Flavia Azevedo: Festas populares da Bahia misturam divindades e profanações

bahia
15.01.2019, 02:00:00
Atualizado: 15.01.2019, 08:23:27
(Foto: Arquivo CORREIO)

Flavia Azevedo: Festas populares da Bahia misturam divindades e profanações

Oxalá é rei e dono da maior festa do Verão baiano, tirando o Carnaval

“Junto com o Verão e o sol, os filhos da Bahia saem de casa e se instalam nos largos da cidade. Começam os festejos populares em homenagem a Santa Bárbara ou Iansã, na Baixa dos Sapateiros, seguem para a Conceição, Bonfim, Ribeira, Rio Vermelho e acabam na Praça Castro Alves, com o Carnaval. Uma mistura de atabaques, samba, com berros de Sidney Magal e Agnaldo Timóteo e músicas estrangeiras é o que se ouve em todas as barracas esparramadas ao redor das igrejas. Em todas elas, uma história para contar, um amigo por encontrar, uma paquera e um convite à alegria”. (Correio da Bahia, terça-feira, 4 de dezembro de 1979)

No trecho acima, o roteiro principal da poesia que durante o Verão invade as ruas da cidade da Bahia. Nossas festas populares são encontros de santos e Exus, convenções de divindades e profanações, misto de devoção e  irreverência. É o que é: fricção (em vários sentidos) produzindo incríveis crônicas para quem tem olhos e ouvidos atentos. Foi assim, por exemplo, no dia em que, há 40 anos, o cardeal Brandão Vilela se zangou demais com “bebedeiras, cachaçadas, devassidão e depravação”, ameaçando separar sagrado e profano da festa da Conceição da Praia. E também na cena, vista por muitos na Lavagem de Itapuã de 1980, quando o jarro da baiana quebrou, “parindo” uma lata de cerveja secretamente mergulhada em água, flores e fé. Traquinagem na festa que nasceu assim mesmo quando, por volta de 1895, crianças lavavam – por pura brincadeira – as escadarias da igreja. 
Odoyá!

(Foto: Arquivo CORREIO)

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A despeito de intelectualidades, estudos e pedidos de separação, é a hora que a plurilinguagem religiosa nos invade e não há quem duvide que, em cada santo católico, há também um orixá. Abre alas Santa Bárbara (Eparrey, Oyá!), no dia 4 de dezembro, vestindo de vermelho o Centro Histórico, alimentando - de quiabo, missa, batuque e dendê - corpo e alma de devotos e foliões. Há 40 anos, a festa dela começava no Rio Vermelho onde até hoje acontece o Dois de Fevereiro, quando a saudação é outra: Odoyá!  É entre os dias das duas santas/orixás que tudo rola: inclusive Jesus vira pop star, como atestou o repórter Alexandre Lyrio, em 12 de janeiro de 2017.  

Acontece, aconteceu e acontecerá, revelando fluxos e refluxos de modos e costumes. Porque nada é linear - nem os jeitos de lidar com a fé –, Nossa Senhora da Conceição da Praia (que também é Oxum, anote aí) deixou de receber as tradicionais doações de cabelos das devotas. Vai ver foi por causa da crise (o povo hoje vende cabelo, né?) que aconteceu coisa nunca vista: o estoque de fios usados para a confecção da peruca que adorna a imagem chegou ao fim, no ano passado, como noticiamos em matéria de Fernanda Lima. Torcemos pelo milagre da volta das doações.

(Foto: Arquivo CORREIO)

Ahhhh, a Lavagem do Bonfim! Oxalá é rei e dono da maior festa do Verão baiano, tirando o Carnaval. Um burburinho que toma a Cidade Baixa e, seja na parte religiosa ou profana, sempre deu o que falar. Nossos primeiros registros já dão conta de duas confusões. Primeiro era a falta de educação de alguns que chamavam de “importadas” as cariocas, filhas de terreiros baianos, que desembarcavam na escadaria com seus jarros e águas de cheiro. Muita gente reclamava, mas essa até que podia passar. 
trios elétricos

Desarmonia maior tinha a ver com os trios elétricos. Eram os anos 80 e a prefeitura deixava rolar (não tinha cadastramento), mas pedia que, espontaneamente, se organizassem: mil baianas, blocos, cordões, afoxés, escolas de samba, os hoje banidos jegues, carroças, foliões, centenas de ciclistas e os trios. Que passavam na frente, claro, e acabaram proibidos porque não tinha como dar certo, mesmo, aquela confusão.

(Foto: Arquivo CORREIO)

E na parte religiosa tinha paz? Obviamente que também não. Em 1989, dom Lucas Moreira Neves ameaçou fechar o adro da igreja e em 90 passou-lhe o cadeado. Só depois de quase duas décadas o povo pôde voltar a lavar e sambar na área. Em 2009, a igreja é aberta e a imagem de Nosso Senhor do Bonfim faz as pazes com a lavagem, em uma inesquecível aparição.

Dois de fevereiro (que agora começa dia primeiro) marca o início do intervalo até o Carnaval. No Rio Vermelho também já teve trio, tiro, porrada e bomba. Todo mundo tinha medo daquilo ali. Reeditada, a festa acalmou. E até o empurra-empurra que era comum na fila do presente de Iemanjá (essa reina apenas como orixá), não se vê mais. É festa por toda a praia, viradão de shows nos bares e certa paz. 

(Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

‘Novas tradições’
Há outras festas religiosas e profanas, lavagens em muitos bairros, numa imensa lista de “novas tradições”, cheia de acontecimentos. Neste ano, a Galeota Gratidão do Povo não esteve na procissão marítima de Bom Jesus dos Navegantes, por exemplo.  Ao longo do tempo, a Segunda-Feira Gorda da Ribeira emagreceu. 

As Festas de Reis, São Lázaro e Santa Luzia passaram a ser programas da Bahia profunda, aquela coisa para “iniciados”. Amanhã, não sabemos. Muda a forma, muda o fluxo. Permanece a certeza – no corpo e na alma – de que as festas populares são o que há de mais nosso, o retrato da nossa essência, onde manifestamos o santo, o profano e outras coisas que só existem neste nosso canto do Brasil.


 



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