Enem Digital começa a ser aplicado em 2020 e divide opiniões

bahia
04.07.2019, 06:00:00
Atualizado: 04.07.2019, 08:46:24
(Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Enem Digital começa a ser aplicado em 2020 e divide opiniões

Novo modelo vai economizar papel, mas logística preocupa especialistas

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O ano de 2020 nem chegou ainda e já está dando o que falar. Nesta quarta-feira (3), o Ministério da Educação (MEC) informou que no ano que vem 50 mil candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) farão a prova na versão digital. A mudança faz parte de um projeto que deverá ser concluído em 2026, quando 100% das provas serão online. A medida dividiu opiniões.

Segundo o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o objetivo é modernizar o processo seletivo, além de torná-lo mais ágil e econômico. Durante entrevista, em Brasília (DF), ele informou que 2020 não se trata de um teste, mas de uma aplicação-piloto, em que a avaliação das questões objetivas e a redação será online. Os 50 mil candidatos que farão o novo modelo correspondem a 1% da população do Enem.

“Há 100 anos, o Brasil faz exames de seleção da mesma forma, no papel. O que a gente quer é seguir o mesmo padrão que é feito lá fora (em outros países). A pessoa vai até o computador, se identifica, é feita toda a certificação, com segurança, faz a prova, e recebe todos os comprovantes para ter tranquilidade de que não terá nenhuma troca, fraude, etc. E com isso ganha-se muito mais agilidade, perspectiva para o futuro e adaptação”, disse.

Na prática, no momento de fazer a inscrição do Enem 2020, o candidato vai escolher se quer fazer a prova impressa ou a digital, sendo que o limite é de 50 mil vagas para o online nesse primeiro ano. O MEC não informou o que acontecerá se o número de estudantes que optarem pelo novo modelo for inferior ao estabelecido como meta.

Quem quiser participar da aplicação-piloto terá que correr um pouco mais com os estudos. Isso porque as provas digitais serão realizadas em outubro, enquanto a impressa continuará sendo feita em novembro. Em caso de problemas logísticos ou de infraestrutura, o candidato terá direito à reaplicação da avaliação, em papel, em dezembro. Cada uma das três provas terá questões diferentes e o investimento inicial é de R$ 20 milhões.

A prova digital será realizada em Salvador e outras 14 capitais: Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), João Pessoa (PB), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

Prós e contras
Para a doutora em Educação e professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Rosemary Oliveira, é preciso ter cautela. Ela defende que a antes de fazer esse tipo de mudança seria necessário rever a infraestrutura das escolas.

“Há uma tendência geral ao digital e não podemos negar que isso facilita a vida de muita gente, mas por outro lado, a gente sabe que o digital ainda não está tão bem organizado na nossa sociedade. É preciso ver com calma como vai ser esse processo. Tem uma questão estrutural que precisa ser amparada antes desta medida. Não vejo essa mudança com bons olhos, não com a estrutura de educação que o Brasil tem hoje”, afirmou.

A pesquisadora destacou que é preciso pensar também na formação dos estudantes. “A gente tem uma ideia de que todo mundo hoje tem intimidade com o meio digital. Tenho alunos que dominam bem os aplicativos de jogos, mas que têm dificuldade de lidar com ferramentas básicas como o word. É preciso entender que o público do Enem é muito mais variado que o de uma prova específica”, afirmou.

O objetivo do MEC é realizar até quatro aplicações de provas digitais por ano. Em 2021, serão realizadas duas versões, em datas distintas, agendadas previamente, e também opcionais. Em 2026, a versão em papel para de ser distribuída e o exame só será em formato online.

O coordenador do Sistema de Ensino pH, Fabricio Cortezi, que prepara estudantes para processos seletivos, acredita que a mudança proposta pelo MEC vai tornar a avaliação mais interativa, uma vez que será possível usar vídeos, games e outros recursos digitais, mas fez algumas ressalvas.

“A gente tinha algumas indicações de que a estrutura de aplicação da prova poderia mudar, e isso vem muito pela dinâmica e pelo custo que tem fazer provas impressas em um único dia, além da tentativa de otimizar o exame. Agora, a atenção de todo mundo estava voltada, nesse momento, nem tanto para a logística, mas para o modelo da prova. O que não foi explicado”, afirmou.

Cortezi disse que a avaliação digital não vai alterar a formação pedagógica dos estudantes, mas que o novo modelo vai exigir deles mais intimidade com o digital. Segundo ele, a vantagem desse sistema é que as notas são divulgadas com maior celeridade, e as logísticas de aplicação e segurança são mais simples.

“O que pode ser considerado um ponto desfavorável é o fato de que o aluno que está no 3º ano do ensino médio, hoje, não está acostumado a trabalhar com avaliação no computador. Ainda que ele faça um simulado ou outro em algum site, ele não está acostumado a ler e resolver provas em computador nem com a logística em que elas serão aplicadas”, disse.

Aplicador
O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, afirmou que o MEC não vai comprar os computadores que serão usados nas provas. A ideia é aproveitar os equipamentos disponíveis nas escolas e alugar outros espaços, uma decisão que será tomada pelo consórcio responsável pela aplicação da avaliação e que ainda será definido pelo governo.   

A gente fornece as informações da base instalada de computadores nas escolas e o aplicador pode alugar ou buscar outras salas. Por ser progressiva (a mudança para o online) a gente entende que as escolas, com o tempo, vão começar a se adaptar a aplicação de provas digitais. Isso já acontece em algumas delas, em que pessoas fazem as avaliações em tablets e notebooks, e a tendência é que isso se dissemine por todo o ensino”, afirmou.

Segundo o MEC, em 2019, mais de 10,2 milhões de provas serão impressas para o Enem. Os custos da aplicação superam R$ 500 milhões para os mais de 5 milhões de participantes confirmados nesta edição. O CORREIO perguntou quanto o Ministério estima economizar com a aplicação das 50 mil provas digitais, mas não houve retorno até o fechamento dessa reportagem.

Lopes afirmou que o digital vai possibilitar a avaliação também dos diversos itinerários previstos com a reforma do ensino médio. Não está descartada a possibilidade de novos locais para aplicar o Enem, inclusive aumentando o número de municípios.

“Quando a gente pensa em fazer uma prova impressa, procura salas com cadeiras com braço. Quando vai para o mundo digital, muda. Não precisa, necessariamente, ficar procurando escola, pode usar outras instituições que tenham disponibilizadas salas com infraestrutura de informática”, disse Lopes.

Em localidades mais distantes com restrições no acesso à internet o MEC informou que serão adotadas soluções especificas, mas não detalhou. A expectativa do Inep é de que o Enem Digital seja um incentivo para ampliar o número de computadores conectados nas redes de ensino de todo País. E consequentemente, aumentar o total de inscritos no exame.

Segurança
Em relação a segurança do novo modelo, tanto o ministro Weintraub como o presidente do Inep afirmaram que os estudantes não têm com o que se preocupar. Lopes lembrou que bandidos já tentaram burlar o Enem antes, e que o MEC tem um termo de cooperação assinado com a Polícia Federal para identificar quadrilhas que tentam fraudar o exame. Já o ministro foi taxativo.

“Evidentemente, a gente sempre tem que ficar atento porque bandido é criativo, ele vive pensando nisso, mas, hoje, a segurança e tecnologia que o Brasil tem permite tranquilamente fazer o Enem digital. Além disso, é só essa última etapa da aplicação que é analógica, todo o restante já é digital”, afirmou.

Os mais interessados no assunto, os estudantes, também estão divididos. Para Larissa Conceição, 21 anos, faltou mais detalhes sobre o novo processo. “Vai ser preciso internet para fazer a prova? Na minha escola quase nunca tem, e tem muitas cidades do interior que não tem nem tomada para tanto computador”, disse.

Já a amiga dela, Juliana de Jesus, 18, gostou da ideia. “Vai ser mais prático e acho que até mais rápido que o modelo atual”, contou.  A prova online de 2020 já tem data, ela será aplicada nos dias 11 e 18 de outubro (dois domingos) e terá o mesmo tempo que a impressa. Já o Enem para Pessoas Privadas de Liberdade (PPL) só passará ao formato digital a partir de 2026.


Enem 2019 segue sem alterações
As mudanças anunciadas pelo Ministério da Educação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 não alteram em nada a edição 2019. Em outubro, os participantes terão acesso ao cartão de confirmação, com os locais da avaliação, e nos dias 3 e 10 de novembro serão aplicadas as provas.

No primeiro dia serão testados os conhecimentos dos candidatos em Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Redação / Ciências Humanas e suas Tecnologias. No segundo dia, será a vez de Ciências da Natureza e suas Tecnologias / Matemática e suas Tecnologias. A publicação dos gabaritos e dos cadernos de questões acontecerá no dia 13 de novembro e os resultados individuais em janeiro de 2020, em data ainda a confirmar.

Na Bahia, 488 mil candidatos se inscreveram para fazer o exame, número maior que os 398 mil do ano passado. No Brasil, são mais de 5 milhões de participantes. No dia da avaliação é preciso levar documento de identificação original, oficial e com foto. Cópias, mesmo que autenticadas, não são permitidas.

O exame avalia o desempenho do estudante e permite o acesso à educação superior, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), Programa Universidade para Todos (ProUni) e instituições portuguesas. Ele também possibilita o financiamento e apoio estudantil, por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), além de autoavaliação e desenvolvimento de estudos e indicadores educacionais.

O exame é aplicado em dois domingos e tem quatro provas objetivas, com 180 questões, além de uma redação. Somadas as 21 edições já realizadas, o Enem recebeu quase 100 milhões de inscrições.

Confira o cronograma:
Outubro - Divulgação do cartão de confirmação com o local de prova;

3 de novembro - Prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Redação / Ciências Humanas e suas Tecnologias;

10 de novembro - Prova de Ciências da Natureza e suas Tecnologias / Matemática e suas Tecnologias;

13 de novembro - Publicação dos gabaritos e dos cadernos de questões;

Janeiro de 2020 - Resultados individuais;

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