião, amamento meu filho, os dois vão dormir. Consigo jantar, tomar outro banho e estudar um pouco para ver o que há de novidade em  pesquisa. Precisamos estar o tempo todo nos atualizando, vejo o que o pessoal está comentando, se há alguma novidade de pesquisa.

23h -  Evito ligar a televisão. Já vivo com essa tensão permanente. Eu e meu marido, porque ele também é médico e liga para as famílias, para passar os prontuários, ajudar a regulação. Amanhã, tudo começa outra vez, com os mesmos pensamentos. Como estarão os jovens? Chegaram novos pacientes? Há leitos? As puérperas melhoraram?

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