Estudante da Ufba denuncia machismo em módulos de cursinho de Medicina

salvador
17.02.2017, 15:00:00
Atualizado: 17.02.2017, 16:15:00

Estudante da Ufba denuncia machismo em módulos de cursinho de Medicina

O material é do cursinho preparatório para residência médica Medgrupo, que tem unidades em seis cidades baianas. Grupo disse que não pedirá desculpas por publicações

Um material de estudo para futuros residentes de Medicina que diz que uma mulher “de muitos atributos é disputada pelos gringos”. Na página seguinte, o livro afirma que outra jovem tem um corrimento vaginal com odor de “peixe podre” que faz com que ela não consiga “segurar nenhum namorado”. Depois, uma mulher aparece vestida em trajes sensuais, numa espécie de fantasia de diabinha – com uma crítica implícita a alguém que, depois de ser traída em um relacionamento abusivo, decidiu que viveria com mais liberdade. Tudo para que, ao final, o estudante responda qual é a sua hipótese diante do quadro clínico das pacientes fictícias.

O material em questão é do cursinho preparatório para residência médica Medgrupo, que está presente em todos os estados do Brasil. Só na Bahia, há unidades em seis cidades: além de Salvador, há cursinhos em Feira de Santana, Guanambi, Itabuna, Irecê e Vitória da Conquista. Esta semana, imagens dos módulos causaram revolta e polêmica nas redes sociais depois que uma estudante de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) fez uma postagem na internet criticando a forma como o conteúdo foi abordado, com uso de ilustrações e comentários machistas. 

Numa das páginas, uma jovem com vaginose bacteriana é associada a alguém que não consegue "segurar nenhum namorado" (Foto: Reprodução)

No início da semana, a estudante Heloísa Cohim publicou, em seu perfil no Facebook, fotos das páginas dos módulos, acompanhadas de um e-mail que enviou ao Medgrupo. Na postagem, ela se identifica como aluna do 8º semestre do curso e conta que está estudando sobre Ginecologia e Obstetrícia e, por isso, começou a usar o material do Medgrupo cedido por colegas já residentes. 

O caso de uma jovem que sai de um relacionamento abusivo
é ilustrado por uma mulher seminua

(Foto: Reprodução)

“No entanto, tive o desprazer, logo nas primeiras páginas do MED 2013: Síndromes de Transmissão Sexual, de ser exposta a casos clínicos com comentários machistas, e ilustrações que expõe o corpo feminino de maneira vulgar! Em certo caso, uma mulher era vítima de um relacionamento abusivo e, após traição e término do relacionamento, decidiu desfrutar da sua liberdade, tal cena é retratada com um desenho de uma mulher seminua fantasiada de ‘diabinha'", escreveu. 

Ela ainda cita outro caso: a paciente que tinha vaginose bacteriana, que é representada pelo desenho de uma mulher seminua com peixes em cima do corpo, além de um homem tampando o nariz. “Além disso, a última frase do caso relata que um dos testes necessários para o diagnóstico não foi realizado, porque o médico ficou 'tão enjoado' que o diagnóstico era evidente”.

Ao Medgrupo, a estudante disse que “gostaria de entender os objetivos de tais casos clínicos com tamanha falta de humanidade, bom senso e carregados de tanto machismo e julgamento”, sem deixar de reforçar que muitos jovens brasileiros têm acesso ao conteúdo. 

"Politicamente incorretos"
Heloísa postou, ainda, a resposta do cursinho. Em um e-mail encaminhado a ela, o Medgrupo afirma que é “contra a agenda do politicamente correto”. Na mensagem, o grupo ainda diz sugerir aos eventuais estudantes a não utilizarem os módulos se não concordarem com a forma como ele é escrito. 

Procurado pelo CORREIO, o Medgrupo confirmou que os módulos são mesmo produzidos por eles, mas que não tinham intenções negativas. Segundo eles, o material de estudo do curso tem estilo “lúdico”. O Medgrupo reforçou que não vai comentar o caso nem pedir desculpas, mas afirma que, nos próximos materiais, evitarão o uso desse tipo de exemplo, para não haver mais mal-entendidos. 

Para a estudante que denunciou o material, um dos casos chega a fazer apologia ao turismo sexual
 (Foto: Reprodução)

Depois de toda a repercussão, a estudante baiana que denunciou os módulos, Heloísa Cohin, alterou as configurações de privacidade da postagem, tornando-a visível somente para seus amigos. Mesmo assim, o texto já tinha sido replicado por outras páginas, inclusive de temáticas ligadas ao empoderamento feminino. 

Alunos do Medgrupo em Salvador também vêem machismo
Uma estudante de Medicina de 24 anos que faz aulas no Medgrupo em Salvador disse ao CORREIO ter ficado decepcionada quando viu o material publicado nas redes sociais. Apesar de frequentar as aulas do Medcurso - um dos cursos oferecidos pelo Medgrupo - desde o início do ano, ela conta que só recentemente começou a estudar os temas relacionados à saúde da mulher. Portanto, não teve contato com os módulos fotografados por Heloísa. 

"Achei bem machista. Não concordo e acho que a gente pode abordar um tema da área de saúde sem ser desumano, nem perverso. Não entendo por que a apostila do Medgrupo contém esse tipo de conteúdo tão ofensivo", afirmou a jovem, que reforça que, até então, não tinha se deparado com nada nos materiais que fosse motivo de crítica do tipo nem que a tenha deixado ofendida em qualquer aspecto. 

"Várias cidades do Brasil têm a rede Medgrupo, então é preocupante. Eu fico tão chocada que não tenho nem palavras. Em pleno séxulo XXI, a gente vê isso de uma rede que deveria estar preocupada com humanização, com ensino da Medicina... Nota zero", completou. A mensalidade do curso, que dura até um ano, custa em torno de R$ 1 mil.

Em seu site, o Medgrupo garante que, a cada dez aprovados em residências médicas pelo Brasil, nove fizeram algum de seus cursos. Diante disso, outro estudante de Medicina também de 24 anos que faz o Medcurso conta que a empresa tornou-se uma espécie de "potência no mundo médico". "Praticamente todo mundo faz. Virou uma regra e acaba complementando nossa formação". 

Segundo ele, o material divulgado na internet é do curso chamado M.E.D. O estudante conta que há quem diga que os módulos são "caricatos" para ajudar os ajudantes a "decorar" os assuntos. "Essa é uma postura inadequada. Querendo ou não, eles são grandes formadores de opinião. Só na minha turma, em Salvador, são 500 alunos e é o tipo de coisa que naturaliza um discurso sexista". 

O estudante conta que não foi a primeira vez que se incomodou com algo apresentado nas apostilas. "Me incomoda a forma como eles tratam os médicos de família, colocando o médico de família num lugar estranho. Dão o exemplo que 'a médica de família pega seu Chevette ano sei lá quanto para trabalhar ou ver seu namorado Creisson' tentando estigmatizar. Durante as aulas, eles também fazem piadas 'ah, não pode falar isso porque agora tudo é politicamente correto e vou receber email dizendo que sou machista'. Eles fazem essas piadinhas e todo mundo ri. Estão naturalizando um discurso bizarro", apontou. 

Nas redes sociais, o material foi duramente criticado. Na página da Associação Artemis - uma organização não-governamental que luta pelo fim da violência contra a mulher -, uma das que replicaram o post original, no Facebook, centenas de mulheres se manifestaram contrariamente. 

"Respeito e ética agora virou politicamente correto? Achei que fosse o mínimo que se devia ter", escreveu uma usuária. "E assim são formados os ginecologistas do nosso país. Aqueles mesmos que acham que violência obstétrica é bobagem!", escreveu outra, entre os mais de 10 mil que compartilharam a publicação.

Algumas criticaram a existência de uma "narrativa" contando detalhes da vida de pacientes para detalhar casos clínicos. "Ao ler toda a historinha misógina criada para falar das pacientes, não há praticamente nada que justifique tudo aquilo para uma simulação de diagnóstico. Pra quê o médico precisa saber que a passista é conhecida como 'mulher pera' e é famosa entre os gringos??? O que ele precisa saber são as dores que ela sente e a sua desconfiança de estar se machucando por causa do atrito que a fantasia causa. Todo o resto pode ser dispensado facilmente. O mesmo ocorre nos outros casos. Isso daí é misoginia pura", completou uma terceira jovem. 

Leia a mensagem de Heloísa enviada ao Medgrupo na íntegra: 

"Prezados,

Sou acadêmica de medicina da Universidade Federal da Bahia e estou no 8º semestre. Na nossa grade curricular é neste semestre que temos contato com a ginecologia e a obstetrícia. Por conta disso, comecei a utilizar alguns módulos do Medgrupo cedidos por colegas já residentes para estudar os conteúdos.

No entanto, tive o desprazer, logo nas primeiras páginas do MED 2013: Síndromes de Transmissão Sexual, de ser exposta a casos clínicos com comentários machistas, e ilustrações que expõe o corpo feminino de maneira vulgar! Em certo caso, uma mulher era vítima de um relacionamento abusivo e, após traição e término do relacionamento, decidiu desfrutar da sua liberdade, tal cena é retratada com um desenho de uma mulher seminua fantasiada de "diabinha".

Em outro caso, uma menina portadora de vaginosa bacteriana (um sofrimento, vale ressaltar) é retratada em um desenho de uma mulher seminua com vários peixes em cima do seu corpo e um homem de nariz tampado devido ao mal cheiro. Além disso, a última frase do caso relata que um dos testes necessários para o diagnóstico não foi realizado, porque o médico ficou "tão enjoado" que o diagnóstico era evidente.

Por fim, o último caso relata uma passista de escola de samba que era: " charmosa, de muitos atributos e sempre disputada pelos gringos". (turismo sexual?)

Gostaria de entender os objetivos de tais casos clínicos com tamanha falta de humanidade, bom senso e carregados de tanto machismo e julgamento.

Muitos jovens do Brasil têm acesso a esses conteúdos, ou seja, os senhores são formadores de opinião e devem se responsabilizar mais por isso.

Espero que as novas edições não apresentem tais absurdos.

Grata."

Confira o e-mail que a estudante baiana recebeu como resposta do Medgrupo: 

A estudante postou o print da resposta que recebeu do Medgrupo (Foto: Reprodução)

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