Do refrigerante ao refluxo: entenda quando os soluços se tornam um problema

entre
18.07.2021, 16:00:00
O soluço é um espasmo que pode ocorrer com a irritação do nervo frênico (Foto: Shutterstock)

Do refrigerante ao refluxo: entenda quando os soluços se tornam um problema

Caso de Bolsonaro chamou atenção para situações que duram mais de uma semana

Pode ser logo depois de bater uma feijoada; às vezes, vem após beber um refrigerante ou até uma água com gás. Talvez apareça naquele momento de frio ou calor extremo, mas também pode parecer totalmente aleatório. Seja lá qual for a situação, uma coisa é certa: uma crise de soluços costuma ser muito desconfortável. 

Ainda que existam alguns gatilhos, normalmente, os soluços passam logo. Depois de um tempo, esses impulsos quase incontroláveis cessam. Mas nem sempre é assim. Às vezes, um simples soluço pode ser indício de alguma condição mais grave ou de uma doença que precisa de atenção. 

“Momentos de soluço excepcionais, esporádicos, são normais de acontecer, seja porque você comeu demais ou porque está com uma acidez maior. Isso pode fazer com que haja um estímulo do nervo frênico e dispare alguns soluços”, diz o médico gastroenterologista Luiz Queiroz, professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, citando um dos nervos importantes para a respiração. 

Esta semana, o tema ganhou destaque no noticiário justamente depois que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contou, em uma live, que estava com soluços há mais de uma semana. Segundo o próprio Bolsonaro, o caso teria relação com medicamentos que tomou depois de uma cirurgia bucal. 

De fato, o tempo da crise pode mesmo indicar se alguém precisa de acompanhamento médico. Se dura um ou dois dias, é algo que está dentro da normalidade. Mas se a pessoa começa a ter quatro, cinco dias ou mesmo uma semana de soluços, já é suficiente para acender a luz amarela. 

“Falamos isso principalmente de quadros que se arrastam por mais de uma semana. Uma coisa é o indivíduo apresentar o soluço e a crise passar. Outra é aquela crise que não passa e você começa a sentir dor porque dura uma, duas horas. Nesse caso, precisa avaliar se tem alguma inflamação”, reforça o gastroenterologista. 

Espasmo
O soluço é um espasmo da musculatura do diafragma - essa que fica entre a região do tórax e o abdômen. Ele acontece quando o nervo frênico provoca o espasmo, contraindo todo o músculo e também fechando a glote. O barulhinho que dá para ouvir é justamente o fechamento da glote. 

Na prática, qualquer alteração metabólica pode provocar a irritação desse nervo. Pode ser algo térmico - como calor ou frio excessivo -, uma consequência do cansaço depois de uma corrida mais intensa. Mas como destaca a nutricionista Arianny Amorim, especialista em nutrição clínica e professora da Rede UniFTC, é comum que hábitos alimentares despertem os soluços. 

Comer rápido e em grandes quantidades, sem mastigar direito, é um dos costumes que podem distender o estômago. Misturar alimentos com diferentes temperaturas, como uma comida muito quente e uma bebida muito fria, também pode ser uma combinação perigosa. “Alguns alimentos podem influenciar negativamente, como as bebidas alcóolicas e as bebidas gaseificadas, como refrigerante e água com gás”, explica. 

Quem tem o hábito de comer alimentos muito condimentados, recheados de temperos prontos, pode ficar mais vulnerável aos soluços. O mesmo acontece com comidas apimentadas ou com a própria pimenta em si.

“Essas comidas já são, naturalmente, irritantes estomacais. Por isso, falamos tanto sobre priorizar frutas, verduras e temperos naturais, além das orientações da vida saudável em geral, como evitar o consumo de líquidos durante as refeições, beber muita água durante o dia, comer em quantidades fracionadas e praticar atividade física”, diz a nutricionista. 

Mas há casos até de alimentos naturais - como o feijão e o brocólis - que, em, alguns pacientes mais sensíveis, podem levar aos soluços, já que costumam provocar muitos gases. A orientação, nesses casos, é de buscar entender como reage o corpo de cada um. 

Doenças 
O soluço pode se tornar um problema quando acontece com muita frequência, por muito tempo, e fora de momentos considerados fisiológicos. De acordo com o gastroenterologista Luiz Queiroz, da Bahiana de Medicina, esses quadros podem ser indicativos de doenças da chamada região da transição esôfago-gástrica. 

Isso inclui desde a possibilidade de inflamações no esôfago, como as doenças do refluxo gastroesofágico, até outras doenças mais graves, como tumores. Além disso, problemas no sistema nervoso central também podem estimular o nervo frênico e, assim, provocar os soluços. 

Em casos mais graves, há medicamentos e manobras que podem ser feitas por um médico para fazer os soluços pararem. Mas, na maioria dos casos, quando os soluços são leves, a orientação do gastroenterologista é simplesmente esperar passar. 

Quanto aos ‘remédios caseiros’ para o soluço - como prender a respiração, beber água ou até tomar um susto -, a nutricionista Arianny Amorim acredita que não devem ser desprezados. Em alguns casos, as tradições populares até acabam resolvendo os soluços. 

“Sempre gosto de falar que nossa base científica vem de um saber popular, porque existe uma vivência prática. Mas sempre tem a ver com o processo de respiração, o que poderia resolver nesses casos momentâneos. Se for uma coisa mais persistente, é uma solução pontual. O mais indicado é buscar ajuda profissional para identificar se há alguma doença de base”, completa. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas