'Eu ouvi o disparo e vi minha filha desfalecendo', diz mãe de estudante morta no Campo Grande

salvador
03.08.2022, 19:50:00

'Eu ouvi o disparo e vi minha filha desfalecendo', diz mãe de estudante morta no Campo Grande

Sandra Pacheco falou pela primeira vez desde a morte da filha de 15 anos; ela prestou depoimento nesta quarta (3)

Sandra Pacheco, mãe da estudante Cristal Rodrigues Pacheco, de 15 anos, baleada em uma tentativa de assalto nas primeiras horas de terça-feira (2), falou pela primeira vez sobre o crime que levou à morte de sua filha mais velha. Em entrevista concedida à TV Bahia na noite de quarta-feira (3), Sandra deu detalhes sobre o ocorrido e contou como a família faz para seguir em frente no momento de luto.

A mãe, que prestou depoimento nesta quarta à polícia, contou que andava com as filhas pelo passeio do Campo Grande, como fazia todos os dias, quando foi abordada pelas criminosas. "Foi muito rápido. Fui abordada por duas meliantes, uma baixinha e uma do cabelo aloirado. Ela simplesmente anunciou o assalto, eu falei que não tinha celular e ela disse: 'você tem um relógio e uma aliança'. Ela baixou a cabeça e me mostrou um revólver que não consegui identificar o calibre, porque não tenho conhecimento, só sei que a arma era pequena. Ela também estava com uma faca estilo açougueiro com o cabo branco", lembra.

A mãe de Cristal também falou sobre o disparo que matou sua filha na hora. "No manuseio ela acabou acertando minha filha que estava, aproximadamente, a um metro afastada de mim, no muro. Eu ouvi o disparo, vi minha filha desfalecendo. Em seguida, não levaram nada, saíram correndo para o outro lado da rua e eu fui tentar amparar a minha filha. Infelizmente foi tudo tão rápido que ela foi a óbito e o desespero foi tamanho", contou à TV Bahia.

Pela manhã, estudantes, amigos e familiares de Cristal fizeram um protesto pela morte da adolescente. Sandra também explicou que está muito abalada e que não teve forças para participar do ato. "Quero pedir justiça. Cristal era uma menina de 15 anos, amada e querida, como todos podem ver o carinho que essas pessoas estão demonstrando por ela. Acontecer algo assim, a caminho da escola, do nada, é complicado", lamentou a mãe, em luto. 

Sandra também agradeceu as homenagens que vem recebendo de colegas da filha e pessoas que não conheciam a vítima. “[Me senti] abraçada, acarinhada e amada ao saber que minha filha era muito querida [...] Eu fiquei muito surpresa e emocionada, infelizmente eu não consegui participar [da manifestação de mais cedo] porque o coração ainda está muito partido. É muito recente e uma ferida que não vai cicatrizar tão facilmente”, desabafou. 

A mãe da estudante falou sobre os momentos de dor que a família vivencia desde o ocorrido e principalmente sobre o luto que a irmã mais nova de Cristal, de apenas 12 anos, enfrenta. “Eu estou sofrendo muito, minha família, meu esposo e principalmente a minha pequena, que presenciou todo o acontecido. Mas a gente está pedindo forças a Deus e [quero] agradecer a todas essas pessoas que estão nos dando apoio”, concluiu.

Quem era Cristal

A jovem estudante era moradora de um prédio na região do Campo Grande, próximo ao Corredor da Vitória, local de classe média na capital baiana. Segundo amigos e vizinhos, a adolescente sempre foi educada, dedicada aos estudos - ela cursava o 9° ano do ensino fundamental -, amorosa com os pais e a irmã, Fernanda, de 12 anos.

De acordo com depoimentos de pessoas próximas à estudante, Cristal era atenciosa com os amigos e estava disposta a ajudar no que eles precisavam. Sua dedicação aos estudos sempre foi prioridade. 

Como Cristal morreu

Em frente ao Palácio da Aclamação, próximo ao Campo Grande, Cristal ia para o colégio junto com a mãe, Sandra, e a irmã, Fernanda. Do lado direito da avenida, duas mulheres se separaram e, em questão de segundos, fizeram a abordagem, assustando as três, atitude que já é de praxe entre os assaltantes que andam em dupla pelo Centro de Salvador. 

O pedido principal das suspeitas foi o celular da jovem. No entanto, segundo informações preliminares, Cristal teria se recusado a entregar, recebendo um tiro na região do peito por uma pistola calibre 653, em curta distância, segundo o médico e perito do Departamento de Polícia Técnica (DPT), Marcos Mousinho: "Um tiro direcionado para matar".

A mãe, vendo a filha caída no chão, não percebeu que as duas suspeitas levaram a mochila da estudante com todos os pertences, saindo andando, com toda tranquilidade. 

Fernanda, a irmã mais nova, após a situação, correu para pedir ajuda, mas já era tarde e Cristal morreu no local do crime, nos braços da mãe e de transeuntes que passavam e observavam a cena.

Investigações 

Durante toda a terça-feira (3), a Polícia Civil se dedicou a procurar as duas suspeitas do crime. As primeiras informações é que ambas eram moradoras da região do Dois de Julho, onde foram flagradas por câmeras de segurança.

Algumas pessoas de interesse ao caso foram levadas para a 1ª Delegacia, nos Barris. No entanto, foram liberadas após serem ouvidas e prestar depoimento. 

Primeira suspeita presa

No entanto, no fim da noite, uma das suspeitas de matar a jovem Cristal à queima-roupa foi localizada no Subúrbio, presa e levada para a 1ª Delegacia. Logo depois, ela foi encaminhada para a sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba. 

Em conversa com a delegada Andréa Ribeiro, diretora do DHPP, a suspeita, de 31 anos, não informou se ela teria sido a autora do disparo, mas confessou o crime e ainda afirmou que foi um tiro acidental, que passou de raspão pelo seu braço e acabou acertando Cristal no peito. 

“Ela nega que tenha sido a autora dos disparos, mas temos elementos nas investigações, nos autos do inquérito policial que nos permitem afirmar que a suspeita aqui apresentada estaria andando armada desde o mês de junho nas imediações do Centro da Cidade”, detalha a delegada.

Apesar da prisão, a arma do crime ainda não foi encontrada, nem a segunda suspeita do caso. A mulher presa já tem passagem pela polícia e estava com um mandado de prisão em aberto por tráfico de drogas. Ela seria usuária de entorpecentes, além de ser moradora da região do Centro da Cidade. 

Após o depoimento, ela foi levada para o Departamento de Polícia Técnica (DPT) e, em seguida, para o sistema prisional. 

O adeus a Cristal / Caminhada pela segurança

No mesmo dia do assalto, Cristal foi enterrada sob forte comoção e revolta de alunos, pais, amigos, parentes e vizinhos. Por volta das 17h, o corpo da jovem saiu da capela do cemitério e foi levado para o sepultamento.

Amigos e familiares estiveram no enterro da menina e ficaram chocadas com a partida precoce da jovem, que era considerada doce, especial e muito amiga.

"Não tenho palavras para descrever. Minha filha está abalada, sem acreditar. Está todo mundo sem acreditar. Estive com a mãe dela mais cedo, está dilacerada, a família toda dilacerada. E nós mães, que temos filhos, a mesma coisa. Ela perdeu a filha dela e a gente perdeu um pedacinho também", disse Edilânia de Oliveira.

O primo da mãe da adolescente, Nilton Cesar Santos de Jesus, de 47 anos, lamentou a morte da parente e relembrou que a menina estava sem seu casamento há oito anos atrás, feliz e se divertindo com o evento. Ele aproveitou para pedir que os governantes tomem providência, já que poderia ser apenas mais um caso isolado em Salvador. 

"Arma tem que ficar na mão de policiais, não na mão de bandido. E a gente está vendo nossos governantes querendo armar a população. Vamos desarmar, e não armar".

Na manhã desta quarta-feira (3), alunos de diversos colégios particulares, além de professores e amigos de Cristal estiveram no local do crime para fazer uma corrente de oração e uma caminhada para pedir paz. 

O trânsito no Centro da Cidade ficou congestionado por um tempo, mas nada impediu que centenas de pessoas saíssem do Campo Grande com cartazes e bolas brancas. Eles foram em direção ao Colégio Nossa Senhora das Mercês, onde gritavam por "Justiça". Por fim, eles se encaminharam para o Quartel da Polícia Militar, nos aflitos. Sentados na calçada da instituição, as pessoas seguiram com as palavras de ordem e um único pedido: "Prendam a segunda mulher".

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