“Em nossa cidade, o problema não é o comércio em si”, diz prefeito de Eunápolis

minha bahia
02.07.2020, 06:00:00
Robério Oliveira, prefeito de Eunápolis, no Sul da Bahia (Divulgação)

“Em nossa cidade, o problema não é o comércio em si”, diz prefeito de Eunápolis

Gestor conversou com o CORREIO

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Após atravessar uma fase de grande aumento nos casos de covid-19 no início de junho, com até 40 casos diários, o município de Eunápolis passa por dias mais tranquilos e parece ter chegado ao topo da contaminação. Quem avalia é o prefeito Robério Oliveira (PSD). O crescimento diário de novos casos está hoje em cerca de 2,3%, com algo em torno de 15 a 20 novas infecções.

O comércio do município tem funcionado seguindo regras definidas pela prefeitura. E, na avaliação do prefeito, o comércio em si não é um problema na cidade, mas sim a “falsa sensação de normalidade que sua abertura causa nas pessoas”, uma vez que o número de pessoas nas ruas aumenta além do normal.

Para Oliveira, o fato de o município ser um polo comercial no Extremo Sul da Bahia e ser cortado pela BR-101 foi decisivo para o aumento dos casos na cidade. Segundo o prefeito, o impacto da pandemia nas contas municipais já supera os R$ 13 milhões. Ele diz que o município segue um plano de retomada gradual das atividades econômicas e só pode falar em volta total após análises científicas. O prefeito, contudo, evitou comentar sobre a possibilidade de adiamento das eleições deste ano e disse que está focado no combate à pandemia. Confira:

CORREIO: Apesar do alto número de casos confirmados em Eunápolis (são 674 infecções), a cidade já tem 568 recuperados. O senhor acredita que Eunápolis já superou a fase crítica da doença? Como avalia a situação hoje?

Robério Oliveira - De acordo com nossas análises já chegamos ao topo da contaminação com uma média de 40 casos diários, quando permanecemos em ascendência por cerca de uma semana. Com as medidas adotadas, agora estamos em queda, com crescimento diário de 2,3%, com entre 15 e 20 pacientes confirmados por dia. Porém, não podemos baixar a guarda. A preocupação é o sentimento de que as coisas estão normalizadas, porque não estão. Este é o momento de ampliarmos os cuidados para que possamos então vencer esta doença e não termos um novo pico.

C - No começo do mês de junho, o governador Rui Costa chegou a classificar a situação do município como preocupante, com um crescimento médio diário de 12%. Quais medidas foram tomadas para contornar a situação?

RO - Quando nossa curva começou a subir demais, tivemos que adotar medidas mais rigorosas. Determinamos então o toque de recolher a partir das 20h (que mantemos até hoje) e prorrogamos a suspensão das atividades comerciais na cidade, aumentando assim o índice de isolamento social no município. Na saúde, descentralizamos o atendimento para todas as Unidades Básicas de Saúde para facilitar o acesso ao diagnóstico e tratamento para a população; realizamos blitze constantes de conscientização quanto ao uso de máscaras, com aferição de temperatura corporal; e ampliamos a testagem, inclusive na zona rural, sendo a cidade da região com maior número de testes realizados. Assim, conseguimos isolar os pacientes confirmados e reduzir o contágio.

Quais fatores o senhor acredita que influenciaram no aumento dos casos em Eunápolis?

RO - Eunápolis é um polo comercial da região, aqui temos empresas que atendem todo o Sul da Bahia, e foi assim que o vírus chegou ao nosso município. Cinco colaboradores de uma empresa de transporte de valores se contaminaram em alguma cidade da região em que estiveram e trouxeram para o município, contaminando familiares e amigos. Somado a isso, somos uma cidade cortada pela 2ª maior rodovia do país - a BR-101 -, o que torna inviável o fechamento do acesso ao nosso município.

C - Hoje, 16 pessoas estão internadas. Qual a estrutura de leitos clínicos e de UTI para atender estas pessoas que necessitam de atendimento?

RO - Em parceria com o Governo do Estado estamos instalando um Hospital de Campanha em nosso município com 20 leitos de UTI e 20 leitos clínicos. Antes disso preparamos uma ala em nosso Hospital Regional com seis leitos com respiradores para estabilizar os nossos pacientes antes de encaminhá-los às UTI’s de referência.

C - Qual foi o impacto da pandemia nas finanças do município? 

RO - Nossa previsão de queda nas arrecadações é superior a R$ 38 milhões. O levantamento realizado pelo município mostrou que, nos meses de abril e maio de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, houve uma significativa queda de arrecadação de mais de R$ 6 milhões, e se comparado às previsões orçamentárias para estes dois meses do ano, o prejuízo chega a mais de R$ 13 milhões.

C - O senhor chegou a flexibilizar o comércio na cidade. Como avaliou o impacto da abertura no contágio do coronavírus?

RO - Identificamos em nossa cidade que o problema não é o comércio em si, pois os comerciantes estão adotando todos os cuidados necessários, o que se justifica que estamos com o comércio aberto e já percebemos a diminuição na taxa de contaminação. Antes da flexibilização das atividades comerciais, me reuni com representantes de vários seguimentos do comércio e apresentei a eles todo o panorama da pandemia em nosso município com um diálogo franco e aberto. Eles entenderam a gravidade da situação e viram meu esforço em buscar um equilíbrio, sempre embasado em informações científicas. Mas ainda enfrentamos um problema grande que é a falsa sensação de normalidade que sua abertura causa nas pessoas, ou seja, o número de pessoas nas ruas aumenta além do normal, por isso investimos em campanhas de conscientização e aumentamos a fiscalização, para mostrar à população que mesmo com o comércio aberto, vivemos uma pandemia e precisamos adotar todos os cuidados necessários. Não é porque o comércio está aberto que a pessoa precisa sair de casa sem necessidade.

C - O município já trabalha com protocolos de retomada total das atividades econômicas?

RO - Por enquanto, nosso decreto vigente é de retomada gradativa. Só poderemos falar sobre retomada total após termos a análise científica dos nossos técnicos de saúde sobre os impactos dessa retomada em nossa curva de contaminação.

C - Até o dia 16, Eunápolis tinha 14 casos de coronavírus em cinco agências da cidade. O senhor acredita que, devido ao grande fluxo de pessoas em bancos, isso pode ter ajudado a propagar o vírus? Como o município lidou com essa questão?

RO - A quantidade de pessoas nas agências bancárias é algo que nos preocupou desde o início da pandemia e, por isso, determinamos o número de pessoas que teriam acesso às agências, proibimos a entrada de crianças, delimitamos o distanciamento nas filas de acesso aos bancos, capacitamos nossos servidores públicos para o controle das filas e buscamos garantir o distanciamento social. Para maior segurança da população que precisava receber o Auxílio Emergencial, montamos também uma grande estrutura com cobertura, assentos higienizados delimitando o distanciamento, banheiros químicos, distribuição de máscara e higienização constante das mãos.

C- Por fim, teremos eleições este ano e muito tem se falado sobre a possibilidade de adiamento. O senhor concorda com o adiamento das eleições? Se sim, por quanto tempo?

RO - Acredito que este não é o momento de pensarmos em eleição. Todos os meus esforços estão concentrados no combate à Covid-19, minha preocupação hoje é salvar vidas. Minha visão quanto à realização das eleições é que tudo seja definido baseado em informações técnicas e científicas neste momento de combate à pandemia. Independente de quando forem realizadas, estarei preparado para disputá-la. Isso não é uma prioridade para mim no momento.

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