Funcionário tem validade?

salvador
31.05.2019, 11:40:00

Funcionário tem validade?

Especialista fala sobre a inclusão dos 50+ no mercado de trabalho

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Diante desse questionamento, é provável que você fique chocado — ou, pelo menos, deveria. Um ser humano não é uma máquina com garantia de fábrica nem um produto de supermercado com data de consumo. Um trabalhador não tem prazo de validade. No entanto, na prática do mercado, é como se tivesse.

Dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, entre 18 e 24 anos, a taxa de desemprego é mais que o dobro da taxa da população trabalhadora em geral. Por outro, os profissionais mais seniores batalham para permanecer na ativa.

A inclusão dos 50+ no mercado de trabalho ainda não é um desafio para as empresas (Foto: Shutterstock)

Ainda segundo o IBGE, a população atual acima dos 60 anos deve representar 32% dos brasileiros em 2060. Ano passado, esse indicador estava em 13%.

Para debater o tema da inclusão dos 50+ no mercado de trabalho, o GPTW conversou com Mórris Litvak, CEO e fundador da MaturiJobs. A plataforma lançada em 2015 se propõe a reunir oportunidades de trabalho, desenvolvimento pessoal, capacitação profissional, empreendedorismo e networking com o objetivo de conectar pessoas maduras e empresas.

GPTW – De maneira geral, qual é a realidade dos profissionais 50+ no Brasil atualmente?

MÓRRIS – A situação é preocupante quando olhamos para o grupo que busca se recolocar no mercado. Muitas pessoas inscritas na nossa plataforma estão vivendo esse momento forçadas pela onda de demissões na crise, mas a verdade é que os 50+ são quase invisíveis para o mercado. Com 40 anos já fica difícil a pessoa se recolocar, com 50 anos o desafio é ainda maior. A pessoa tem experiência, um bom currículo, conhecimento e tem também muito chão pela frente, mas existe um preconceito etário muito grande.

GPTW – Em sua opinião, de onde vem esse preconceito etário?

MÓRRIS – Com certeza é cultural. Existe um estereótipo em torno das pessoas mais maduras. Estereótipo de que são pessoas desatualizadas, de que são profissionais muito caros, que não estão abertos a ganhar menos, que não estão dispostos a fazer algo diferente da atividade exercida anteriormente… Além do mito de que são mais lentos. Mas, de novo, são mitos.

GPTW –  O preconceito etário é mais acentuado quando falamos das mulheres no mercado de trabalho?

MÓRRIS – Sem dúvida as mulheres sofrem mais com isso. Observamos que as organizações costumam procurar mais homens do que mulheres 50+ para preencher as vagas de liderança.  Existe, sim, uma predileção. Talvez por isso, a mulher costuma ser mais rápida para buscar alternativas em relação ao trabalho tradicional (CLT) e mais aberta para possibilidades diferentes, como o empreendedorismo. Isso acontece também por uma questão cultural e social. O homem sofre muito com a perda do sobrenome corporativo, me parece que se abala mais com isso do que a mulher. É quase como, no imaginário geral, a identidade masculina dependesse do status de determinado cargo em determinada empresa.

GPTW – E como contornar essa barreira do preconceito?

MÓRRIS – Talvez, o primeiro passo seja mudar a cultura. No Brasil, temos uma cultura voltada para o jovem. O Brasil é um país que envelheceu muito rápido, mas não se enxerga assim. A França levou quase 100 anos para dobrar o número de idosos, nós estamos levando 20 e tantos. Esse ritmo acelerado faz com que a mudança no perfil etário seja mais veloz que a resolução de questões básicas de saúde, de infraestrutura e, também, de mercado de trabalho. Não existe uma estrutura pensada para acomodar essas mudanças e isso é grave. As empresas estão longe de priorizar esse tema, pois acreditam que lidar com o público 50+ é uma escolha que ela pode ou não fazer. Só que não é. A questão não é se a empresa vai fazer algo sobre isso, mas quando vai. Porque o crescimento acelerado da população acima dos 50 já é uma realidade.

GPTW – O que as empresas devem fazer, então?

MÓRRIS – Muito se fala sobre o bônus demográfico do Brasil e de como ele está passando, mas ainda temos chance de aproveitar essa oportunidade. Isso se mudarmos o pensamento e a postura. Se mudarmos a mentalidade e criarmos políticas públicas, adotarmos práticas de mercado voltadas para isso etc. É importante entender que não é só o jovem que quer — e que precisa — trabalhar. Já existem projetos de lei de cotas etárias e discutem-se políticas de incentivo para as empresas manterem as pessoas trabalhando por mais tempo, mas a mentalidade corporativa ainda não mudou. As organizações alegam que é mais custoso contratar um profissional maduro e apontam o gasto com o plano de saúde como exemplo. No entanto, estudos mostram que, apesar do gasto com saúde ser maior, o absenteísmo e o turnover caem com a contratação dos 50+. Isso traz uma economia significativa paras as empresas. Também existe o ganho na diversidade. Os 50+ trazem pontos de vista e experiências diferentes, tanto é que, na MaturiJobs, temos trabalhado bastante com esses modelos de negócio. Como as startups muitas vezes precisam de um olhar mais experiente para lidar com determinados assuntos, estamos fazendo ações interessantes que conectam esse nicho com os profissionais maduros. Os 50+ acabam exercendo esse papel de consultor e de mentor nas startups.

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