Equipe de hospital procura famílias de pacientes 'ignorados' em Salvador

salvador
06.11.2017, 06:16:00

Equipe de hospital procura famílias de pacientes 'ignorados' em Salvador

Assistentes sociais do Hospital do Subúrbio viram 'detetives' para achar parentes

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Diante de sua mesa, numa sala da área administrativa do Hospital do Subúrbio, a assistente social Simone Alves encara uma missão difícil. Há sete anos como coordenadora do Serviço Social da instituição, ela já perdeu a conta de quantos pacientes chegaram ali sem identificação. Gente que, para boa parte da sociedade, não tem nome, prenome ou sobrenome. Não tem nem mesmo um apelido. Gente que sem nome até para dizer a si mesma. 

É aí que ela e uma equipe com outras 16 assistentes sociais entram em ação. Na última semana, tinham dois casos em mãos. Um era um homem que chegara no dia 26 de outubro, provavelmente vítima de um atropelamento em Boca da Mata. Esse, relativamente recente, ainda tem possibilidades a ser exploradas. Embora não tenha nada que indique quem seja, as assistentes sociais ainda têm a expectativa de descobrir de quem se trata com as impressões digitais. O enigma maior é o outro. 

A assistente social Simone Alves coordena equipe com 16 pessoas; uma das missões é encontrar famílias de 'ignorados' (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

O ‘outro’ é um jovem chegou no dia 15 de agosto, depois de ter sido trazido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Na época, o número 190 recebeu uma ligação e a Polícia Militar foi ao local, no bairro da Calçada. O homem foi encontrado já caído e inconsciente, com suspeitas de ter sido espancado e apedrejado. Deu entrada no hospital às 8h22. 

Desde aquele dia, o homem passou a ser o ‘paciente ignorado’ da Enfermaria. Ele não fala, não responde a estímulos. As sequelas da violência que sofreu parecem ter tirado, para sempre, a sua voz e a consciência sobre o que se passa à sua volta. Em todo esse tempo, ninguém procurou por ele. Mas Simone foi em busca – e continua– de alguém que, porventura, o esteja procurando. O procedimento padrão no hospital é esse: fazer de tudo para que o Ignorado passe a ser ‘Alguém’. 

Isso inclui, assim, até solicitar exame das impressões digitais. Normalmente, demora até 20 dias, mas uma hora chega. “Mas o (Instituto de Identificação) Pedro Mello demorou 20 dias para me dar um resultado negativo. Fomos em busca da ocorrência do 190, mas eles só tinham o contato da técnica do Samu que o atendeu e do cabo da PM que esteve lá. Eles já o encontraram assim”, conta Simone, citando o órgão estadual que realiza serviços de identificação. 

O tal resultado negativo significa que o Ignorado nunca fez um documento no estado da Bahia. Ou seja, provavelmente, trata-se de alguém de outro estado. Alguém que não parece ter mais do que 25 ou 30 anos e que tem uma tatuagem de uma flor em uma das pernas. A suspeita da equipe do hospital é que o homem era morador de rua. Além dessa suposição, ninguém tinha nenhuma pista. Simone já acionou lideranças da Cidade Baixa e até uma rádio comunitária. A essas pessoas, costuma mostrar uma foto do paciente em questão. Sempre espera que alguém diga que o conhece.

A foto do jovem também está com a Delegacia de Proteção à Pessoa (DPP), do Departamento de Polícia e Proteção à Pessoa (DHPP). Há até mesmo um grupo de Whatsapp que inclui as assistentes sociais e os profissionais da DPP. Simone ainda pediu apoio à Polícia Militar para que ajudassem na chamada ‘busca ativa’ – que, às vezes, é feita até mesmo por um profissional do Hospital do Subúrbio. 

Daniella Bonfim, Neliana Paixão, Luciana Amorim e Elane Tomaz fazem parte do time de 16 assistentes sociais (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

“Infelizmente, essa é uma situação muito comum, até porque somos um hospital localizado próximo à BR-324. E a gente sabe que tem alguém procurando por ele. Tem alguém com noite sem dormir, tem uma família preocupada, chorando. Eu sempre penso que deve ter alguém. Ninguém nunca é sozinho. Então, eu fico aqui pensando: o que mais eu posso fazer por esse homem?”, explica Simone. 

No fundo, Simone torce para que existe alguma alternativa. Algo que talvez não tenha lhe vindo à mente. Algo que dê ao Ignorado da Enfermaria o mesmo final feliz que Maria Suzana teve. 

A andarilha
Maria Suzana chegou ao Hospital do Subúrbio em junho deste ano. Tinha sido atropelada na BR-324. Não tinha documentos, nem nada que indicasse quem poderia ter sido antes de ser a Ignorada. Desconfiavam que fosse uma andarilha. Além disso, ela tinha uma condição psiquiátrica que fazia com que seus momentos de lucidez fossem raros. Paciente com AIDS, Maria Suzana não sabia quem era. 

Maria Suzana ficou internada no Hospital do Subúrbio após ser vítima de um atropelamento (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

O exame datiloscópico também não indicou nada. Possivelmente, Maria Suzana não era baiana. Todos os outros procedimentos padrões – pedir ajuda à polícia, às lideranças dos bairros próximos e até entrar em contato com rádios comunitárias – não deram em nada. Ainda era uma desconhecida. 

“Eu dizia para mim: ‘vou ter que achar a família dessa pessoa”, lembra Simone. Em um instante de clareza, Maria Suzana murmurou que morava na região da Madalena, bairro nobre de Recife (PE). Foi a deixa para que a equipe do Serviço Social contatasse os órgãos pernambucanos, inclusive buscando informações específicas sobre todo o distrito sanitário no qual a Madalena está incluída. 

“Ela trazia algumas informações, como esse local, mas tínhamos dificuldade em encontrar essa rede (da família). Mas a gente tem que fazer de tudo para encontrar alguém”, diz a assistente social Luciana Amorim, que, há três anos, faz parte do esquadrão de profissionais que tem, entre outras atribuições, a missão de encontrar uma saída – um nome, uma família ou um abrigo – para os pacientes ignorados. 

Já tinham se passado dois meses e a situação não mudava. Entraram, então, em contato com um canal de televisão da capital pernambucana – era a TV Jornal Recife, que fez uma matéria informando que um hospital baiano buscava a família daquela mulher ainda sem nome. Um dia depois da exibição da matéria, o telefone tocou. 

Era a irmã de Maria Suzana. “Ela estava procurando Maria Suzana há anos, mas não tinha recurso financeiro para vir buscar a irmã. Maria Suzana tinha saído de casa há três anos. Nesses momentos de surto, ela saía de casa”, explica Simone. Num desses momentos, não se sabe quando ao certo, veio parar em Salvador. 

Ela deixou três filhos em Recife, que estão sendo cuidados por sua mãe. “O mais incrível foi quando ligaram para cá. O caso de Maria Suzana foi um dos mais emblemáticos porque envolveu toda a equipe”, explica a também assistente social Neliana Paixão. 

Quando Maria Suzana teve alta, a dúvida era para onde ela iria. Embora ela quisesse voltar para as ruas, Simone tinha certeza de que isso não acontecer. Mesmo após o fim do tratamento, os pacientes que foram dados como ‘ignorados’ só saem quando têm algum lugar para onde ir. É a equipe do Serviço Social que tenta encontrar algum local que possa abrigá-los. 

“Sabendo de tudo que eu sabia (sobre as condições físicas e psiquiátricas da paciente), eu não podia deixá-la na rua. Tinha que dar dignidade a ela”.  No Hospital do Subúrbio, a partir do momento que um Ignorado tem seu nome conhecido, tudo muda. Prontuários, recepção, atendimento. Tudo passa a ter o nome da pessoa. 

A paciente Ignorada de junho saiu, em agosto, como Maria Suzana Conceição.  Ela foi encaminhada à Casa de Apoio e Assistência aos Portadores do Vírus HIV (Caasah), na Boa Viagem. Antes disso, Simone tentou que ela fosse abrigada por outras instituições – filantrópicas e públicas – mas a maioria tinha restrições, especialmente porque, após ter sido atropelada, Maria Suzana precisa voltar semanalmente ao Hospital do Subúrbio para acompanhar o tratamento na perna direita.

Depois de encontrar Maria Suzana no Caasah, a equipe do CORREIO voltou ao Hospital do Subúrbio. Lá, o repórter fotográfico Evandro Veiga mostrou, às assistentes sociais, a foto de Maria Suzana tirada pouco antes, naquele mesmo dia. Ao verem a figura de corpo forte e sorriso sincero totalmente diferente da figura esguia que tinha se tratado ali há alguns meses, a reação foi de puro contentamento. 

Uma delas, a assistente social Elaine Tomaz, comentou que, na última revisão, Maria Suzana já tinha deixado todas felizes ao aparecer mais corpulenta. A colega Daniella Bonfim, sintetizou, então, a emoção: “O retorno por vê-la assim, para a gente, é gratificante. Significa que a missão foi cumprida”. 

Saiba mais sobre a história de Maria Suzana

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Eles também chegaram como 'ignorados' ao hospital

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

O jovem que chegou no dia 15 de agosto aparenta ter entre 25 e 35 anos. Ele foi levado ao Hospital do Subúrbio por uma ambulância do Samu, após uma ligação recebida pelo serviço 190 e atendida no local pela Polícia Militar. Ele foi encontrado caído no bairro da Calçada e a suspeita do Serviço Social é de que se trata de um morador de rua que foi espancado e apedrejado. As impressões digitais dele não foram reconhecidas pelo Instituto de Identificação Pedro Mello, o que sugere que seja natural de outro estado. 

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Um homem que aparenta ter entre 40 e 50 anos chegou na unidade no dia 26 de outubro. A suspeita é de que tenha sido vítima de um atropelamento no ‘Pistão’ de Boca da Mata. Quando as assistentes sociais contataram o Samu, descobriram que o pedido de socorro veio de uma ligação do celular de um transeunte, a quem um motociclista teria pedido ajuda. O motociclista teria avistado o homem caído e pediu ajuda a uma pessoa que passava para ligar para o Samu. A equipe ainda aguarda o resultado do exame datiloscópico. 

Se você conhece essas pessoas, entre em contato com o Hospital do Subúrbio através do telefone (71) 3217-8600. 

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DPP estuda divulgar imagens dos pacientes que chegam como ignorados aos hospitais
Por enquanto, as fotos dos pacientes com identidade ignorada que chegam aos hospitais de Salvador ainda não são divulgadas nas redes sociais e site da Delegacia de Proteção à Pessoa (DPP), como acontece com pessoas desaparecidas. No entanto, isso deve mudar em breve, de acordo com a delegada Heloísa Simões, titular da unidade. 

“A  ideia é ajustar essa questão, porque pode ser um paciente em estado de coma, sem condições de verbalizar e que o Instituto Pedro Mello não tenha conseguido fazer a identificação”, explica. 

Por reconhecer que é uma ‘utilidade pública’ é que há um movimento para que o procedimento padrão mude. Por isso, até o fim do ano, há reuniões previstas com representantes das unidades de saúde e com o Ministério Público do Estado (MP-BA). “A gente vai padronizar os procedimentos envolvendo ocorrências de pessoas desaparecidas”. 

Hoje, não existe mais aquela limitação para que pessoas desaparecidas sejam registradas apenas 24 horas após o crime, devido à lei estadual 11.259/2005. “Pelo contrário, a lei trata que, no caso de desaparecimento de criança e de adolescência, tem que ser feita, de imediato, a comunicação para a Polícia Civil”, diz a delegada. Embora a lei cite apenas crianças e adolescentes, esse também é o padrão para desaparecimentos de adultos e idosos. 

Em todo caso, a recomendação da polícia é que a família faça buscas pessoais nos hospitais e, caso a pessoa não seja encontrada, procurar a sede do DPP, que fica no prédio do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), localizado na Rua das Hortênsias, na Pituba.

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