Empregada que ficou sem folgar por 8 meses sofre de ansiedade e reaprende a ser livre

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17.04.2021, 10:59:00
Redescobrindo como ser livre, Carine (nome fictício), na rua onde mora, em uma dia de chuva em Salvador (Nara Gentil/ CORREIO)

Empregada que ficou sem folgar por 8 meses sofre de ansiedade e reaprende a ser livre

Mulher ficava sem poder sair da casa de classe média alta em Salvador. Ela descreve o quarto onde dormia como 'quarto de despejo'

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As mulheres da família de Carine*, assim como ela, poucas vezes puderam escolher. Aos sete anos, sua mãe virou babá. Na adolescência, ela via tias em longas jornadas como empregadas domésticas. Pouco tempo depois, seguiu o mesmo caminho. Herdeira de um passado sem fim, Carine redescobre, hoje, a liberdade que lhe foi tirada em nome de um emprego que a privou, por oito meses, de viver a própria vida.

Depois dos meses sem folga, numa casa de classe média alta onde era vista como ameaça de contaminação pelo coronavírus, Carine pediu demissão, no final de dezembro passado. No mesmo dia, chamou o marido e a filha para passear numa loja de estofados e comer batata frita com refrigerante, no Shopping Piedade, em Salvador. “Me senti um passarinho. Fazia tempo que não sentia aquela liberdade”. 

Leia mais: Empregadas são obrigadas a ficar na casa dos patrões 'enquanto a pandemia durar'

No antigo emprego, acordava às 6h e dormia às 21h. Descansava num beliche de concreto. Na cama de cima, ficavam objetos velhos, na de baixo, Carine. O quarto ficava separado da casa principal. "Quarto de despejo" é o apelido que Carine escolheu para ele. Ela não tinha televisão, nem acesso à internet da casa - as patroas não compartilharam a senha. Se queria ter contato com o mundo exterior, colocava crédito no celular. A lei determina que se as 12 horas de trabalho forem ultrapassadas, deve haver 36 de descanso, mas ela não chegava até Carine. 

Durante aquele período, a empregada viveu para as três patroas - uma adulta e duas idosas -, de domingo a domingo. A mais jovem delas dizia ter medo de que Carine as contaminassem. Propôs, então, que a funcionária dormisse no trabalho, que a pagava R$ 1,5 mil mensais. Àquela altura, em março do ano passado, o marido de Carine esperava uma pensão pendente. A família estava sem dinheiro.   

"Quando vi as contas chegarem, eu não vi outra saída", conta.

Antes de ser contratada para a antiga vaga, outra mulher ocupou o cargo de Carine num regime semelhante. Era uma idosa, que ficou dois meses confinada no trabalho. Exausta, pediu demissão. Restou Carine, que precisava de um salário e a quem as patroas já conheciam. Era ela quem fazia todas as tarefas domésticas e cuidava das duas idosas da casa.

A doméstica não pôde colocar os pés para fora do trabalho - exceto para compras de interesse das patroas - por quase dois meses ininterruptos. Depois desse tempo, houve semanas em que ela dormiu em casa, a 30 quilômetros de distância. Saía de lá às 19h30, conduzida por um motorista contratado pelas chefes, e retornava, no outro dia, às 7h. Nesse intervalo, uma das patroas mantinha o controle sobre ela. Proibia a funcionária, por exemplo, de visitar os pais.  

A ansiedade de estar longe da própria vida ainda aparece em forma de tristeza, dores de barriga e palpitações. Foram cinco quilos perdidos, ainda não recuperados. Esta é a história de Carine. Pela primeira vez, ela a torna pública. 

Uma nova rotina para Carine e o medo de falar
Em casa, Carine gosta de passar tempo com a filha e assistir filmes - menos os de terror. Outras vezes, prefere o tédio. A liberdade é tão simples quanto complexa para quem conhece o oposto dela. Carine quer ser feliz, apesar de tudo. Ao mesmo tempo, quando fala dos meses no trabalho, fica ansiosa, o coração “treme”. Ser livre é, para ela, um reencontro cotidiano, um acerto de contas com as lembranças.

Sem dinheiro para pagar especialista que diagnosticasse o porquê dos sintomas que insistem em aparecer sem que se dê conta, nem disposição para buscar atendimento gratuito, Carine acredita que sofre transtorno de ansiedade

No dia a dia, Carine tenta encontrar pequenos prazeres (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Ela e a família moram num bairro periférico de Salvador, como a maioria das empregadas domésticas. Desde que deixou o emprego, Carine atua como diarista e a renda da família vem das faxinas e do auxílio do marido - R$ 1,1 mil,  um salário mínimo. Enquanto houver diárias a fazer, e o marido receber a pensão pelo afastamento, ela não pretende voltar a trabalhar formalmente como doméstica. Quer finalizar o último ano na faculdade - interrompido em 2020 -, seguir a profissão que escolheu e deixar o passado para trás. 

No último final de semana, depois de ler a denúncia de empregadas em confinamento publicada no CORREIO, ela deixou um comentário numa rede social do jornal. Precisou pausar três vezes a leitura, que a angustiava, antes de fazê-lo. Só então deixou o escuro do silêncio.

"Eu até já pensei antes em denunciar, mas ficava pensando em que horas eu ia fazer isso, como ia atrás disso", afirma.  

Pelo menos 10 mulheres disseram passar por confinamento ou conhecer quem passou, também pelas redes sociais do jornal. Uma delas, segundo relato de uma amiga, estava há um ano sem voltar para casa. Ela não quis dar entrevista. Outra ficou sem sair por quatro meses. Quando entramos em contato com a filha dessa empregada, ela desconversou:

“Minha mãe é tratada como da família, mas teve que ficar. Achei até bom, porque ela é do grupo de risco”.

A reportagem mapeou, fora desse raio de comentários, três confinadas em Salvador, mas elas também não quiseram dar entrevista. O Ministério Público do Trabalho, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Governo da Bahia e a Superintendência Regional do Trabalho discutiram, na última quinta-feira (15), possibilidades de ação para os casos de empregadas confinadas. Ainda não há conclusões. 

O Sindicato de Empregadas Domésticas da Bahia afirma ter recebido 28 queixas de empregadas sem direito de sair ou folgar durante a pandemia. Mas, ainda há uma dificuldade em convencer essas mulheres a denunciar. 

Das mulheres que entraram em contato com o CORREIO, só Carine aceitou contar o que viveu. Ainda assim, anonimamente. O medo é parte da rotina. E ele potencializa problemas que acompanham parte das domésticas e são agravados pelas atuais condições.

“A gente já via como essas mulheres tinham medo e como esse medo somatizava problemas de saúde mental” [no aparecimento de sintomas]”, diz Vilma Santana, médica epidemiologista professora do programa em Saúde Ambiental do Trabalhador da Universidade Federal da Bahia (Ufba), sobre o início dos seus estudos sobre  domésticas, nos anos 90.

Os transtornos de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental estão tradicionalmente associados ao emprego doméstico precarizado, explica Vilma. Até então, apareciam três fatores com impacto na psique delas: assédio e humilhação no trabalho, somados à vulnerabilidade social dessas mulheres, muitas das quais não queriam continuar como domésticas, mas precisavam. A pandemia é mais um, e o mais novo, fator. 

Na década de 60, o psiquiatra francês Louis Le Guillant foi o primeiro a estudar a relação entre o trabalho e a subjetividade das domésticas. O interesse pelo tema surgiu quando ele percebeu o número de empregadas entre os internados num hospital psiquiátrico francês.

Nos estudos dele, fica claro que a vivência de empregadas que passam a maior parte do tempo em casa que não são suas e humilhações sofridas  poderiam desencadear problemas psíquicos.

Depois de confinamento, é preciso reaprender a ser livre
Como não há uma política voltada para o acolhimento psicológico dessas trabalhadoras, não há como estimar quantas pedem ajuda. Geralmente, elas buscam os Centros de Atenção Psicossocial ou Centro de Referência da Assistência Social, mas não há levantamento de atendidos por profissão.

“Pautas como essa [do impacto na saúde mental] precisam virar política pública”, opina Hildásio Pitanga, coordenador da Agenda Bahia do Trabalho Decente, da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte. 

O acompanhamento, quando ocorre, é feito com a pessoa que tenha sido vítima em alguma situação e a família dela, conta Leisa Sousa, superintendente de Assistência Social da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia. “Todos são impactados por um tipo de situação que fere direitos”. O acolhimento  de pessoas que tiveram seus direitos feridos - como resgate de trabalho análogo à escravidão - é coordenado pelo órgão, que não traça um perfil comum delas.

"Eu até já pensei em denunciar, mas ficava pensando em que horas eu ia fazer isso" (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Esse atendimento o é necessário pois perder a liberdade, ou passar por períodos que a limitem, também dificulta o exercício do nosso ser, explica o psiquiatra e professor da Ufba, Antônio Freire. A pandemia traz, por si só, fatores de estresse que tornam  compreensíveis uma matemática que resume o sentido de saúde mental. 

“Existe uma dependência de fatores positivos e negativos. É uma balança. Nossos fatores de proteção, positivos, foram  limitados”, justifica o médico.

Mais fatores positivos, mais saúde. Menos, a balança pesa no sentido oposto. As empregadas domésticas que vivem em situação de confinamento total ou parcial na casa dos patrões precisam somar a perda de fatores de proteção ao estresse quase permanente. A balança quase sempre pesa negativamente

“É um  estresse, um medo a mais, até do desemprego. Começa a haver irritação, insônia, ansiedade, angústia”, elenca Freire.

No tempo em que ficou limitada ao trabalho, Carine também lembra de um sono agitado e insône. Agora, tem conseguido dormir melhor e, o mais surpreendente para ela, lembrar dos sonhos da noite anterior.

O psiquiatra estabelece uma conexão entre o estresse a que são submetidas algumas empregadas com a Síndrome de Estocolmo - afeição desenvolvida por algumas vítimas de agressão em relação ao algoz. As variáveis devem ser consideradas, mas ambas são situações com limitação da liberdade em que o agressor passa a ser visto como aquele a ser protegido, o que talvez até justifique parte do medo das domésticas de denunciar os patrões, e com quem se estabelece uma “simpatia”. 

O rompimento dessa bolha é, por isso mesmo, complexo. E quem sai desse casulo precisa reaprender a ser livre. “No caso das empregadas que saíram dessa situação, é um reaprender limitado pelas circunstâncias”, pontua Freire.
 
No dia a dia, Carine tenta enxergar a liberdade de outra forma, tendo prazer na banalidade - fazer o almoço, por exemplo. Às vezes, afinal, a liberdade pode ter  o sabor de batata-frita com refrigerante e ser tão simples quanto o prazer de passear numa loja de estofados.

*O nome e o rosto da entrevista foram preservados para manter sua identidade em sigilo a pedido dela.

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