'Eles pegaram um por um. Foi uma execução', diz tia de um dos mortos na Gamboa

salvador
01.03.2022, 14:30:12
(Foto: Bruno Wendel / CORREIO)

'Eles pegaram um por um. Foi uma execução', diz tia de um dos mortos na Gamboa

PM diz que foi recebida a tiros; familiares das vítimas negam

Sentada em uma das escadarias, a tia de Alexandre dos Santos, 20 anos, um dos moradores mortos pela Polícia Militar na madrugada desta terçai-feira (1), na Gamboa, diz com veemência que não houve troca de tiros. "Eles pegaram um por um. Foi uma execução", declarou Luciana Gomes, 41. 

Segundo ela, o sobrinho, o vendedor ambulante, Cauê Guimarães, e o estudante, Patrick Sapucaia, 16, que seria filho de PM aposentado, foram executados dentro de uma casa abandona, logo na entrada da comunidade.

"Entrei lá, tinha poça de sangue na sala, no quarto e no banheiro. Era muito sangue. Ou seja, cada lugar estava um corpo. Como é que foi troca de tiros? Não existe isso. Sem falar que os três estavam em um bar quando foram levados a força para dentro da casa. Depois, os outros policiais foram até a casa e começaram a limpar tudo com água corrente", contou ela. 

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Apesar do relato dos detalhes, peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT) que estiveram no local disseram que diversas pessoas entraram no imóvel, o que dificulta chegar à dinâmica dos fatos.

"Muita gente entrou na casa, encontramos cápsulas dentro de sacos com os próprios moradores. Ou seja, muita coisa foi alterada. Mas coletamos três vestígios respingos de sangue em três pontos distintos que serão analisados para se descobrir se são das mesmas pessoas", declarou um dos peritos. 

Questionado se houve modificação do cenário e se os vestígios apontam para uma troca de tiros, o perito respondeu: "A princípio, não encontramos nenhum local lavado. Como disse, muita coisa foi mexida e isso altera, e muito, o nosso trabalho para chegar à dinâmica do fato".

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Ainda na escadaria, Luciana mostra os arranhões nas pernas de quando implorou para a polícia não levar o sobrinho. "Pedi de joelhos para não levarem meu sobrinho, mas apontaram a arma pra mim também", disse ela. 

Luciana disse que estava em casa quando ouviu os gritos da mãe de Alexandre, Silvana dos Santos, 48, que  na hora tentava também pedir que o rapaz fosse colocado no porta-malas de uma viatura. "Quando vi aquele cena, eles sendo arrastados no chão, todos cobertos de sangue, me ajoelhei e pedi:'Pelo amor de Deus, não levem o meu sobrinho', mas um policial botou a arma na minha cara, assim como fez com a mãe de Alexandre", contou Silvana.

Até o início da tarde, os parentes de Patrick e Cauã não apareceram na Gamboa e nem no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLRN) para a liberação dos corpos.

PM diz que foi recebida a tiros
Em nota, a Polícia Militar diz que foi acionada na madrugada desta terça-feira (1) com informações sobre a presença de homens armados na Avenida Lafayete Coutinho.

Segundo a PM, os policiais foram reecbidos a tiros e deram início ao tiroteio. "Após o revide e posterior progressão no terreno, as equipes encontraram três homens caídos ao solo em posse de armas de fogo e drogas. Já os outros suspeitos conseguiram fugir. Os feridos foram socorridos pela guarnição para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde não resistiram", diz o comunicado.

"Durante a prestação de socorro, manifestantes jogaram entulhos, obstruíram a pista em ambos sentidos e hostilizaram as guarnições. O policiamento foi reforçado na região com o apoio de outras unidades", narra a PM.

Foram apreendidos no local em posse dos três suspeitos um revólver calibre 38; duas pistolas, sendo uma de calibre .40 e outra de calibre 380; 177 papelotes de maconha; 233 pinos e dez embalagens de cocaína; 130 pedras de crack; três aparelhos celulares; uma balança eletrônica, R$ 172,00 em espécie e um relógio de pulso.

O caso está sendo investigado pela corregedoria da PMBA.

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