É hora das máscaras N95? Especialistas debatem se Brasil deve seguir exemplo europeu

salvador
07.02.2021, 07:02:00
Máscaras PFF2/N95 entraram no debate após a chegada de variantes mais transmissíveis do coronavírus (Foto: Shutterstock)

É hora das máscaras N95? Especialistas debatem se Brasil deve seguir exemplo europeu

Respiradores com maior capacidade de filtração estão sendo adotados contra novas variantes da covid-19

Seis da tarde, volta para casa do trabalho. No ônibus - um Estação Pirajá-Barra 3 lotado -, um cidadão tira a máscara para conversar com a pessoa do lado. Nem ele mesmo sabe, mas está infectado pelo coronavírus. Assintomático, seu potencial de transmissão da doença cresce exponencialmente. E agora? Quem está perto será inevitavelmente contaminado? 

De fato, essa pessoa acaba de colocar todos a sua volta em risco. Mas há um cenário em que é possível estar mais seguro: quando, nessa situação, você está usando uma máscara padrão PFF2 - ou N95, como também ficou conhecida nos últimos tempos, ainda que seja o nome da versão fabricada apenas nos Estados Unidos. 

"Se você estiver com a PFF2, não que seja um escudo infalível, mas é uma melhor proteção", explica o físico Vitor Mori, doutor em Engenharia Biomédica e pesquisador do Observatório Covid-19 BR. Esse respirador chega a filtrar 95% das partículas do ar.

Oficialmente, tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto o Ministério da Saúde ainda recomendam que equipamentos como esses sejam destinados, prioritariamente, aos profissionais de saúde na linha de frente do combate à pandemia. No entanto, esse debate cresceu nas últimas semanas, depois que países da Europa, como a França, passaram a exigir essas máscaras para toda a população, devido às novas variantes do vírus, que têm capacidades de transmissão maiores. 

Na Alemanha e na Áustria, a obrigação é de que elas sejam usadas em locais como o transporte público e o comércio. Em todos esses países, desde o fim de 2020, as medidas contra a covid-19 ficaram ainda mais rígidas com a segunda onda. No Brasil, embora as ocorrências tenham aumentado, não houve endurecimento e, em muitos ambientes, há quem sequer use máscara. 

Assim, o questionamento é quase inevitável: estaria na hora de fazermos o mesmo por aqui e passarmos a usar as máscaras PFF2? A resposta pode divergir, entre os especialistas. Para alguns, esse deveria ser o protocolo desde o início. Outros acreditam que, pelo contexto social brasileiro e os preços da PFF2, é mais razoável exigir o cumprimento das medidas de combate à pandemia que já são conhecidas, como o distanciamento social e o uso de qualquer máscara.

Mas, de forma geral, todos concordam que, em situações específicas, como no ônibus, em uma viagem de avião ou mesmo numa ida a uma clínica, as PFF2/N95 são mais do que bem-vindas. 

"Numa fase em que está tão difícil convencer os outros a proteger o entorno, o ambiente, especialmente as pessoas de maior risco, acho importante explicar para elas como funciona, como utilizar e cobrar o governo para aumentar a produção dessas máscaras", diz Mori. 

As máscaras PFF2 são vendidas tanto em lojas de produtos hospitalares e farmácias quanto em casas de materiais de construção (Foto: Reprodução)

Inalação
Para entender como uma máscara PFF2 pode proteger alguém, é preciso compreender melhor a própria covid-19. Quase um ano depois de os primeiros casos terem sido registrados no Brasil, ainda é como se muita gente acreditasse que o maior risco de transmissão é através de superfícies. Só que não é assim. O maior risco é pela inalação de gotículas, de aerossóis, quando alguém fala, respira ou tosse. 

Daí o perigo de estar em locais fechados e mal ventilados, já que há grandes chances de respirar o ar exalado por outras pessoas.

Para Vitor Mori, levar as pessoas a locais abertos é mais importante do que a própria máscara. Uma PPF2/N95 seria, portanto, a última linha da defesa. É algo para quando você não tem escolha. 

“A tomada de decisão tem que ser: 1) você pode ficar em casa e consegue? Se pode e consegue, fique o máximo que puder. 2) Se não pode, procura um local a céu aberto, ventilado. Ao invés de um restaurante ou shopping fechado, um parque ou uma praça. Se tiver que ir para um lugar fechado, procura um local mais vazio. E, numa situação de maior risco, deve usar a N95”, ensina. 

As máscaras PFF2/N95 conseguem reter melhor as gotículas. Mas isso não quer dizer que as outras - sejam as cirúrgicas ou as de tecido - não sejam eficientes. 

Um estudo da Universidade Duke, nos EUA, avaliou 14 tipos de máscaras faciais no ano passado e classificou a N95 como a melhor delas. Contudo, todas as que eram feitas de algodão também tiveram um bom desempenho. Em média, elas conseguiam eliminar de 70% a 90% das gotículas que saíam pela fala. A diferença, segundo a epidemiologista Naiá Ortelan, foi devido ao tom de voz e ao ajuste das máscaras no rosto. 

Máscaras de tricô e de plástico não são indicadas porque não filtram as partículas e podem não ficar bem ajustadas no rosto (Fotos: Reprodução/Instagram e Divulgação)

"Máscaras de algodão e polipropileno se mostraram ainda mais eficazes. Não se recomenda utilizar máscaras feitas com tecidos de camiseta, malhas, crochês ou tecidos com tramas mais abertas, tampouco máscaras feitas com aquele plástico do face shield. Bandanas e lenços dobrados também não são eficazes", alerta Naiá, que é colaboradora da Rede Covida, formada por pesquisadores da Ufba e da Fiocruz. 

Aquelas de camada única feitas de lycra ou elastano também devem ser evitadas. Em todos os casos, precisam estar bem ajustadas ao rosto. Não adianta apenas que o material seja bom, se a máscara está frouxa ou não cobre todo o nariz. Além disso, as de pano devem ser limpas com frequência. Depois de duas horas de uso, precisam ser trocadas e lavadas. 

Elas podem ficar mais seguras desde que a vedação seja bem forte. Na internet, dá para comprar ‘fixadores’, materiais que deixam a máscara bem rente ao rosto. Alguns vídeos ensinam a fazer um em casa com borrachas (veja abaixo), mas tem métodos até mais fáceis. Entre as saídas recomendadas pelos cientistas, há desde usar esparadrapos até combinar duas máscaras - uma cirúrgica (que filtra bem) e uma de pano mais ajustada ao rosto.

Fixadores, como esse da Fix the Mask, já são vendidos online para ajustar as máscaras no rosto. No entanto, eles também podem ser feitos em casa (Foto: Divulgação)

Contexto
Porém, é preciso compreender o contexto brasileiro antes de mudar qualquer orientação, para a epidemiologista Naiá Ortelan. Aqui, há desde autoridades que menosprezaram as medidas de contenção do coronavírus desde o começo da pandemia até um passado em que o uso de máscaras faciais nunca fez parte da realidade.

Para completar, parte da população continua usando errado, a exemplo daqueles que deixam a máscara no queixo, e, para muita gente, as máscaras N95 têm um custo elevado. 

“Um ano após o início da pandemia, as pessoas ainda estão se adaptando. Ao mesmo tempo, apesar da previsão de aumento de casos e óbitos, observamos indisciplina por parte da população, que tem se aglomerado e desrespeitado o uso de máscaras faciais”, pondera.

Seja uma máscara PFF2, seja uma de tecido, elas não funcionam sozinhas. O distanciamento social, a higienização das mãos e, agora, a vacinação em massa, são medidas efetivas para diminuir o número de doentes, como reforça o pneumologista José Tadeu Monteiro, coordenador da Comissão de Infecções da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). 

"Levando em consideração que o cenário de crise econômica, com muitos desempregados, disseminar que todos precisariam usar seria precipitado, no sentido de que a gente ainda sabe que outras medidas são tão eficazes quanto. Não vale a pena só a N95. Ela tem que estar inserida num contexto de proteção individual", afirma ele, que é professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Centro de Ensino Superior do Pará. 

A recomendação geral, portanto, não é usar de forma indiscriminada. Dá para apontar locais e situação em que a máscara N95 é mais indicada do que outras. Segundo o pneumologista, esse é o caso do próprio transporte público, como os ônibus ou o metrô, mas também viagens de avião ou aeroportos. 

Se você vai a uma consulta médica em uma clínica ou em um hospital, também pode/deve usar. Da mesma forma, em escolas, salas de reuniões shoppings ou qualquer local fechado, com risco de aglomeração ou sem possibilidade de abrir janelas. Em outros locais com maior aglomeração, uma máscara PFF2 também é uma boa opção. 

"Nesse momento, a nossa recomendação, independente da circulação das cepas mais agressivas, inclusive a de Manaus, é o respeito às determinações legais dos sistemas regulatórios, respeito ao limite de pessoas nos elevadores, nos locais onde são feitas reuniões de trabalho, nos serviços essenciais", exemplifica Monteiro. 

O face shield nunca deve ser usado sem máscara. Ele é uma proteção extra, mas não oferece segurança sozinho (Fotos: Reprodução e Shutterstock)

Falsificações
A diversidade de fabricantes das máscaras PFF2 faz com que os preços sejam os mais diferentes possíveis no mercado. Só para dar uma ideia, o CORREIO listou 10 locais onde é possível comprar respiradores nesse padrão e os valores vão de R$ 1,99 a R$ 20 (veja abaixo)

Mas uma dúvida comum é se todas as máscaras desse tipo funcionam da mesma forma ou até se as compradas em lojas de materiais de construção teriam a mesma eficácia daquelas vendidas por marcas de produtos hospitalares. E têm, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, já que trata-se de um padrão nacional. 

Muitas casas de material de construção vendem uma versão da PFF2 com válvula. Essa não é tão indicada, porque permitiria a passagem de ar mais facilmente, mas, em último caso, pode ser usada. Para que ela fique mais segura, uma opção é passar uma fita adesiva em torno da válvula. 

Em 2014, o Inmetro desenvolveu um programa de certificação de máscaras do tipo Peça Semifacial Filtrante (PFF), que inclui a PFF2, a pedido do antigo Ministério do Trabalho e Emprego. Ainda assim, as máscaras cirúrgicas são regulamentadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A medida mais recente da Anvisa sobre as máscaras é uma suspensão definitiva de venda, distribuição, importação e uso de uma série de marcas de máscaras do tipo KN95, em setembro. Segundo a agência, esses fabricantes não atingiram a eficiência mínima de filtragem de partículas de 95% na avaliação da Food and Drug Administration (FDA), a agência sanitária estadunidense (para conferir a lista completa dos fabricantes, clique aqui). 

O padrão KN95 é o equivalente chinês da PFF2 brasileira ou da N95 estadunidense. O problema é que há muitas falsificadas no mercado, ou mesmo feitas com materiais de baixa qualidade, como destaca o físico Vitor Mori, do Observatório Covid-19 BR. 

Algumas marcas da máscara KN95 foram suspensas no Brasil (Foto: Reprodução)

Ou seja: não quer dizer que toda KN95 não seja confiável, mas não dá para saber só de olhar. Elas podem ser eficientes para o uso cotidiano, mas não são indicadas para profissionais de saúde que atendem pacientes com covid-19, por exemplo. 

"Outro ponto negativo é que ela prende na orelha e não na nuca. Você perde um pouco da vedação, porque não adianta o filtro ser muito bom se o ar passa pelos lados", explica. 

Incentivo 
O exemplo de alguns países da Ásia com esses respiradores, porém, não pode ser desconsiderado. Uma das primeiras medidas da Coreia do Sul foi aumentar a produção do equivalente deles da PFF2. O objetivo era justamente distribuir em larga escala. 

Por isso, Mori é um dos cientistas que defende que, desde o começo, deveria ter existido um foco das autoridades brasileiras em oferecer subsídios e auxílios à indústria local para aumentar a produção. 

“As máscaras de pano foram muito úteis e ainda são muito importantes como um plano B, no momento em que a gente ainda não tinha essas máscaras (PFF2) disponíveis para toda a população. Mas me surpreende uma solução temporária ter chegado a ser definitiva, porque esperava que chegasse o momento em que aumentaríamos a produção”, diz ele, ressaltando que, pela falta de políticas específicas, não se sabe oficialmente quantos desses equipamentos estão disponíveis e se é suficiente para a população e para profissionais de saúde. 

O CORREIO questionou o Ministério da Saúde sobre esse aspecto, mas não recebeu nenhuma resposta até a publicação desta reportagem. No entanto, as informações das fornecedoras já ajudam a ter noção do quando a produção tem aumentado. 

Na 3M, uma das principais fabricantes do país, a demanda por PFF2 é 50 vezes maior do que antes da pandemia, de acordo com a gerente de produto da linha de respiradores da empresa, Patrícia Soares. Para dar conta, a produção local foi triplicada e a empresa opera no regime de 24 horas, todos os dias da semana, com a contratação de novos profissionais. 

“A empresa tem feito esforços globalmente para suprir a alta demanda e já produziu 2 bilhões de máscaras em 2020. Vale ressaltar que a 3M prioriza a comercialização das máscaras para órgãos de governos e instituições de saúde, para contribuir com aqueles que estão na linha de frente no enfrentamento à pandemia”, diz Patrícia. 

Ela conta que, desde o começo da pandemia, a empresa percebeu o interesse maior dos governos para a proteção de trabalhadores de áreas essenciais. “A 3M vem acompanhando as mudanças rápidas do cenário e trabalha para seguir atendendo da melhor forma possível as demandas dos governos, instituições de saúde e do mercado”, completa. 

Na 3M, uma das maiores fabricantes, a demanda aumentou 50 vezes no Brasil, desde o começo da pandemia (Foto: Reprodução/YouTube)

Máscaras podem ser reutilizadas com intervalos e não precisam ser lavadas; entenda
Ainda que sejam descartáveis, as máscaras do tipo PFF2 têm uma vida útil maior do que as cirúrgicas, por exemplo. Ou seja: não precisam ser jogadas fora depois de terem sido usadas apenas uma vez. Enquanto estiverem inteiras, com elásticos funcionando bem, podem continuar a ser utilizadas. 

“Só precisa tomar cuidado para não lavar, não passar álcool e deixar descansando por pelo menos três dias”, ensina o físico Vitor Mori, do Observatório Covid-19 BR. “Por isso recomendo você ter alguma de emergência e fazer o uso consciente em espaços de maior risco”, explica. 

Tanto o álcool quanto o sabão degradam o material da máscara. Da mesma forma, não é indicado que ela fique exposta ao Sol por horas. Caso aconteça, o ideal é que não seja por mais do que alguns minutos.

Depois, ela pode ser guardada em um saquinho de papel, para descansar por alguns dias. A recomendação é evitar sacos plásticos porque são menos arejados. Mas mesmo com todos esses cuidados, é difícil dizer, ao certo, quantos dias ou meses ela vai durar. A ideia é observar justamente se ainda dá para usar, se não há vazamentos e se o elástico ainda está ajustado. 

Em alguns modelos, ele pode ser trocado quando fica frouxo, o que aumenta o tempo de vida - ao menos, em ambientes não hospitalares diretamente ligados ao combate à covid-19. 

"Estou usando a última que abri há quase dois meses. Se você usar com parcimônia e tentar reutilizar o máximo que der, não tem problema. Agora, se todo mundo usar a máscara uma vez e depois jogar fora, não tem dinheiro nem produção nacional que aguente. É importante que, para o uso cotidiano, a gente tente reutilizar ao máximo", reforça. 

Confira 10 locais para comprar a máscara PFF2 a partir de R$ 1,99

1) Casa do Paciente
Máscara PFF2 da KSN por R$ 13,00.
Endereço: Avenida Afrânio Peixoto, s/n, Térreo, Periperi
Contato: (71) 3397-0182

2) Cirúrgica Teixeira
Máscara PFF2 da 3M - R$ 15,00
Endereço: Rua da Mouraria, nº 22, Nazaré
Contato: (71) 4105-6262

3) Salvador Máscaras
Máscaras N95 de R$ 5 R$ 20
Endereço:  Avenida Manoel Dias da Silva, nº 1345, Pituba
Contato: (71) 99989-7579

4) Ferreira Costa
De R$ 5,99 (Ledan) a R$ 13,90 (3M)
Endereço:  Avenida Paralela, nº 6180 ou no site
Contato: 3505-1555

5)  Super Casa
De 6,90 (com válvula, da Delta)
Endereço: Rua Prof. Pinto de Aguiar, nº 40, Imbuí
Contato: (71) 3362-8340

7) Dishelp Materiais de Construção
De 5,50
Endereço: Rua do Pinheiro, nº 6, Rio Vermelho
Contato: (71) 3247-7730

8) Muleta Express
De R$ 10,00
Endereço: Avenida Amaralina, nº 38, Amaralina
Contato: (71) 3017-5197

9) Americanas.com
Opções a partir de R$ 2,18
Endereço: no site

10) Magazine Luiza
Opções a partir de R$ 1,99
Endereço: no site

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