Do gueto para o gueto: Igor Kannário e Márcio Victor levam superpipoca à orla

carnaval
25.02.2017, 21:02:00
Atualizado: 25.02.2017, 21:37:32

Do gueto para o gueto: Igor Kannário e Márcio Victor levam superpipoca à orla

Puxando trios sem cordas, pagodeiros arrastam multidão no circuito Barra-Ondina

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Pipoca de Igor Kannário: devoção, aperto e confusões (Foto: Evandro Veiga) 

A massa de gente espremida, pulando e dançando no mesmo ritmo, causava estranheza a quem estava lá em cima, nos camarotes mais badalados da Barra e Ondina. Percebendo a situação, Igor Kannário não se fez de rogado e se apresentou com nome e sobrenome. “Boa noite. Para quem não me conhece, eu sou Igor Kannário. Príncipe desse povo todo ai”. Fez isso várias vezes. A galera não se dava! “Uh, e o Kannario!”.

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Antes do Carnaval, ele bem que avisou: “A Barra é Orla. Nós somos favela. Vou levar meu povo para a Orla. Nós vamos invadir a Orla”. Prometeu e cumpriu. Foi uma noite de superpipocas da periferia, que teve também o arrastão do Psirico e a pipoca de Ed City. “A favela é da paz e nós vamos mostar isso agora”, disse Kannário, que estreou sua pipoca no circuito Barra Ondina, depois de apenas fazer participações em trios de Claudia Leitte e MC Guime em anos anteriores.

Igor Kannário: Nos Vamos invadir a Orla (Foto Evandro Veiga)

“O comando aqui é nosso”, avisou diversas vezes o Príncipe do Gueto. Na saída, no Farol da Barra, puxou um Pai Nosso. O povão rezou em coro. “Harmonia, respeito, consideração. A gente já foi proibido disso. Vamos aproveitar”, disse, lembrando o fato de ter passado dois anos proibido de desfilar, sob argumentos de que seus shows acabavam em violência e de que tinha um discurso contra a polícia.

Ontem, o discurso se dividiu. Com as ruas entupidas de gente e a grande quantidade de patrulhas da polícia, os policiais queriam abrir caminho a todo o custo. Em alguns momentos, distribuíam borduadas. Kannário chamou a atenção: “Respeita a favela. Respeita o gueto. Quer respeito, tem que dar respeito”. Mas, em outros momentos, viu que foliões mais exaltados e brigões atrapalhavam seu show. “Respeita os caras, respeita os caras. Tem que ser na boa. Abre espaço para a guarnição passar”.

O trio da frente estava muito próximo, espremendo ainda mais a galera. A polícia não queria que o trio parasse. Mais borduadas da PM na parte dianteira. A própria mulher de Kannário desceu e discutiu com um policial. Um folião que teria inciado uma briga tem o cabelo puxado e leva um tapa de outro PM. Flagramos a agressão em vídeo. “O cara mexeu com minha amiga e fui tirar satisfação. Quando vi o policial já tava me puxando”, disse o agredido.  

Mesmo com tudo isso, ao lado do trio, fãs choravam, erguiam faixas e se espremiam para mostrar sua paixão pelo artista. Um deles acompanhou tudo, do início ao fim. Tinha uma faixa: “Joao Kannariano”. Estava sozinho no meio daquela loucura. Tentamos nos aproximar dele. A muito custo, conseguimos. Mas com o barulho e os pulos da galera, sequer ouvimos seu sobrenome. E Joao seguiu em frente rumo a Ondina com os braços abertos mostrando a faixa.

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Logo a frente, outro Kanarianno. Ainda mais “louco”. O cadeirante Felipe de Assis Santana, 25 anos, se meteu com duas rodas no meio da multidão. Só ficou aliviado quando os cordeiros que vão à frente do trio o deixaram usar o espaço. “Por Kannário eu faço tudo. Vou até o fim”, disse Felipe, que ficou sem os movimentos das pernas depois que levou um tiro na saída de um show, há cinco anos.

Em um espetáculo diferente de tudo no Carnaval, Kannario comandou uma massa diversificada. Não era só favela. Gente dos camarotes desceu, estrangeiros se misturaram, tinha de tudo. Mas prevalecia mesmo a periferia. Tanto que, ao longo do circuito, comunidades faziam coro. “Uh, Boca do Rio!”.  “Uh, Nordeste!”. “Ê, Bairro da Paz”. “Essa e a pipoca do povo discriminado e perseguido”, disse Kannario. As brigas e confusões, seja provocadas por foliões ou policiais, continuaram até Ondina.

Marcio Victor comemora mais espa;o para o foliáo pipoca (Foto/Evandro Veiga)

Márcio Victor dedica Carnaval às mulheres
Uns três ou quatro trios a frente, ia a pipoca do Psirico. Não tão cheia, mas igualmente orgulhosa e animada. “Meu Deus do céu. Esse povo todo! O que e isso”, disse o cantor Marcio Victor, quase ajoelhado e visivelmente emocionado. “Isso aqui e tudo para vocês”, disse Márcio, oferecendo o show as mulheres, homenageadas na sua música de trabalho atual: Mulheres No Poder. “E a música do Carnaval. O comando e delas”.

Com as ruas, sacadas dos prédios e varandas de camarotes lotadas, o Psi foi outro que mostrou a força do som surgido nos guetos de Salvador, que atrai imensas multidões. “Fico feliz com o crescimento da música que a gente apostou lá atrás, sabe. E o Carnaval da pipoca dá acesso a esse povo. Ainda faltam alguns representantes do gueto terem mais espaço. Mas já melhorou muito”, disse, elogiando o colega Kannário e os demais. “Igor Kannário e um menino merecedor, uma história incrível. Desejo muita sorte a ele, Leo Santana, La Fúria, Xanddy, Tatau, Ninha, a todos que vem do gueto”.     

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