Favela contra o vírus: comunidades se unem para amenizar estragos da pandemia

salvador
28.03.2020, 07:00:00
Atualizado: 28.03.2020, 09:50:20
Alex Cruz e Alana de Carvalho, ambos da Frente Nacional Negros e Negras, distribuem alimentos para dona Rosa, moradora do Calabar (Divulgação)

Favela contra o vírus: comunidades se unem para amenizar estragos da pandemia

Em Salvador, há doações e campanha de arrecadação para ajudar pessoas em dificuldade; veja como ajudar

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“Pronto, pessoal. Trazendo já a cesta básica aqui da...”

“De Michele?”, interrompe o morador da casa de cima.

“...Não, aqui é do pessoal aqui, depois eu trago aí já. Boa, minha senhora, como é que está? Depois eu vou trazer o resto, já estou trazendo”, completa Alex, enquanto deixa uma cesta básica na porta de uma casa no bairro do Calabar, em Salvador.

Em tempo de coronavírus, essa é a nova rotina do estudante Alex Cruz dos Santos. Pelo menos uma vez por semana, ele tem saído para distribuir os mantimentos que consegue arrecadar através de seus contatos como aluno da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e dirigente da Frente Nacional de Negros e Negras, um coletivo de combate ao racismo.

“A gente ficou incomodado. Nosso grupo é formado por estudantes, professores, militares, profissionais de saúde. Em abril vai ter o pico (de casos da Covid-19, estima) e a gente, preocupado com isso, com as pessoas não poderem sair de casa, fez essa mobilização. Conseguimos algumas cestas básicas, demos, e estamos tentando mobilizar para que possamos fazer isso pela última vez, já que nas próximas semanas é bom estar mobilizado para ficar em casa”, explica Alex, pensamento no isolamento necessário para acabar não virando um transmissor da doença nem se infectando.

Morador do Alto das Pombas, ele pretende voltar ao bairro vizinho neste sábado (28) para ajudar mais pessoas na situação da desempregada Rosmary Pereira, 55 anos, conhecida como dona Rosa. Antes de abrir o sorrisão aí da foto, ela contou o aperto que tem passado: “A casa imunda, não tem nada. Pra comer tenho um cuscuz, uma farinha de cuscuz, mas é bem pouco”.

Ajudar o próximo é uma ação que pode fazer ainda mais diferença em meio a essa pandemia. É que 72% dos moradores de favelas no Brasil já não estão conseguindo manter o padrão de renda e 32% terão dificuldade de comprar comida por causa da crise econômica resultante da Covid-19. Tais números são resultado de uma pesquisa divulgada nesta semana pelo Data Favela sobre o impacto do novo coronavírus na população brasileira moradora de favelas, estimada pelo instituto em 13,6 milhões de pessoas (o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em 2010, contabilizou 11,4 milhões).

O alto percentual se explica por um outro dado notado no cotidiano das grandes cidades e mostrado no levantamento: 55% dos trabalhadores que moram em favelas são autônomos ou informais. Com isso, sentem mais forte o baque financeiro causado pela diminuição da circulação de pessoas nas ruas, recomendação do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde para conter o avanço do vírus. Só 19% têm carteira assinada, o que garante um suporte da legislação trabalhista.

Criado em parceria pela Central Única das Favelas (Cufa) e pelo Instituto Locomotiva, o Data Favela entrevistou 1.142 pessoas em 262 favelas espalhadas nas cinco regiões do país. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Em Salvador, a seção local da Cufa reuniu lideranças comunitárias de 62 bairros em um grupo de WhatsApp. A partir desse mapeamento são organizadas possíveis ações. A entidade criou uma campanha nacional para arrecadar alimentos e itens de higiene pessoal e de limpeza: Favela contra o vírus.

“A gente está articulando para conscientizar as pessoas da importância de ficar em casa e, no grupo (de WhatsApp), a gente fala de como elas estão enfrentando este momento em que não têm recurso para se alimentar e ficar dentro de casa, porque muitos trabalhadores são da informalidade. Na região de Alagados mesmo, o pessoal vive da feira, aquela feira livre que tem ali. Então a maior dificuldade para eles foi isso, questão de material de limpeza, cesta básica”, conta o assistente social Márcio Lima, coordenador da Cufa Bahia.

A solução nesse caso foi estabelecer um ponto de coleta na região. É o Espaço Cultural Alagados, prédio pertencente à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) onde já funcionam instituições sociais. Fica localizado no final de linha do Uruguai (Rua Silvino Pereira, s/n). À medida que houver doações, a Cufa vai fazer a ponte com as pessoas a serem beneficiadas.

Equipe da Cufa visita uma moradora no Uruguai para conscientizar sobre a importância de ficar em casa (Foto: Divulgação)

Ações como essa estão engatilhadas também em Sussuarana e só dependem de oferta para se expandir a outros bairros, pois demanda há de sobra. De acordo com o censo 2010 feito pelo IBGE (o mais recente disponível), 33% da população da capital baiana vivem em favelas - que na definição do instituto são conjuntos com mais de 50 residências “carentes de serviços públicos essenciais, ocupando terreno de propriedade alheia e estando dispostas de forma desordenada e densa”. Percentual bem acima da taxa nacional, de 6%.

A campanha espera atrair a iniciativa privada. Na esfera nacional, por exemplo, a indústria de alimentos JBS anunciou a doação de 2 milhões de sabonetes a partir de segunda-feira (30), em ação voltada principalmente para idosos em São Paulo e no Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país e que concentram a maioria das mortes por Covid-19. E a fabricante de produtos de limpeza Ypê promete doar 100 mil barras de sabão para moradores da favela de Paraisópolis, na capital paulista.

“Aqui em Salvador a gente começou a campanha na segunda-feira e está recebendo mais ajuda de amigos, pessoas físicas. A campanha aqui na Bahia ainda está fraca, em alguns outros estados que eu tenho acompanhado está muito forte, caso de Sergipe aqui mais próximo. As coisas são simples, o pessoal não quer só álcool gel. Sabonete, sabão em pó, material de limpeza, coisas básicas também, porque às vezes até ficar dentro de casa, com a quantidade de crianças que tem nas favelas, o custo é muito alto. E como o álcool gel está escasso até para as unidades hospitalares, o kit de higiene básico ajuda. A Cidade Baixa, por exemplo, é muito carente de água. Lá falta muita água”, afirma Márcio Lima.

Feirantes do Mercado do Jardim Cruzeiro recebem máscaras (Foto: Acervo pessoal de Rafael Araújo)

‘Tem feirante que não tem caixa para um mês’

Os feirantes do Mercado Municipal do Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa, não sofreram tanto quanto os colegas das unidades situadas em Itapuã, Cajazeiras, Bonfim, Liberdade e Dois de Julho, que tiveram que fechar os boxes devido ao decreto assinado pelo prefeito ACM Neto na tentativa de conter a propagação da Covid-19 em Salvador. Mas nem por isso deixaram de sentir o impacto.

Com a diminuição da circulação de pessoas nas ruas, os autônomos do estabelecimento que atende aos moradores do bairro e adjacências como Uruguai e Massaranduba viram o movimento cair e reduziram o horário de funcionamento.

O CORREIO conversou com Rafael Araújo, vice-presidente da Associação dos Feirantes do Jardim Cruzeiro e para quem o assunto atravessou geração: o pai dele foi um dos fundadores da feira do bairro, na época em que os caixotes ficavam expostos na rua.

Araújo ressalta o momento de união para amenizar o prejuízo financeiro. “Lançamos uma campanha para buscar apoio de alguns empresários locais para captar recursos e ajudar algumas pessoas. Nós vamos comprar alimentos para fazer doação e equipamentos de higienização, como Q-boa, álcool, máscara, para algumas famílias. A gente faz uma triagem para ver de fato as pessoas que mais necessitam, pois não vai dar para ajudar todas. São feirantes que não têm caixa para ficar um mês em casa”, explica.

Quero ajudar, faço como?

A Central Única das Favelas é uma opção para fazer a ponte. “É só ligar para um dos líderes que a gente encaminha. O grupo Favela contra o vírus tem gente de todo lugar de Salvador e da grande Salvador. Se alguém quiser doar alguma coisa, a gente fala no grupo, vê quem pode receber a doação, onde e direciona”, explica o coordenador da Cufa Bahia, Márcio Lima. O telefone dele e o de mais três lideranças estão à disposição: (71) 99901-2524 (Márcio), 98367-1160 (Danúbia Santos), 99217-9000 (Tatiane Anjos) e 98527-6721 (Jamira Alves). Doações de dinheiro também podem ser feitas pela internet, através do site www.cufabahia.com.br/favelacontraovirus

SALVADOR UNIDA 
O Correio está reunindo exemplos de ações sociais, conteúdos de diversão para a criançada, programações musicais online, cursos, e tudo o que possa ajudar a trazer mais leveza para esse período de isolamento social. Confira: https://bit.ly/salvadorunida

O Salvador Unida é uma iniciativa do Jornal CORREIO em parceria com o Sebrae, apoio institucional da Prefeitura de Salvador e apoio do Fecomércio, Sotero Ambiental, Acomac, Salvador Bahia Airport, Fieb, Hapvida, Ademi, Viltalmed, Intermarítima, Claro, Hapvida e Hospital da Bahia.

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