Entenda como funcionará vacinação de portadores de comorbidades na Bahia  

salvador
09.04.2021, 05:00:00
Atualizado: 09.04.2021, 10:18:42
(Divulgação/Sesab)

Entenda como funcionará vacinação de portadores de comorbidades na Bahia  

Órgãos de saúde iniciam chamamento de pessoas com síndrome de down, transplantados e imunossuprimidos

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Com o avanço da vacinação contra a covid-19 na Bahia, algumas cidades já poderão seguir para a terceira fase, das pessoas com comorbidades. Até então, foram vacinados idosos acima de 60 anos, trabalhadores da saúde, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e outros grupos. Agora, a prioridade é para as pessoas com síndrome de Down, transplantados e imunossuprimidos. A decisão foi pactuada durante uma reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) realizada nesta quinta-feira (8). A CIB reúne representantes das secretarias municipais de Saúde e da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab).

Esses três grupos somam 32.541 pessoas no estado, segundo a Sesab. São 3.793 pessoas com síndrome de Down, 1.721 que fizeram transplante e outros 27.027 imunossuprimidos. De acordo com Eleuzina Falcão, da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Divep) da Sesab, esse quantitativo foi levantado com base na campanha de vacinação para influenza de 2020, a mesma que o Ministério da Saúde (MS) usa para fazer as estimativas populacionais de cada fase.

A priorização desses grupos dentro dos que têm comorbidade foi feita por conta da pouca quantidade de vacinas recebida, da gravidade dessas doenças e da fácil identificação delas pelos órgãos de Saúde. "As pessoas com síndrome de Down têm um relatório médico, têm um acompanhamento feito regularmante. O transplatado também, assim como o imunossuprimido, que normalmente é um paciente oncológico, que tem outros problemas de base e isso afeta diretamente a resposta imunológica deles", explica Eleuzina. 

Já os cardiopatas e hipertensos, por exemplo, seriam mais difíceis de serem identificados, por existirem níveis de gravidade das doenças. Além disso, eles somam um grupo bem maior, que não tem como ser imunizado ainda com a quantidade de imunizantes que chegam à Bahia. O total de pessoas com alguma comobirdade no estado é 952.507. Ou seja, seriam necessárias 1.905.014 vacinas. 

A divulgação para o chamamento desses três grupos para a vacinação será feita de acordo a estratégia de cada município. Quem não for cadastrado no Sistema Único de Saúde (SUS) e tiver acompanhamento pela rede particular poderá ter direito à vacina mediante apresentação de um relatório médico no posto de saúde. Eleuzina relembra que o sistema de saúde é único e, portanto, universal. Então, todos têm direito. 

Como já existe a estimativa pela base da campanha de influenza, as pessoas devem comparer à unidade de saúde após o chamamento de cada prefeitura. A divulgação cabe às secretarias de Saúde. "Os municípios pequenos já sabem e conhecem quem são. Já os grandes, poderão adotar estratégias através das equipes de Saúde da Família, promover na mídia e telejornais pedindo que compareçam. Isso depende de cada município, que vai atuar de acordo com sua realidade", detalha Falcão.

No entanto, nem todas as cidades poderão avançar para essa terceira fase nesta semana. Só poderão seguir aquelas que terminaram a vacinação dos outros grupos. Salvador, por exemplo, que ainda vacina os idosos acima de 62 anos, não iniciará a nova etapa. A Sesab não tinha o levantamento de quais cidades baianas são essas, nem Eleuzina, mas informou que algumas já avançam para esta fase nesta semana.  

"Hoje, pactuamos em CIB que vamos continuar vacinando os quilombolas, as forças de segurança e salvamento e os municípios que não concluíram a vacinação dos acima de 60 anos vão continuar vacinando esse grupo. Para aqueles municípios que não têm mais idosos acima de 60 anos para vacinar, nem quilombolas e já concluíram a vacinação das forças de segurança, nossa proposta foi começar com as comorbidades, trazendo, nesse momento, o grupo de pacientes transplantados, com sindrome de Down, e imunossuprimidos", detalha a diretora.

Prioridade da prioridade
Dentro desses três grupos, ainda há a uma outra priorização para os que têm síndrome de Down. "Não vamos vacinar os três. Cada município vai levantar os casos primeiro de sindome de Down, que é um número pequeno, entre 18 e 59 anos. Depois, quando acabar a vacinação deles, vamos levantar quantos pacientes são transplantados e, só depois, os imunossuprimidos. Dentro do grupo de comorbidade, temos outras. Mas, não podemos avançar, porque temos uma limitação no número de vacinas, então vamos devagar", reforça. 

Para a escolha de quais comorbidades serão vacinadas em seguida, uma nova reunião da CIB será feita - como é realizada a cada semana, quando chegam novas doses - para ajustar essa definição. O mesmo será feito em relação à inclusão de categorias ou a antecipação de outras, como os professores. "É sempre um passo de cada vez, sempre de acordo com a disponbilidade e produção das vacinas", conclui Falcão. 

MP-BA se procupa com comprovação das comorbidades
O Ministério Público da Bahia (MP-BA), através do Grupo de Trabalho para acompanhar as ações de enfrentamento do coronavírus (GT Coronavírus), demonstra preocupação com a fiscalização e comprovação das comorbidades pelos baianos. O GT Coronavírus teme a possibilidade de falsificações.

"O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19 especifica quais pacientes de determinadas comorbidades - e em que grau - farão jus a serem vacinados prioritariamente. Certamente, em muitos casos, haverá a necessidade de apresentação de atestados e relatórios médicos para comprovar o grau da comorbidade. O que externamos para a SMS [Secretaria Municipal de Saúde de Salvador] foi a preocupação quanto à possibilidade de atestados material e ideologicamente falsos", informa o órgão ao CORREIO. 

Para auxiliar essa comprovação, a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) contará com apoio do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb-BA). Segundo o Cremeb-BA, eles firmaram uma parceria com a SMS para "o desenvolvimento de uma plataforma em que o médico possa registrar que atesta a comorbidade dos seus pacientes". O sistema ainda não foi conluído, mas, em breve, serão divulgadas mais informações do serviço. 

Lista de comorbidades que terão prioridade na vacina contra covid-19 é divulgada pela prefeitura
A lista com todas as comorbidades incluídas com prioritárias para vacinação contra a covid-19 foi publicada na edição desta quinta do Diário Oficial do Município (DOM). A medida é o primeiro passo para a elaboração da estratégia de cadastro do público que será contemplado pela imunização na capital, como também será feito em outros municípios. A SMS não tem detalhes sobre o cadastro e programação do início da vacinação para esse público. 

“A publicação no Diário Oficial foi justamente para dar ciência de quais comorbidades estrarão na lista. Estamos definindo uma estratégia para realização do cadastro deste público, que será feito pelos médicos que atendem esses pacientes, e quais serão os documentos necessários para que o portador de cada patologia possa atestar o agravo no momento da vacinação”, destaca Doiane Lemos, subcoordenadora de Imunização da SMS.

Bahia vacinou 36,5% do público alvo
De acordo com um levantamento feito pelo CORREIO através dos dados da Sesab, a Bahia já vacinou 36,5% do público alvo das primeiras quatro fases da vacinação, em relação aos que tomaram a 1ª dose. Em relação aos que receberem a 2ª dose, a vacinação já atingiu 7,3% do público prioritário. Se analisada a população total, o número cai para 12,4% em relação aos que tomaram a 1ª dose, e para 2,5% em relação à 2ª dose. Saiba quantas pessoas de cada grupo foram vacinadas no final da matéria. 

Já em Salvador, a vacinação segue entre aqueles acima de 62 anos. Foram vacinados com a 1ª dose 425.677 pessoas, sendo 3.613 nesta quinta. Desses mais de 400 mil, 109.434 são trabalhadores de saúde e 316.243 são idosos. Em relação à segunda dose, ao todo 96.643 foram imunizados, sendo 3.787 nesta quinta. O esquema de vacinação contemplou 48.587 trabalhadores da saúde e 48.056 idosos. 

Novas doses de vacina chegaram à Bahia nesta quinta-feira (8)
Um novo lote de vacinas contra a covid-19 chegou à Bahia na manhã desta quinta-feira. Foram ao todo 281.400 doses, sendo 152 mil da Fiocruz/Oxford/Astrazeneca e 129.400 do Instituto Butantan/Sinovac, de São Paulo. Os imunizantes chegaram em solo baiano por volta das 9h45 da manhã. 

Municípios que concluíram vacinação dos idosos acima de 60 anos podem avançar para próxima fase das pessoas com comorbidades (Foto: Divulgação/Sesab)

Segundo o Ministério da Saúde, nessa leva, parte das vacinas deve ser destinada para a primeira dose dos agentes das forças de segurança e salvamento e Forças Armadas, e idosos entre 65 e 69 anos. Já a outra parcela dos imunizantes irá vacinar pela segunda vez trabalhadores da saúde e idosos entre 70 e 74 anos. 

Porém, os municípios que conseguirem avançar na vacinação dos idosos abaixo de 65 anos, podem seguir com a imunização, por ordem decrescente de idade, como é o caso de Salvador. Essa determinação também foi tomada pela CIB. Com esta nova carga, a Bahia totaliza 3.274.950 doses recebidas, entre Coronavac e Oxford, desde o dia 18 de janeiro, quando chegou a primeira remessa. Este é o décimo segundo envio ao estado feito pelo MS. 

As vacinas são enviadas imediatamente aos municípios, em uma operação que conta com aeronaves do Grupamento Aéreo (Graer) da Polícia Militar e da Casa Militar do Governador (CMG), logo após a conferência da carga pela equipe de imunização. As vacinas desta quinta foram enviadas apenas às cidades que aplicaram 85% ou mais das doses recebidas. Esta é mais uma decisão da CIB.

Além da população quilombola, profissionais das forças de segurança e idosos acima de 60 anos, pessoas com doença renal crônica em tratamento de hemodiálise também continuarão a ser vacinadas. Em um comparativo nacional, a Bahia está posicionada como segundo estado que vacinou o maior percentual da população, atrás somente de Minas Gerais.

Baianos vacinados e ansiosos
Uma bancária aposentada, que preferiu não se identificar, tem 60 anos e conta os dias para ter uma vacina para chamar de sua. Ela só sai para ir ao mercado - usando duas máscaras - e para o essencial. Nesse último ano, teve que abandonar o pilates e as sessões de acupuntura para evitar exposição, já que entrou para o grupo de risco. Todos os dias, ela acompanha as redes sociais da prefeitura para saber se o grande dia chegou. "Na minha cabeça, até quinta-feira eu tomava essa vacina, porque já estava em 62 anos na segunda e a gente fica ansioso, estou acompanhando pelas redes sociais e as filas pelo filômetro, que é uma plataforma muito boa", diz. 

Ela acredita que a vacina é o único caminho para voltar à normalidade. "O caminho é esse, não tem outro. Vou tomar, porque, primeiro, é um ato de solidariedade. Minhas filhas desde pequenas se vacinam e o Brasil é um país que erradicou a poliomielite por conta de uma vacina. Eu também sempre me vacinei e sou a favor da vacina. Agora, principalmente, porque é a última forma de voltar a se abraçar, sair, se encontrar com amigos", conta a aposentada. 

Essa alegria já chegou para a dona de casa Terezinha Chagas da Silva, 78 anos, que tomou a segunda dose da Coronavac na quarta-feira (7). A alegria é inclusive coletiva: foi compartilhada pelo neto no Twitter. "Passando aqui só pra dizer que tô muito feliz porque a pessoa que mais amo nesse mundo (tambem conhecida como minha vó) finalmente tomou a segunda dose da vacina", comemora Rafael Melo, 24 anos, estudante de design de interiores. 

Terezinha espera que com essa imunização possa voltar a frequentar à igreja de Terra Nova, bairro onde mora, coisa que deixou de fazer por conta da pandemia. "Desde o início, quando saiu a notícia da vacina, eu quis tomar, para me ver logo livre dessa doença e poder ir logo para a igreja, porque sou muito católica e ia toda semana, todo domingo. Vou levar um tempo sem sair, porque tem que passar alguns dias e, lá para o fim de abril, vou para a igreja", conta Terezinha, fazendo planos. Ela tomou a primeira dose pela vacina express, em casa. A segunda foi ao posto acompanhada da filha. Mãe de cinco mulheres e dois homens, ela já acumula 15 netos. Com as duas doses, se sente mais tranquila.
 
Como anda aprovação e importação da Sputink?
Questionada pelo CORREIO sobre o andamento da aprovação da vacina russa Sputnik - para que as 9,7 milhões de doses pudessem ser importadas para a Bahia -, Eleuzina Falcão, da Divep, disse que não tinha detalhes. Na quarta-feira, o governador Rui Costa disse ter saído da reunião extremamente insatisfeito e poderá recorrer à Justiça caso a resposta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) seja negativa.

A agência de vigilância sanitária, por outro lado, respondeu à reportagem que "o processo de compra de vacinas não é competência da Anvisa", e sim "do Ministério da Saúde e estados". O órgão disse ainda que "a destinação de doses importadas também não é competência da Anvisa, sendo atribuição do PNI [Plano Nacional de Imunização]". 

A Anvisa também argumentou que sua competência é fazer uma "avaliação técnica de eficácia e segurança, baseada nos dados e estudos disponíveis nos pedidos de autorização apresentados". Além disso, a agência disse que o pedido de importação feito pelos governadores do Nordeste, apresentado no dia 1 de abril, ainda está sob análise. 

Em relação aos dois pedidos emergenciais, o primeiro não foi analisado devido à falta de dados técnicos essenciais no processo. A Anvisa não detalhou quais seriam. Já o segundo pedido, enviado 26 de março, ainda em análise. 

População vacinada na Bahia (1ª dose) 
Trabalhadores de saúde - 372.555
Idosos acima de 90 anos - 68.025
Idosos entre 85 e 89 anos - 100.455
Idosos entre 80 e 84 anos - 161.881
Idosos entre 75 e 79 anos - 242.198 
Idosos entre 70 e 74 anos - 307.075
Idosos entre 65 e 69 anos - 382.482
Idosos em instituição de longa permanência - 14.794
Indígenas Aldeados - 18.703
Quilombolas - 27.404
Pessoas com deficiência - 1.050
Pacientes renais crônicos - 6.392
Forças de segurança e salvamento - 3.705
Total vacinados 1ª dose: 1.858.152
Total de doses distribuídas: 1.931.662
Percentual de doses aplicadas da 1ª dose: 96,2%
 
População vacinada na Bahia (2ª dose) 
Trabalhadores de saúde - 162.553
Idosos acima de 90 anos - 53.044
Idosos entre 85 e 89 anos - 56.722
Idosos entre 80 e 84 anos - 50.700
Idosos entre 75 a 79 anos - 23.002
Idosos entre 70 a 74 anos - 2.312
Idosos entre 65 a 69 anos - 576
Idosos em instituição de longa permanência - 6.835
Indígenas aldeados - 16.477
Pessoas com deficiência - 407
Total vacinados 2ª dose: 372.628
Total de doses distribuídas: 744.300
Percentual de doses aplicadas da 2ª dose: 50,1%

População vacinada em Salvador
Vacinados com 1ª dose: 425.677
Vacinados com 1ª dose nesta quinta (8): 3.613
Trabalhadores de saúde (1ª dose): 109.434
Idosos (1ª dose): 316.243
Vacinados com 2ª dose: 96.643
Vacinados com 2ª dose nesta quinta (8): 3.787
Trabalhadores de saúde (2ª dose) 48.587
Idosos (2ª dose): 48.056

Grupo de comorbidades
Diabetes
Pneumopatias crônicas graves
Hipertensão Arterial Resistente (HAR)
Hipertensão arterial estágio 3
Hipertensão arterial estágios 1 e 2 com lesão em órgão-alvo e/ou comorbidade
Insufiência cardíaca
Hipertensão Pulmonar
Cardiopatia hipertensiva
Síndromes coronarianas
Valvopatias
Miocardiopatias e pericardiopatias
Doenças da aorta, dos grandes vasos e fístulas arteriovenosas
Arritmias cardíacas
Cardiopatias congênita no adulto
Próteses valvares e dispositivos cardíacos implantados
Doença cerebrovascular
Doença renal crônica
Imunossuprimidos
Anemia falciforme
Obesidade mórbida
Síndrome de Down
Cirrose hepática

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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