Estudo mostra que 11 bairros de Salvador têm vulnerabilidade muito alta para covid-19

coronavírus
24.06.2020, 05:15:00
Atualizado: 24.06.2020, 09:00:10

Estudo mostra que 11 bairros de Salvador têm vulnerabilidade muito alta para covid-19

Localidades dentro dos bairros possuem preocupantes condições sociais, habitacionais e de saúde

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Dos 163 bairros de Salvador, só três não registraram ainda casos da covid-19: Mangueira, Jaguaripe e Porto Seco Pirajá. Embora a presença do do novo coronavírus seja confirmada praticamente na cidade toda, há localidades que vivem uma situação ainda mais delicada. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (Ufba) aponta que há 11 bairros da capital que estão em uma situação muito mais vulnerável a infecção: Cassange, São Cristóvão, Nova Brasília, Valéria, Paripe, Fazenda Coutos, Coutos, São Tomé de Paripe, Periperi, Nova Constituinte e São Marcos. 

“Aqui na minha rua falta água pelo menos uma vez na semana. Faltou ontem (anteontem)”, diz a estudante Vanessa Costa*, moradora de Fazenda Coutos, que está na lista dos 11 bairros que possuem vulnerabilidade muito alta à covid-19 em Salvador, segundo estudo realizado pelo grupo Geocombate Covid-19, da Ufba. “Aqui temos dois tanques para evitar ficar sem água. Já tivemos que ajudar os vizinhos, que não possuem essa estrutura”, disse. A assessoria da embasa explicou ao CORREIO que o uso de reservatórios é normal e recomendado pelo órgão, “pois quando há problema na rede ou diminuição de pressão, a residência permanece abastecida”.  

A irregularidade no serviço de abastecimento de água potável foi um dos fatores utilizados pelo grupo de pesquisa GeoCombate Covid-19, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no cálculo do índice de vulnerabilidade dos bairros. Esse dado foi fornecido aos pesquisadores pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), que calculou o total de denúncias feitas por bairro desde abril, época do início da pandemia.  

Esse fator corresponde a uma dimensão maior utilizada no cálculo, a das condições habitacionais, que corresponde ainda às características da própria moradia e do ambiente urbano no entorno. Além dessa, os pesquisadores utilizaramm a dimensão socioeconômica, relacionada às condições de trabalho e renda, e de saúde, que diz respeito às doenças preexistentes naquele bairro, principalmente àquelas de maior letalidade junto a covid-19.  

“Na literatura, nós observamos que os problemas de saúde, particularmente o do novo coronavírus, é sensível a essas três dimensões”, explicou o professor Juan Moreno, que liderou a pesquisa. “Estudos mostram que nos bairros com piores condições sociais, por exemplo, as pessoas não têm acesso a uma alimentação de qualidade, o que favorece o surgimento de comorbidades”, explicou.  

Para quantificar essa realidade, o grupo utilizou os números de internações por bairro para hipertensão e diabetes entre 2013 e 2019, segundo os dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). Para as outras dimensões, foram utilizadas informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Quando se combinam todos os dados, observamos o impacto numa determinada localidade”, disse o professor Moreno. 

Números
No cálculo feito pelos pesquisadores, as dimensões não tinham o mesmo peso: a habitacional correspondia a 20% do índice, enquanto a socioeconômica era de 67% e a da saúde tinha 13% do cálculo. “Estabelecemos essa diferença com base em entrevistas que realizamos com especialistas e líderes comunitários”, explicou Juan. Quando o bairro atinge um índice de vulnerabilidade entre 50% e 70%, o valor já é considerado alto. Acima de 70, a situação já é preocupante.  

Índice de vulnerabilidade à covid-19 em Salvador (Mapa: GeoCombate covid-19 Bahia) 

"A gente não divulgou o índice exato de cada bairro, pois nosso objetivo era sair desse limite estabelecido em lei pelo município e focarmos nas localidades de cada bairro”, explicou a professora Patrícia Lustosa, que faz parte do grupo de pesquisa. Isso significa que o estudo buscou identificar regiões mais precisas dos bairros, que possuem mais vulnerabilidade do que outras, “o que reflete também as desigualdades que existem em cada local”, como explicou o professor Juan. 

“Eu mesmo moro no Parque São Cristóvão, uma localidade do bairro de São Cristóvão. Sei que a minha rua é menos vulnerável, pois fica afastada do centro comercial do bairro”, explicou o desenvolvedor de software Vinicius Dias, 24 anos. Mesmo com a falta de água em sua casa, Vanessa reconhece que Fazenda Coutos possui regiões mais vulneráveis. “São invasões, local sem saneamento básico ou condições mínimas de dignidade”, disse.  

Para o pesquisador Juan Moreno, o cálculo desse índice de vulnerabilidade é importante para que o poder público se faça presente justamente nesses locais mais afetados. “Atender às localidades de maior vulnerabilidade é antecipar a ação pública naquele local para que a doença não chegue e acabe com as vidas. As políticas públicas tem que ser instaladas antes do estrago ter chegado”, disse.   

Nova Brasília teve crescimento de 83% nos casos de covid-19 entre 2 e 23 de junho (Foto: Marina Silva/CORREIO)

De acordo com os dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde, os 11 bairros com taxa de vulnerabilidade muito alta tiveram também aumento nos casos de coronavírus entre os dias 2 e 23 de junho. Três desses bairros tiveram altas taxas de crescimento, superior a 100%. É o caso de Periperi (359,72%), São Cristóvão (167,35%) e Valéria (122,95%). Confira no final do texto a lista dos 11 bairros com o número atual de casos e a taxa de crescimento em junho.  

No entanto, o pesquisador Juan Moreno alerta que o alto índice de vulnerabilidade não necessariamente significa mais casos de coronavírus. “Nos locais que ainda não tem muitos casos, é o momento oportuno do poder público atuar nessa região com campanhas educativas, antes que a doença chegue”, afirmou.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS)  vai fazer uma reunião particular nessa quarta-feira (24) para tratar dos problemas abordados pelos pesquisadores. Moreno afirma ainda que o MP-BA já está intermediando uma reunião entre o poder público com o grupo, para que os esforços sejam alinhados. Isso é o que o grupo de pesquisa mais deseja.

“Foi muito difícil conseguirmos os dados necessários para a pesquisa. A Bahia necessita urgentemente de uma plataforma que integre os dados georreferenciados. Isso é fundamental para analisarmos os próximos problemas sociais que possam surgir”, defendeu.  

Isolamento 
Com base nos dados disponibilizados pela empresa InLoco, que utiliza um serviço de geolocalização dos dispositivos móveis para calcular o índice de isolamento social no Brasil, o estudo da Ufba também apresentou um mapa com o índice de isolamento dos bairros de Salvador.  

Na ocasião, o grupo verificou que a totalidade dos bairros identificados como de mais alta vulnerabilidade se situam nas faixas mais baixas de isolamento.

“Isso amplifica o problema social causado pelo novo coronavírus, pois a combinação de baixo isolamento com alta vulnerabilidade é um duplo risco para a população”, disse Moreno. Confira o mapa de isolamento em Salvador:  

(Mapa: GeoCombate covid-19 Bahia) 

Casos de coronavírus nos 11 bairros de Salvador com maior índice de vulnerabilidade:  

- São Marcos (passoa por medida restritiva de isolamento social até 26/06) 
Casos em 02/06: 230 
Casos em 23/06: 451
Taxa de crescimento: 96,09% 
População: 28.591 
Incidência por mil habitantes: 15,77
Recuperados: 203

- Paripe (passa por medida restritiva de isolamento social até 30/06) 
Casos em 02/06: 172
Casos em 23/06: 340
Taxa de crescimento: 97,67% 
População: 55.039 
Incidência por mil habitantes: 6,18
Recuperados: 148

- Periperi (já passou por medida restritiva de isolamento social) 
Casos em 02/06: 72 
Casos em 23/06: 331
Taxa de crescimento: 359,72% 
População: 47.179 
Incidência por mil habitantes: 7,02
Recuperados: 173

- São Cristóvão (Vai passar por medida restritiva de isolamento social a partir de 25/06) 
Casos em 02/06: 98 
Casos em 23/06: 262
Taxa de crescimento: 167,35% 
População: 53.906
Incidência por mil habitantes: 4,86
Recuperados: 98

- Coutos 
Casos em 02/06: 118 
Casos em 23/06: 202
Taxa de crescimento: 71,19% 
População: 26.005 
Incidência por mil habitantes: 7,77
Recuperados: 107

- Nova Brasília  
Casos em 02/06: 100 
Casos em 23/06: 183
Taxa de crescimento: 83% 
População: 16.716 
Incidência por mil habitantes: 10,95
Recuperados: 84 

- Fazenda Coutos  
Casos em 02/06: 86 
Casos em 23/06: 139
Taxa de crescimento: 61,63% 
População: 24.255 
Incidência por mil habitantes: 5,73
Recuperados: 59

- Valéria  
Casos em 02/06: 61 
Casos em 23/06: 136
Taxa de crescimento: 122,95% 
População: 26.210 
Incidência por mil habitantes: 5,19
Recuperados: 60

- São Tomé de Paripe  
Casos em 02/06: 27 
Casos em 23/06: 44
Taxa de crescimento: 62,96% 
População: 7.207 
Incidência por mil habitantes: 6,11
Recuperados: 21

- Cassange  
Casos em 02/06: 7 
Casos em 23/06: 9
Taxa de crescimento: 28,57% 
População: 4.633
Incidência por mil habitantes: 1,9
Recuperados: 5

- Nova Constituinte  
Casos em 02/06: 2 
Casos em 23/06: 3
Taxa de crescimento: 50% 
População: 9.410 
Incidência por mil habitantes: 0,32
Recuperados: 1

* Nome alterado conforme pedido da entrevistada.  
* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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