Família mantém pertences de mestre Moa intactos desde a sua morte

salvador
22.11.2019, 18:00:00
(Marina Silva/CORREIO)

Família mantém pertences de mestre Moa intactos desde a sua morte

Chapéu que ele usava no dia do crime está guardado em ateliê

Tudo está exatamente do jeito que ele deixou. No ateliê, que funciona no segundo andar de uma casa na comunidade do Dique Pequeno, a poeira encobre mesas, cadeiras e ferramentas usadas no trabalho do mestre de capoeira e músico Moa do Katendê, 63 anos, morto a facadas em outubro de 2018, após uma discussão política em um bar.

Embaixo de uma mesa, também há um cesto de palha com cabaças. Sinais de um trabalho iniciado pelo artista, que planejava começar uma produção de pouco mais de 20 berimbaus. Não deu tempo.

“Meu tio sonhava com um futuro melhor para as crianças da comunidade. O dinheiro de cada berimbau seria usado para comprar materiais para a construção da Fundação Mestre Moa. A intenção dele era dar aulas de graça de capoeira e dança para a meninada", conta a sobrinha do capoeirista, a consultora de vendas Renilda da Conceição Costa, 42, um dia após o assassino de Mestre Moa ser condenado a 22 anos de prisão. 

Cesto com cabaças ainda está no local
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, autor confesso do crime, foi condenado em júri popular, que aconteceu nesta quinta-feira (21), no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. Ele foi condenado a 17 anos e 5 meses pelo assassinato, considerado pelo júri popular como homicídio duplamente qualificado, além de ter pego mais 4 anos e 8 meses por tentar matar Germino do Amor Divino, primo do mestre de capoeira, que estava com ele na hora do crime. A pena deverá ser cumprida em regime fechado.

Após leitura da sentença, Paulo Sérgio foi encaminhado para a Penitenciária Lemos Brito, no Complexo Penitenciário da Mata Escura. Ainda no julgamento, a defesa do barbeiro informou vai recorrer da decisão. Procurado pelo CORREIO, o promotor do caso, David Galo informou que até o momento isso não ocorreu.

Na manhã desta sexta-feira (22), o CORREIO visitou o ateliê de Mestre Moa, no Dique Pequeno, localidade do bairro de Engenho Velho de Brotas. A sobrinha do capoeirista falou sobre a condenação e relembrou do apego que tinha pelo tio.

"Era a minha referência como pessoa, como pai, como idealizador. Hoje, as lembranças do meu tio me mantêm forte", disse.

Ela conta que a decisão de manter todos os objetos intactos foi da própria família, para preservar o legado deixado pelo capoeirista. As lembranças, no entanto, ainda são difíceis de lidar. “Ele deixou muitas memórias e a que mais dói é esta aqui, o ateliê dele. Venho aqui muito pouco, porque sinto muito a falta dele. Vir aqui mexe muito comigo”, contou ela, enquanto segurava uma camisa regata amarela. “É a camisa que ele mais gostava de usar para trabalhar”, emendou. 

Entre atabaques, palhas, roupas, réguas e lixadeiras, o livro de cabeceira de Moa: A Capoeira de Angola na Bahia, de Mestre Bola Sete. “Ele era muito inteligente, lia de tudo, sabia falar de tudo. O que você perguntasse, ele tinha uma resposta na ponta da língua, mas este livro, ele leu e releu inúmeras vezes. Não vivia sem ele”, contou Renilda, emocionada. 

Mas no local nem todas as lágrimas são provocadas por lembranças bonitas da vida de Moa. Entre os objetos da memória do mestre está o chapéu de palha que ele usava no dia do crime. “Ele gostava muito deste chapéu. Não sei por que, mas ele gostava. Meu tio foi esfaqueado em vários pontos, inclusive na cabeça. Durante o ataque, o chão ficou danificado”, relatou ela, exibido o local da avaria no chapéu. 

Chapéu que mestre Moa usava quando foi morto traz marca de facadas
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Sentença
Renilda disse que no dia do julgamento chegou no fórum às 8h e só saiu às 21h – meia hora antes, a juíza lia a sentença com a decisão do júri popular. O sentimento, segundo conta, foi de alívio.

“Foi feita a justiça. Houve uma comoção nacional e também uma mobilização internacional, pois o meu tio tinha alunos nos Estados Unidos e em outros países. Tudo isso fez com que as coisas não demorassem, embora saibamos que têm casos aí que levam até mais de cinco anos para terem a primeira audiência”, declarou. 

Segundo a sobrinha, num determinado momento do julgamento, Paulo Sérgio detalhou como atacou o capoeirista. “Os movimentos que ele fazia, mostrando como deu os golpes, a força que ele empregava nos braços, denotavam a frieza. Quando o promotor começou a detalhar os locais e a extensão das perfurações, senti como se as facadas fossem em mim; Precisei sair nessa hora, pois passei mal”, lembra com tristeza.

O CORREIO teve acesso à sentença da juíza Gelzi Maria Almeida Souza Matos, do 1º Juízo da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Salvador. Em relação ao assassinato, a magistrada pontuou que a vítima foi golpeada 13 vezes.

"Analisando as circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do CP, temos que a culpabilidade do réu é acentuada em virtude do número de facadas perpetradas, pois, desferindo 13 (treze) golpes, demonstrou acentuado dolo homicida, revelando que a reprovabilidade da conduta extrapolou o ordinário do respectivo tipo penal e que justifica a exasperação da pena base”. 

Ainda sobre a sentença, a juíza falou sobre a periculosidade de Paulo Sérgio. “Verifico que a gravidade em concreta dos delitos, somado ao modus operandi do agente, um homicídio qualificado e um homicídio tentado, praticados por motivação fútil e mediante emprego de recurso que impossibilitou a defesa das vítimas, quando foram desferidos treze golpes de faca contra a vítima fatal, denotam elevado grau de periculosidade do acusado, além de provocar, no seio da sociedade, repulsa e indignação além da normalidade. Desta forma, faz-se imperiosa a manutenção da custódia preventiva do agente como forma de acautelar o meio social, garantindo a ordem pública, não sendo as medidas cautelares diversas da prisão suficientes para tanto”, diz trecho do documento. 

De acordo com a promotoria do caso, a maior parte dos ferimentos foi no pescoço e no tórax do capoeirista.

(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)
(Marília Silva/CORREIO)

Fundação
Ao lado do ateliê do capoeirista, está a Fundação Mestre Moa – um prédio de dois andares, com acabamento apenas de reboco. Quando o mestre de capoeira foi assassinado, no local havia somente matagal e alguns sacos de cimento e areia comprados pelo próprio mestre.

“Com a venda dos berimbaus que estava produzindo, ele esperava comprar materiais para dar início à obra. Então, com a morte dele, nos mobilizamos para não deixar o sonho ser enterrado junto com ele. Conseguimos doações e tiramos do papel”, declarou a sobrinha Renilda. 

Pouco tempo depois, as doações cessaram e a família não teve condição de arcar com os demais custos. “Logo após a morte dele, amigos, alunos e outros mestres de capoeira doaram o que podiam. Teve muita gente daqui, mas teve também doações de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis. Quem não puder ajudar com dinheiro, pedimos que doe materiais ou objetos como vasos, janelas, portas, pias. Precisamos de toda a ajuda possível”, disse ela.  

Alunos aproveitaram caminha para comemorar a sentença de acusado de matar Mestre Moa (Foto:Bruno Wendel/CORREIO)

Escola
Ainda na manhã desta sexta, alunos do Colégio Estadual Mestre Moa do Katendê, no Engenho Velho de Brotas, aproveitaram uma caminhada ecológica e cultural na localidade de Dique Pequeno para comemorar a sentença dada ao assassino do mestre.

“Uma feliz coincidência. A terceira edição da caminhada, na semana da Dia da Consciência Negra, ocorre um dia após o julgamento de um crime bárbaro e nós, do colégio, resolvemos também celebrar essa vitória, que é de todos nós”, declarou a diretora da escola Rodrinice Santana Barbosa. 

A unidade de ensino tem cerca de 300 estudantes e antes levava o nome do jornalista, empresário e fundador da Editora Abril, Victor Civita, descendente de judeus italianos, nascido nos Estados Unidos e naturalizado brasileiro.

“Depois que o colégio passou a ter o nome de Mestre Moa, os alunos passaram a se enxergar, a ter identidade, orgulho de estudar numa unidade que homenageia uma pessoa da comunidade e que era querida e admirada por todos. Os alunos têm Mestre Moa como referência”, disse Rodrinice.

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