Do barro à basílica: descubra mistérios antigos e atuais da 1ª igreja de Salvador

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29.03.2021, 05:00:00
Vista interna da Igreja da Conceição da Praia (Sora Maia/CORREIO)

Do barro à basílica: descubra mistérios antigos e atuais da 1ª igreja de Salvador

Túneis secretos, andares inacessíveis e histórias seculares estão guardadas na Conceição da Praia

Na parte baixa da montanha e na esquina da ladeira, o governador-geral mandou levantar uma capela. Do chão que era basicamente mato e praia naquele 1549, extraíram barro para construir as paredes do que viria a ser a primeira igreja oficial da cidade de Salvador, a atual Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio. Primeiro taipa, depois alvenaria e, por fim, pedra de lioz. A sequência dos materiais que foram sendo usados nas três versões dessa igreja, ao longo do tempo, revela uma série de indícios sobre as transformações sociais que nos trouxeram até aqui, nestes 472 anos da primeira capital do país, comemorados nesta segunda-feira, 29 de março.

Disputada para celebrações de casamentos de noivos e noivas de famílias ricas, ponto de partida de festividades populares como a Festa da Conceição e a Lavagem do Bonfim, dona de um acervo de pesquisa histórica e cultural, cartão postal da Cidade Baixa, local de oração e ensaios de corais e até alvo de quadrilhas especializadas em roubo de relíquias e arte, essa igreja tão bem preservada e protegida guarda mistérios não só de outros tempos, mas também da vida contemporânea.

A fundação de Salvador começa a partir da ordem de construção da igreja primitiva de taipa, uma obra modesta de barro coberta de palha, erguida a mando de Tomé de Sousa. Muito frágil, ela provavelmente desabou por forças da natureza. A maré avançava, o vento forte do mar batia.

Ninguém tem conhecimento preciso sobre o que aconteceu com ela - pode ter sido demolida, sabe-se lá quando. O que os registros de época mostram é que aquela igrejinha terminou dando lugar a uma segunda, de alvenaria, mais confortável para as famílias endinheiradas que a ajudaram a construir.

Pesquisadora das histórias destes templos, Vanilda Mazzoni, do Ateliê de Conservação Memória & Arte, acredita que muita coisa deve ter mudado entre uma construção e outra. A cidade já era bastante populosa na era da segunda, por volta de 1600, e a população se sentia mais protegida morando perto de uma igreja, então ia construindo em volta, formando o que se chama de freguesia, ela explica.

Portanto, não foi de repente que os mais abastados começaram a achar que a segunda igreja, pequena demais, já não os representava. Resolveram então construir mais uma e demoli-la. Um pedaço dela restou, é um resquício preservado anexado aos fundos da terceira construção, a atual grande igreja. Esta última foi feita toda sob encomenda. Seus mantenedores não pouparam recursos: mandaram fazer planta e manual de montagem em Portugal, que era para não ter erro; compraram pedras de calcário exclusivas de Lisboa, que vieram numeradas para orientar a construção. Por causa disso, hoje é apelidada de ‘Igreja de Lego’. 

Capela original da segunda construção ainda está preservada
(Foto:Sora Maia/CORREIO)

Foi projetada por Manoel Cardoso de Saldanha, arquiteto e engenheiro militar português, e, ao todo, demorou mais de 100 anos para ficar pronta. Saldanha a desenhou para ser não apenas um espaço da religiosidade católica, mas uma verdadeira fortaleza, com pontos de vigília, esconderijos, passagens, corredores, muitas escadas, cemitério, andares ocultos e túneis até hoje secretos.

Em valores atualizados, estima-se que tenham sido gastos, em todo o processo, quase R$1 bilhão na construção, diz o historiador e professor Rafael Dantas, membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Conceição da Praia, entidade que administra atualmente a basílica. A dinheirama mostra o nível de influência dos membros da irmandade mantenedora da época e dos demais agentes do período que estavam imersos na cultura do mercado escravista dos séculos 18 e 19.

Aquela construção era um símbolo de poder e riqueza e queria dizer, com todas as letras, que a Coroa Portuguesa estava presente na colônia. O local onde foi erguida, a Zona da Praia, tinha intenso fluxo de embarcações. Em 1863, havia ali ao menos seis cais. Atrás da igreja jorrava uma fonte de água limpa e, não faz muito, os administradores dos tempos de hoje descobriram um desses minadores em uma sala do lado direito do altar-mor.

Rafael Dantas conta que algumas das casas comerciais que ficavam naquela região eram de nomes muito influentes da sociedade da época, como os traficantes de escravizados Francisco José Godinho e Joaquim Pereira Marinho, além de negociantes estrangeiros. A freguesia àquela época tinha tinha ali drogarias, livrarias, câmbios, pousadas, relojoarias, casas de panos e comércios de importados. A igreja estava situada, portanto, em uma das principais vias da cidade.

Litografia da Igreja da Conceição da Praia na segunda metade do século XIX (Imagem: coletada por Rafael Dantas)

Professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o também historiador Carlos Silva Jr. diz que a basílica fazia parte do que ele chamaria de “Complexo Negreiro Portuário”. Tinha-se a alfândega para taxação, locais de compra e venda de escravizados e o espaço religioso, onde os batismos aconteciam. Muitos batizados de africanos ocorreram na Conceição.

Normalmente, os senhores deveriam batizar na freguesia onde moravam, mas fazia-se nela muito provavelmente por comodidade. “Compravam um ‘lote’ de cativos, levavam para a Conceição, ali do lado, e batizavam, às vezes coletivamente, o que era proibido, segundo regras da igreja. Os batismos deveriam ser individuais”, detalha.

A era contemporânea 

Funcionário da basílica há mais de 40 anos, José Gonçalves, o Seu Zé, de 58, é hoje quem toma conta de muitos serviços. Tinha 7 anos quando migrou do interior para a capital a fim de levar uma vida mais católica. O pai dele era funcionário da casa na década de 1960 e o padre à época aconselhava que “família foi feita para viver próxima e no âmbito da igreja”. Veio então todo mundo. Zé cresceu e passou a servir como sacristão, depois contratado como zelador após a morte do pai.

Mais tarde, fez cursos de preservação do patrimônio e terminou elevado ao cargo de encarregado de manutenção da basílica. E foi exercendo suas atividades que viu acontecer muitos capítulos da história recente de Salvador.

Em sua vida, Zé viu, face a face, dois dos santos mais populares dos novos tempos. Ele estava presente no sepultamento de Irmã Dulce, em março de 1992, quando o corpo dela foi depositado inicialmente naquela igreja, irmandade a qual ela frequentava. Também chegou perto do papa João Paulo II durante a segunda visita do pontífice ao Brasil, um ano antes da morte de Dulce dos Pobres. Na Conceição da Praia, João Paulo II fez a oração “Angelus”, na qual discursou sobre a enorme devoção a Maria na Bahia.

Santa Dulce dos Pobres, à época ainda Irmã Dulce, foi a última pessoa enterrada na Conceição da Praia
(Foto: Sora Maia/CORREIO)

“Eu consegui tocar no papa. Essa foi uma emoção que poucas pessoas na vida passaram! Mas o que mais me marcou foi a perda de Irmã Dulce. Eu a conheci, eu a carregava na cadeira de rodas, a levava até o altar da igreja”, recorda.

Grandes ocasiões ocorreram neste templo e é por isso que ele tem um riquíssimo acervo documental. Rafael Dantas observa que é de se imaginar que novas pesquisas aconteçam sobre a dinâmica das cidades atrelada à cultura material. Frequentador e grande admirador da Conceição da Praia, foi o historiador que descobriu recentemente alguns sinais gravados nas pedras das escadarias que levam às torres.

Tratam-se de prováveis inscrições da época da montagem da igreja. Uma informação, até então, desconhecida.

“Só consegui encontrar esses sinais subindo e descendo dezenas de vezes as escadarias e estudando cada uma das centenas de blocos, juntamente com os documentos e livros de referência”, revela.

Dantas diz que as possibilidades não se esgotam e quer conhecer mais. O que será que os toques dos sinos daquela igreja significavam para a população do passado? Essa é uma das perguntas que guiam ele no tema que se dedica a pesquisar atualmente. Sabe-se que tocavam para anunciar de tudo: horas, chegada de reis, bispos, nobres, convocar para solenidades e festas, informar sobre vida e morte.

No começo deste ano, os 16 sinos da basílica - o maior número em igrejas de Salvador - voltaram a tocar simultaneamente graças a uma tecnologia única nas Américas. Encomendaram um equipamento que automatiza a puxada de cordas para as badaladas dos sinos, dispensando a força manual. Foi a primeira vez que isso aconteceu no Brasil.

Parte do que resiste na igreja fica longe dos olhos do público. Há um andar secreto no forro onde fica o Cemitério de Escravos, inacessível às pessoas comuns. Diz-se que havia ainda um túnel que interligava a basílica com o Mercado Modelo para facilitar fugas da nobreza e seus aliados em situações de guerra. Os espaços não podem ser vistos por todos por questões de segurança, segundo a igreja. Os monumentos sagrados têm histórias espinhosas de participação cristã na escravidão. São memórias pelas quais o Vaticano pediu desculpas públicas, mas não gosta de remexer. 

“Poucas coisas são explícitas. De fato, há muitos mistérios na fundação da igreja e na própria história. Existem documentos que podem ser obtidos e outros não. Todas as igrejas seculares têm mistérios impublicáveis”, diz Seu Zé.

CRONOLOGIA DA IGREJA

1535 - É construída a primeira igreja do Brasil, a pedido da indígena Catarina Paraguassu, esposa do português Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Na época, Salvador não era cidade. Essa construção é a atual Igreja de Nossa Senhora da Graça, no bairro da Graça.
1549 - A mando de Tomé de Sousa, é construída a capelinha primitiva de taipa, coberta de palha, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. A construção, em frente ao mar, tinha a intenção de fundar oficialmente a cidade de Salvador.
1623 - A segunda igreja já existia e foi elevada a matriz.
1625 - Fundação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, posteriormente fundida à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Praia em função das dívidas que uma tinha com a outra. Devido à impossibilidade de se pagarem, resolvem se unir.
1739 - Iniciam-se as obras para construção da terceira igreja, a atual basílica, com fachada em pedras de lioz.
1760 - A imagem de Nossa Senhora sai em procissão para festejar o casamento de Infante Dom Pedro com Teresa de Bragança, a Princesa da Beira.
1808 - Sinos da igreja tocam para saudar a chegada da Família Real.
1826 - O imperador Dom Pedro I assiste missa acompanhado da sua família e comitiva.
1868 - Irmandades compram o órgão alemão, instrumento musical que existe até hoje.
1938 - Igreja e tudo o que nela contém são tombados pelo Iphan.
1991 - Visita do papa João Paulo II a Salvador. O pontífice discursa na igreja sobre a forte fé em Maria, mãe de Jesus, na Bahia.
1992 - Morte e sepultamento de Irmã Dulce, última pessoa a ser enterrada na Conceição da Praia. 
2010 - Abertura do túmulo de Irmã Dulce para beatificação.
2021 - Reativação e automatização dos 16 sinos da igreja.


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