Festa do Bonfim já foi celebrada na Páscoa e igreja já teve portões fechados para as baianas

clarissa pacheco
10.01.2021, 07:00:00

Festa do Bonfim já foi celebrada na Páscoa e igreja já teve portões fechados para as baianas

Cardeal arcebispo Dom Lucas Moreira Neves considerava "perturbadora" a interferência da lavagem na festa católica e chegou a discutir com representantes do candomblé

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Lavagem do Bonfim de 1990: baianas encontraram portões da Basílica fechados
(Foto: Francisco Galvão/Arquivo CORREIO)

O portão fechado e a ausência das fitinhas coloridas penduradas podem enganar, mas esta fotografia foi feita durante a Festa do Bonfim de 1990, sem direito a lavagem das escadarias, nem acesso das baianas ao adro da Basílica. Em 1990, o cardeal Dom Lucas Moreira Neves era o arcebispo de Salvador e, de perfil conservador, era contrário à lavagem e à presença do candomblé por ali.

“A imagem de 1990, da baiana de braços abertos de frente para a Igreja do Bonfim com os portões do adro fechados, está carregada de simbolismo. É um elo de mundos e de tempo evidenciando resistências e tradições em um hibridismo cultural abaianado”, afirma o historiador Rafael Dantas.

A festa do Bonfim que conhecemos hoje - e que, este ano, também estará diferente, por conta da pandemia - já passou por uma série de mudanças ao longo dos anos. A data foi uma delas. Antes de 1773, a festa era celebrada na Páscoa. Durou pouco tempo, já que a devoção ao Senhor do Bonfim, por aqui, começou apenas em 1745, após a chegada de uma imagem, trazida de Portugal pelo comerciante e traficante de escravizados Teodósio de Faria. Ele sobreviveu a uma tempestade no mar e prometeu que traria uma imagem a Salvador.

"Em Salvador, a imagem do Bonfim foi colocada incialmente na Igreja da Penha. Em Portugal, o culto ao Senhor do Bonfim já era uma realidade. Nesse mesmo período, diversos outros festejos religiosos já estavam inseridos na Bahia, caracterizando a província como um dos lugares mais plurais nesse contato entre tradições e costumes. A religião era o grande foco da organização social na Bahia. Ainda em 1745 surgiu a Irmandade do Bonfim e nos nove anos seguintes foi construída a capela/Igreja na Colina Sagrada, lugar ainda sem a menor infraestrutura na época", explica Rafael, que estuda a iconografia de Salvador nos séculos XIX e XX.

As primeiras procissões com a imagem do Senhor do Bonfim aconteceram na década de 50 do século XVIII - a imagem seguia da Ribeira até o Bonfim. Daquela época até 1773, o festejo era comemorado na Páscoa. Então, passou a ser festejado no segundo domingo após a epifania do Senhor - o Dia de Reis. A data foi oficializada em 1804 pelo papa Pio IV. Em 1811, explica Rafael, a festa já contava com a presença de diversas atividades comerciais. E a relação com as tradições afro-baianas também já estava lá. Há registros que apontam que a abolição da escravatura foi celebrada aos pés do Senhor do Bonfim.

"A ligação com o universo de tradições e costumes afro-baianos está presente desde o início do culto a Bonfim. Provavelmente, a Lavagem do Bonfim surgiu ainda no século XIX, estando ligada aos preparativos de limpeza e arrumação da igreja para o dia de festa", explica Rafael.

Daí porque a lavagem, com a presença das baianas, acontece numa quinta-feira, enquanto a festa do Bonfim, a parte mais católica do festejo, no domingo seguinte. "No decorrer de todo o século XIX, diversos representantes das elites políticas e eclesiásticas se manifestaram contrárias a Lavagem e aos batuques, festejos afro-baianos no mês de janeiro, durante os festejos do Bonfim. A Lavagem foi proibida em 1890", lembra Rafael.

"O príncipe Maximiliano, em visita a Bahia em 1860, registrou em seu diário que ficara chocado com os batuques e as manifestações populares na festa do Bonfim. Maximiliano de Habsburgo não estava só nas severas e conservadoras críticas aos festejos. As tentativas de proibir a lavagem e estabelecer posturas moralizantes no festejo continuaram em diversos outros momentos no século XX", continua o historiador.

O traçado que conhecemos hoje da festa, com uma caminhada entre a Conceição da Praia e o Bonfim, se consolidou apenas em 1930. Cinquenta anos depois, na década de 1980, a festa era divulgada pela Bahiatursa como uma das mais tradicionais da Bahia. O reforço na imagem da festa como símbolo da identidade baiana havia começado poucos anos antes, com políticos - como Antonio Carlos Magalhães - e imprensa dando grande visibilidade aos festejos.

Se, por um lado, a lavagem atraía baianos e turistas, por outro, posturas mais conservadoras demonstravam contrariedade à lavagem. Em setembro de 1987, o mineiro Dom Lucas Moreira Neves tomou posse como arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. E ele não escondeu sua contrariedade em relação à lavagem.

"Em janeiro de 1989, Dom Lucas entrou em atrito com representantes do candomblé baiano, ao ameaçar impedir a lavagem do adro da Igreja do Senhor do Bonfim pelas baianas, filhas de santo. Acabou por permitir a realização do ritual fazendo, no entanto, um apelo aos participantes para 'não profanarem o espaço da basílica'", diz um trecho do verbete dedicado a ele no site da Fundação Getúlio Vargas.

Em 1992, o cardeal escreveu um texto - ele é um dos imortais da Academia Brasileira de Letras - sobre as lições da Lavagem do Bonfim. Dom Lucas afirma que recebeu o "primeiro brutal impacto da 'lavagem' ao ligar a televisão três meses após sua chegada a Salvador e ver o adro da Basílica do Bonfim, "símbolo maior da fé dos baianos, feito pista de dança, inundado pelo som ensurdecedor da música mais excitante que se pudesse imaginar e tomado de assalto por uma multidão promíscua, ébria de entusiasmo e de outras substâncias". E continua:

"Bem sei que 'a praça é do povo' e que todos os cidadãos têm o direito e a liberdade de promover quantas 'lavagens' queiram. Mas sei também que o direito e a liberdade de um - pessoa ou comunidade que seja - terminam onde começam o direito e a liberdade do outro. Acho, pois, perfeitamente injusto e lesivo que sacerdotes e fiéis, cidadãos para todos os efeitos, se vejam espoliados da sua liberdade e direito de celebrar uma antiga e venerável festa religiosa católica por não encontrarem o ambiente propício naquele templo, invadido pelos remanescentes da 'lavagem'", escreveu.

Para ele, a interferência da lavagem na festa católica era perturbadora, por isso os portões da Basílica fechados durante a lavagem de 1990. "Ligar o nome sacrossanto do Bonfim aos excessos viciosos da carreata é já uma forma de desnaturar o sentido religioso da festa. Mas além disso, a 'lavagem' está roubando aos fiéis seu inquestionável direito a participar, naquela noite, da novena, que considero uma das coisas mais bonitas e significativas da Bahia", escreveu.

Dom Lucas permaneceu como arcebispo de Salvador até 1998. Nos anos seguintes, a festa foi, aos pocuos, sofrendo novas transformações, até contar com portões abertos e lavagem do adro da Basílica, como acontece atualmente. Nos últimos anos, a imagem do Bonfim também participa da procissão no dia da lavagem, além do festejo católico, que segue até o segundo domingo após o Dia de Reis.

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