'Está em jogo a minha vida', diz Xexéu ao ser internado para reabilitação

salvador
02.10.2019, 18:00:00
Atualizado: 03.10.2019, 10:42:07

'Está em jogo a minha vida', diz Xexéu ao ser internado para reabilitação

CORREIO conversou com ex-Timbalada em sua casa e ao dar entrada em clínica

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

'Não posso viver mais assim', comentou Xexéu, 45 anos, ao dar entrada no projeto Manassés (Foto: Bruno Wendel/CORREIO)

O short jeans desfiado vestia o rapaz franzino de 18 anos. Com o corpo pintado, fazia movimentos sensuais ao mesmo tempo em que puxava nos trios e nos shows pelo Brasil e mundo afora a Timbalada, uma das maiores bandas da axé music. 

Sucesso nos anos 90, o ex-timbaleiro Xexéu, hoje com 45 anos, foi filmado recentemente de uma forma bem diferente da imagem que o público guardava dele. Pedindo dinheiro, ele aparece numa localidade do Complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador, sem os dentes, machucado e, aparentemente, sob efeito de drogas. 

A repercussão do vídeo fez Xexéu enxergar que sozinho não dava para lutar contra a dependência química. Na manhã desta quarta-feira (2), o cantor assinou um contrato pela vida, aceitando a internação numa clínica de reabilitação na Praia de Ipitanga, em Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (RMS).

"Não está em jogo o meu sucesso, a minha carreira, e sim a minha vida, minha saúde mental. Eu devo isso a minha família, aos meus fãs e a mim, principalmente. Preciso me tratar para poder voltar a cantar", disse Xexéu ao CORREIO, antes de ser internado.

Acompanhamento
Antes de ser internado, acompanhamos um pouco da rotina de Alfredo Santos Cerqueira Filho, o Xéxeu, em sua casa no Nordeste de Amaralina, periferia de Salvador. Lá, ele falou sobre o problema com drogas e a decisão de retomar a carreira de cantor.

Ele e sua mãe, Onorina Oliveira Sales, 66, receberam nossa equipe na modesta residência que fica na Rua do Leste, por volta das 10h. Prepostos da Instituição Manassés, centro de tratamento para dependentes químicos, também chegaram no mesmo momento.

Visivelmente abatido por conta das medicações que toma para controlar a ansiedade, Xexéu falou sobre a repercussão do vídeo, que o CORREIO optou por não publicar.

“Por um lado foi bom porque trouxe ajuda, mas por outro foi uma falta de respeito ao ser humano, deixando a imagem do artista exposta, mexendo também com toda a família”, afirmou o cantor, que tem dois filhos, um de 26 e outro 24 anos de idade.

(Foto: Bruno Wendel/CORREIO)
(Foto: Bruno Wendel/CORREIO)

Xéxeu disse que o sucesso e a ausência do pai, que morreu quando ele tinha 8 anos, foram algumas das circunstâncias que o levaram a usar drogas.

“Não foi só a fama. Perdi meu pai muito novo. Isso mexeu muito comigo. Não tive quem pudesse cuidar da minha carreira, para poder me dar um direcionamento, e a gente termina experimentando”, declarou, mas sem tirar a própria responsabilidade. 

“Não posso culpar ninguém, foi uma vontade própria. Ninguém lhe obriga a usar droga e experimentei. Mas não sabia que o meu organismo era predisposto e, quando fui ver, já tinha virando um indigente. Daí foi a minha primeira internação”, relatou o artista, que já se internou três vezes – a última há quase um ano.

“Consegui me segurar, mas tive recaídas e isso machuca muito a família. E a gente fica refém, tenta sair, mas não consegue, como se fosse uma cadeia. Mas hoje tenho fé que será diferente”, declarou ele, usando uma camisa preta com a imagem de Jesus Cristo.

Xéxeu disse que nunca usou crack. O semblante sofrido e a ausência de alguns dentes são efeitos de outras drogas, como álcool, cigarro e cocaína.

“Nunca usei crack, como dizem por aí. Passei 14 anos sem beber e sem fumar. Estava fora, mas voltei para Salvador e tive as recaídas. Mas acredito que isso faz parte do tratamento. Agora é bola pra frente, sair dessa com saúde e muita força para poder voltar a cantar e alegrar os nossos fãs. Não é só o Xéxeu, mais de 40% da população brasileira é dependente de alguma droga como cigarro, álcool e drogas”, observou.  

O ex-vocalista da Timbalada também falou sobre o futuro. “Já vivi muito o sucesso e isso não me preocupa hoje. Sou um cara muito tranquilo quanto a isso. É claro que a gente quer estar no palco, mas acredito que o primeiro momento agora é cuidar de mim. Se eu não estiver bom, como irei produzir? É ficar bom para poder fazer um trabalho bacana, um visual bacana. Agora, acredito que estarei muito mais forte, preparado para o Verão 2021”, declarou, otimista.

Patrícia
Considerada também um símbolo da Timbalada, a ex-integrante Patrícia Gomes ficou abalada com o vídeo de Xéxeu e decidiu ajudá-lo.

"Nossa amizade não nasceu da Timbalada. Já nos conhecíamos antes, inclusive fui eu que o levei para a banda. Eu o tenho como irmão e vê-lo daquele jeito destruiu meu coração. Então, montei uma rede de amigos de Xéxeu e chegamos à Manessés. Estamos aqui por ele", comentou a cantora, visivelmente emocionada.

Patrícia disse que Xéxeu sempre foi uma pessoa "dada" e isso, para ela, talvez tenha facilitado o acesso às drogas e seu consumo abusivo.

"Ele, pelo fato de ser uma pessoa muito acessível, muitas coisas chegaram a ele com facilidade. Muita coisa aconteceu pelo fato da abertura que ele dava. Eu, no meu caso, não. Tinha meus pés no chão, não me deslumbrava. Acreditava muito em Deus e era conhecida no grupo como a artista do contra, não dizia 'amém' para tudo", relembrou.

A parceira de Xexéu na Timbalada aposta no retorno dele e pretende retomar o projeto Trem de Pouso, trio que formou junto com ele e com Ninha, outro ex-timbaleiro. "Há pouco mais de um ano a gente teve que parar por causa de alguns problemas, e a dependência química de Xexéu era um deles. Hoje, cada um segue carreira solo, mas temos o desejo de retornar os três juntos", revelou Patrícia.

Internação
Depois de uma conversa com integrantes do centro de reabilitação, Xexéu aceitou a internação de maneira formal.

"Não posso viver mais assim, levando sofrimento às pessoas", afirmou, após fumar o que ele chamou de "último cigarro".

Em seguida, abraçou e cochichou no ouvido da mãe, Onorina. "Não chore. Estou indo para recomeçar", disse ele, enquanto enxugava as lágrimas da mãe. "Eu não tenho palavras para explicar o que estou sentindo", afirmou Onorina.

Ao cruzar a porta de casa, vizinhos e fãs abordavam o cantor e desejavam "boa sorte".

"Obrigado. Fazendo isso por mim e por vocês também, que me encorajam", disse Xexéu para um grupo de jovens.

Por volta do meio dia, o cantor chegou à unidade do Instituto Manassés. “A imagem que as pessoas têm do usuário de drogas é a pior possível. Elas ainda não entendem que a dependência química é uma doença”, explicou o diretor do instituto, Felipe Manassés.

O tratamento de Xexéu começou com a internação imediata na unidade de Ipitanga. “Aqui, ele passará por entrevistas com especialistas, como psicólogos, e depois deverá ser encaminhado para a unidade fora de Salvador. Desta forma ele ficará distante do convívio de outras pessoas e assim facilita o tratamento”, completou Felipe.

O Instituto Manassés tem 28 unidades no país e todo o serviço de reabilitação é gratuito. “Aqui, basta o dependente querer”, finalizou Felipe.

*Colaborou Gabriel Amorim.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas